A Bíblia no Palanque

Por Peniel Pacheco

Causou certo desconforto aos empresários do mercado literário quando, em novembro de 2022, a Câmara dos Deputados aprovou o PL 4606/19, do deputado Pastor Sargento Isidório (Avante-BA), que veda qualquer alteração, edição ou adição aos textos da Bíblia.

A reação dos editores faz sentido, pois é do conhecimento geral que existem diversas versões da Bíblia com adição de ilustrações, anotações e comentários destinados a atender a diversos públicos, como a Bíblia da Mulher, a Bíblia Infantil, a Bíblia Arte, além de tantas outras.

Mercado sem reservas 

O temor é que a referida proposta possa criar restrições à livre comercialização de edições específicas do livro sagrado, como a Bíblia na Linguagem de Hoje ou a Bíblia Viva que traduzem ou parafraseiam o texto bíblico para uma linguagem mais atual.

“Bíblia Trump”

Donald Trump

Embora ainda não tenha sido votada no Senado, portanto ainda não está em vigor, a matéria já se mostrou controversa até mesmo em face de acontecimentos fora do território nacional, pois a imprensa americana acaba de divulgar o lançamento, em plena campanha eleitoral, da que está sendo denominada de “Bíblia Trump”, uma edição com capa de couro ostentando a bandeira americana, oficialmente batizada de A Bíblia Deus Abençoe os EUA.

De acordo com os editores, trata-se de uma versão “fácil de ler, com letras grandes e design fino, esta Bíblia convida você a explorar a Palavra de Deus em qualquer lugar, a qualquer hora”.

Fé no Estado Americano

O anúncio diz ainda que a “Bíblia foi projetada para oferecer uma experiência de leitura fácil na tradução confiável da versão King James” e vem acrescida de uma cópia da Constituição dos EUA e da Declaração de Independência, além de um juramento de fidelidade. O preço promocional do exemplar, segundo o anúncio, está custando 59,99 dólares.

Não é a primeira vez que a Bíblia tem sido usada como instrumento de afirmação política e ideológica.

Bíblia Inclusiva

Existe, há um bom tempo no mercado, a chamada Bíblia Inclusiva que, de acordo com os editores, surgiu “como uma ferramenta específica para cristãos LGBTQIs”.

Outra versão com viés ideológico bem definido é a apelidada de “Bíblia Feminista”. Trata-se da versão produzida por teólogas feministas católicas e protestantes de diversas partes do mundo que visa a “empoderar as mulheres” e “promover os valores do feminismo”.

Entre o sagrado e o profano

Diante de um cenário tão controverso e polêmico, a impressão que se tem é que os interesses ultrapassam os limites do sagrado e se concentram mais intensamente na busca pelo profano. Parece que a preocupação não é com o texto bíblico em si, nem com a teologia cristã ou com a mensagem apostólica propriamente dita, mas o que pode estar pautando o debate são interesses de natureza política e econômica, muitos deles em contradição com os próprios valores e ensinamentos contidos na própria Bíblia.

Senão vejamos, o apóstolo Paulo, um dos mais profícuos escritores bíblicos, já alertava, aos piedosos do seu tempo, contra os oportunistas de plantão: “Porque os tais são falsos apóstolos, obreiros fraudulentos, transformando-se em apóstolos de Cristo” (2 Coríntios 11:13); e não se esquivou de fazer o devido contraponto em relação às atitudes de tais impostores: “Porque nós não estamos, como tantos outros, mercadejando a palavra de Deus (2 Coríntios 2:17).

“Movidos pela ganância”

O apóstolo Pedro, de igual modo, previu a motivação egoísta de muitos que surgiriam “movidos pela ganância, e com palavras fingidas”. Pedro alerta, sem meias palavras, que “eles farão de vós negócio” (2 Pedro 2:3).

Deturpação do Evangelho

Em sua sinceridade, Pedro não deixa de reconhecer que, na doutrina bíblica, “há certas coisas difíceis de entender que os ignorantes e instáveis” se aproveitam para as deturparem, “como também deturpam as demais Escrituras” (2 Pedro 3:15,16).

