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Paulo José Corrêa

Linguagem caridosamente correta (Paulo José Corrêa)

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“Lutar com palavras é a luta mais vã.

Entanto lutamos mal rompe a manhã.”

 (Carlos Drummond de Andrade)[1]

Paulo José Corrêa

— É burrice! Daqui a pouco não se poderá falar mais nada! — diz uma professora em um vídeo que circula na internet.[2] Ela se refere à chamada “linguagem politicamente correta”, que é hoje objeto de polêmica. Textos e mais textos são escritos sobre o assunto: bobagem para alguns; para outros, uma necessidade.

No vídeo, a professora critica o que chama de “patrulhamento vocabular”. Refere-se, especificamente, a uma suposta “cartilha antirracista” que questiona o uso de algumas palavras e expressões tidas como ofensivas pelas pessoas de ascendência africana, como “denegrir” e “a coisa está preta”. A professora tenta mostrar que esse questionamento, além de ser injustificável sob os aspectos etimológico e semântico, impõe uma censura linguística.

Não obstante a crítica da professora, uma simples pesquisa mostra que a sua análise etimológica e semântica é falha. A primeira coisa a se compreender é que as palavras podem ser utilizadas em dois sentidos: o denotativo e o conotativo. O primeiro é o sentido básico, também chamado de sentido literal; o segundo é um sentido figurado da palavra ou expressão. Quando eu digo “quadro negro”, referindo-me àquela tela para escrever que era usada nas escolas (hoje essa tela é verde), estou utilizando a palavra “negro” num sentido denotativo porque essa era a cor da tela. Mas, quando digo “lista negra” não estou me referindo à cor de uma lista. Estou usando a palavra “negra” num sentido conotativo, atribuindo a essa palavra um valor negativo.

A conotação é uma componente suplementar da significação por meio da qual se expressam nossas atitudes de apreço, desprezo ou repulsa; (…) de valorização ou depreciação. Ela recobre os aspectos culturais e ideológicos do significado da palavra (…). A conotação é, assim, o lugar em que ecoam as experiências culturais da comunidade.[3]

A expressão “a coisa está preta” não significa, como afirma a professora, que alguma coisa não está clara, mas sim que a situação está difícil, ameaçadora. “Preta” aí tem um sentido de algo ruim, não de algo escuro. Significa uma coisa da qual se deve fugir, que deve ser evitada. Tanto é assim que um sinônimo para essa frase é “a coisa está feia”. Também na frase o vocábulo “preta” tem um sentido conotativo negativo.

O uso da linguagem é contextual. Isso quer dizer que utilizamos as palavras de acordo com as circunstâncias, tais como o ambiente em que estamos, a natureza da interação social de que participamos e, sobretudo, as pessoas que são nossas interlocutoras. Não usaremos palavrões em uma reunião religiosa ou ao nos dirigirmos acrianças. Nosso vocabulário deve ser adequado às variantes da situação social em que estamos.

“Rezar” e “orar” significam, em sua origem, a mesma coisa: pronunciar uma fórmula ritual ou uma prece. Mas, se num culto evangélico o pregador disser aos crentes para rezar, isso vai soar estranho e incomodar seus ouvintes. Se insistir nessa palavra, certamente será advertido. Ou seja, a nossa escolha linguística é sempre delimitada pelos outros e pelo contexto social.

Todos os grupos sociais constroem um léxico composto por vocábulos que expressam a cultura do grupo; têm palavras preferidas e outras de que não gostam. Em razão disso, exercem, naturalmente, uma censura linguística, como os evangélicos fazem no caso de “rezar”. Isso tem a ver com o significado das palavras para o grupo. Para os evangélicos, “rezar” está ligada ao culto a imagens, ao que denominam pecado da idolatria.

É certo que a evolução da língua pode mudar o significado das palavras. Mas, elas não deixam de carregar a sua história; história de uso que lhes dá um sentido ideológico. Alguns não gostam de serem chamados de “camarada” porque essa palavra está ligada à história do comunismo. A palavra “irmão” é muito utilizada pelos cristãos porque tem uma forte ligação com a história do cristianismo. Na mente dos usuários atuais, a palavra “mulata” pode não estar mais ligada ao termo “mula” que lhe deu origem. Porém, mesmo perdendo essa ligação no uso atual, essa palavra evoca para os afrodescendentes uma história de humilhação.