Em razão destes, além de outros textos, fica claro que os escritores bíblicos jamais descartaram a possibilidade de haver deturpações do Evangelho para fins escusos e mesquinhos.

Não é por outra razão que, desde os primórdios do cristianismo, foram feitas advertências quanto à perversão das sagradas letras. Corrobora com esse entendimento o sermão proferido pelo apóstolo Paulo em Mileto: “Dentre vós mesmos, se levantarão homens falando coisas pervertidas para arrastar os discípulos atrás deles” (Atos 20:30). Ou seja, o cristianismo não estaria isento de sofrer intervenções maliciosas para obtenção de prestígio e de vantagens indevidas da parte de pessoas inescrupulosas.

Lucro sem piedade 

Vale lembrar as palavras de Paulo dirigidas ao jovem Timóteo, seu discípulo, em relação ao surgimento de “polêmicas sem fim da parte de pessoas cuja mente é pervertida e que estão privadas da verdade, supondo que a piedade é fonte de lucro” (1 Timóteo 6:5).

Fica claro, portanto, que o que estamos presenciando hoje não foge ao escopo do que já estava predito na Bíblia: aos piedosos, ela representa uma fonte de sabedoria e de conselho para um viver mais saudável e equilibrado; mas para os oportunistas, ela seria vista como mero instrumento de conquista do poder econômico, político e religioso.

Manipulação da fé

Pastor Richard C. Halverson

Dentre os autores da contemporaneidade, quem parece ter feito a leitura mais adequada, em torno dos processos de manipulação da fé cristã, foi o pastor americano Richard C. Halverson, falecido em 1995. Disse ele: “No início, a igreja era um grupo de homens centrados no Cristo vivo. Então, a igreja chegou à Grécia e tornou-se uma filosofia. Depois, chegou à Roma e tornou-se uma instituição. Em seguida, à Europa e tornou-se uma cultura. E, finalmente, chegou à América e tornou-se um negócio”.

No coração e na alma

Na visão da própria Bíblia, ao invés de ser exposta em vitrines, palanques, bibliotecas ou mesas de negociação, a Bíblia só fará sentido se for internalizada na alma e no coração dos fiéis, como antídoto a todas as malignidades que tanto afligem a humanidade, inclusive o amor ao dinheiro e a corrupção política.

Só assim seria possível crer que, no lugar da “Bíblia Deus Abençoe os Estados Unidos”, haveria de fato e de direito a “Bíblia Deus Abençoe o Mundo Inteiro”.

Peniel Pacheco é pastor, ex-deputado Distrital, Mestre em Ciências da Educação e Professor de Teologia

Portal Repórter Brasília, Edgar Lisboa

Um Comentário

  1. MANOEL VICENTE DOS SANTOS NETO

    Excelente texto do ex-deputado Distrital e Pastor Me. Peniel Pacheco. Cabe ressaltar algumas palavras do autor: “A Bíblia só fará sentido se for internalizada na alma e no coração dos fiéis, como antídoto a todas as malignidades que tanto afligem a humanidade (…)”.
    Infelizmente, para alguns, a bíblia deixou de ser uma fonte de sabedoria e de aconselhamento para uma vida saudável e equilibrada; para se tornar, nas mãos dos oportunistas, um mero instrumento de conquista e poder, seja político, econômico e até religioso. Sobre os processos de manipulação da fé, importante refletir as palavras do Pastor Richard C. Halverson, nas quais a religião, que no início era um grupo de homens centrados em Cristo, acabou hodiernamente se tornando um “negócio”.
    Parabéns ao Pastor Me. Peniel Pacheco pela importante contribuiçao que nos leva a reflexão sobre o assunto. Como dizia um ex-professor e amigo Me. Antônio de Jesus: ” A bíblia não foi feita para ser questionada, ela foi feita para ser vivida”.

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