Isso porque, além do significado cognitivo, as palavras têm também um significado emotivo: “O significado emotivo refere-se aos tipos e graus de reação emocional às expressões da linguagem…”[4]No caso dos afrodescendentes, as expressões que contêm o termo “negro” num sentido depreciativo os incomoda porque lembram uma longa história de sofrimento. Por muito tempo os negros foram desprezados, considerados inferiores, sub-humanos. E a cor de sua pele virou sinônimo do que não prestava. Quando ouvem a palavra “denegrir”– que em sua origem é composta por “de+niger” (negro)[5]–, para se referir ao ato de sujar a reputação de alguém, é natural que se sintam ofendidos. Emotivamente, para eles essa expressão significa que se está atribuindo a uma pessoa as qualidades de uma pessoa negra, qualidades que seriam negativas.

Mas, quero ir além dessa discussão etimológica e semântica para abordar a questão sob o ponto de vista da comunicação. Filósofos que estudaram a comunicação, especialmente Donald Davidson, criaram um princípio denominado “princípio da caridade” interpretativa[6]. Caridade, nesse princípio, não se refere a alguma virtude religiosa, nem a olhar o outro como um coitado que precisa de uma esmola. Refere-se a uma disposição do ouvinte que, para compreender o seu interlocutor, dá à fala deste um sentido racional, atribuindo-lhe a melhor interpretação possível. “Para que possamos encontrar sentido no que nos dizem os outros, temos que acreditar que o que eles dizem faz sentido (caridade interpretativa)”.[7] Isso não implica que concordaremos com o que a outra pessoa diz, mas sim que estaremos em condições de entendê-la.

O outro lado desse princípio é: se eu quero ser corretamente interpretado, devo utilizar os instrumentos linguísticos que facilitem essa interpretação. Ora, a regra mais básica da teoria comunicacional é que, quando busco me comunicar com uma pessoa devo usar uma linguagem que seja aceita e compreendida por ela. De nada adianta alguém falar comigo em alemão porque eu não entendo essa língua. Se quero me comunicar adequadamente com evangélicos devo evitar o uso do vocabulário religioso católico. Adaptando a terminologia dos filósofos acima referidos, em vez de “linguagem politicamente correta” podemos chamar isso de “linguagem caridosamente correta”.

Os cristãos sabem que a Bíblia está cheia de recomendações sobre o bom uso da linguagem. O apóstolo Paulo disse: “A vossa maneira de falar seja sempre agradável e bem temperada…” (Cl. 4.6).Outro escritor bíblico afirmou: “As palavras da boca do sábio são agradáveis…” (Ec. 10.12).E a Bíblia também impõe uma censura linguística ao indicar uma série de palavras que devem ser evitadas. Sabendo que o Brasil tem uma população majoritária de afrodescendentes, por que teimarmos em usar palavras que lhes são desagradáveis? E nem se diga que “daqui a pouco não se poderá falar mais nada”, porquanto há em nossa língua muitos outros vocábulos que podem ser usados em lugar dessas palavras. Podemos dizer “manchar” em vez de “denegrir” e “lista suja” em lugar de “lista negra”.

Não adequar nosso vocabulário a uma “linguagem caridosamente correta” é falta de bom senso. Insistir em incomodar aqueles que se ofendem com algumas palavras é contrariar as regras básicas da comunicação e desrespeitar a história e o sentimento dos outros. Isso, sim, é burrice!

*PAULO JOSÉ CORRÊA é mestre em Direito e pós-graduado em Letras.

[1] Andrade, Carlos Drummond. Poesia completa e prosa. José Aguilar Editora. Rio de Janeiro: 1973

[2]O exagero da militância e patrulhamento ideológico • CÍNTIA CHAGAS no VenusPodcast – YouTube

[3] Azeredo, José Carlos de. Gramática Houaiss. São Paulo: Publifolha, 2014, p. 406.

[4]Bordenave, Juan E. Diaz. O que é comunicação. São Paulo: Braziliense, 2002

[5]Grande Dicionario Houaiss (uol.com.br)

[6]Linguagem e significado: o projeto filosófico de Donald Davidson – Google Books

[7]Interpretar é reconhecer-se no outro: o conceito davidsoniano de interpretação radical – PDF Download grátis (docplayer.com.br)

Um Comentário

  1. Marco Aurélio Chaves

    Excelente texto. Creio que, ao se incentivar o uso da linguagem culta, teremos uma significativa melhoria na nossa comunicação, mesmo sem chegar ao grau vernacular sonhado pelo nobre articulista.

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