
“E disseram-lhe: Que te faremos nós, para que o mar se acalme? Por que o mar se elevava e engrossava cada vez mais. E ele lhes disse: Levantai-me e lançai-me ao mar, e o mar se aquietará, porque eu sei que, por minha causa, vos sobreveio esta grande tempestade.”
(Jonas 1:11,12).
É muito triste quando descobrimos ou temos consciência de que somos o problema para alguém. Creio que Jonas, ao acordar e ver o pavor estampado nos rostos dos marinheiros, e ter a certeza de que ele era o culpado de todo aquele tumulto, e dos fortes ventos, e da bravura do mar, foi decisivo em trazer a solução para aquele imbróglio, porquanto ele sabia quem era Deus e que tudo o que estava acontecendo era procedente de Deus.
Por que, em muitos casos, somos a razão do problema? Por que muitos não conseguem admitir, tal como Jonas fez, que o erro é unicamente seu? A atitude de Jonas, pedindo para o mestre da embarcação jogá-lo no mar encapelado, foi correta? Será que sua confiança em Deus era tão grande para crer que Deus não o deixaria morrer?
A história de Jonas não é apenas sobre um profeta fujão; é sobre consciência, responsabilidade, coragem moral e, acima de tudo, sobre o momento em que alguém finalmente admite: “O problema sou eu”. E isso dói. Dói muito.
A frase “Joguem-me no mar, eu sou o problema para toda a tripulação!” é muito forte porque revela algo que quase ninguém quer admitir: há momentos em que nós somos a tempestade na vida de alguém. Jonas percebeu isso quando acordou e viu o caos ao redor. Ele não tentou justificar, não culpou o vento, nem as ondas, não culpou os marinheiros, não culpou o destino, muito menos o comandante da embarcação. Ele disse: “Eu sei que, por minha causa, vos sobreveio esta grande tempestade”. Isso é raro e é transformador.
Por que às vezes nós somos o problema? Existem algumas razões profundas, humanas, espirituais e emocionais, que explicam isso: porque carregamos conflitos internos que transbordam para fora. Jonas estava em fuga. Quem foge de Deus, foge de si mesmo. E quem foge de si mesmo, inevitavelmente, causa turbulência ao redor. Quando a alma está em guerra, o ambiente sente. Porque decisões erradas têm impacto coletivo. Jonas tomou uma decisão individual: não obedecer. Mas a consequência foi coletiva: tempestade para todos. Muitas vezes pensamos que nossos erros são “só nossos”, mas não são. Ninguém peca sozinho. Ninguém desobedece sozinho. Ninguém se destrói sozinho. Sempre respinga em alguém. Porque ignoramos sinais que já estavam gritando. Jonas sabia que estava errado antes de entrar no barco, mas ignorou. A maioria das tempestades que causamos não é surpresa. São avisos ignorados.
Por que muitos não admitem que são o problema? Essa é a parte mais humana — e mais difícil: porque admitir culpa exige coragem. Jonas foi corajoso. Assumir responsabilidade é um ato de bravura espiritual. A maioria prefere justificar, culpar outros, espiritualizar, minimizar e até mesmo fugir. Admitir culpa é confrontar o próprio ego — e o ego é um tirano.
Porque dói ver o impacto do nosso erro. É doloroso perceber que machucamos alguém, que geramos tempestade, que fomos injustos, negligentes, impulsivos, orgulhosos. A dor da culpa paralisa muita gente. Porque assumir responsabilidade exige mudança. Se eu digo “o problema sou eu”, automaticamente estou dizendo: preciso mudar, preciso corrigir, preciso me reposicionar, preciso abandonar algo.
Por fim, a mudança assusta. Porque é mais fácil ser vítima do que culpado. A vitimização é confortável. A culpa exige ação. Jonas poderia ter dito: “Deus está me perseguindo”, “O mar está revoltado”, “Vocês não sabem navegar”. Mas ele disse: “Eu sou o problema”. Isso é maturidade espiritual.
Vejo nisso tudo a beleza do texto: Jonas não só admite, mas apresenta a solução. Ele não apenas reconhece o erro, não apenas confessa, ele age. “Levantai-me e lançai-me ao mar”. Ele não esperou que Deus resolvesse. Ele não esperou que o mar acalmasse sozinho. Ele não esperou que as ondas voltassem à normalidade ou que os marinheiros descobrissem toda a verdade. Jonas tomou a iniciativa. E quando alguém assume responsabilidade, a tempestade sempre começa a se acalmar.
Vejo também um ponto de profundidade: às vezes, ser lançado ao mar é a cura. Jonas não morreu. Ele foi tratado. Ele foi restaurado. Ele foi reposicionado. Ele foi reenviado. Às vezes, admitir que somos o problema é o início da nossa cura, é a solução para muitos problemas. Há tempestades que não vêm do diabo, nem de inimigos externos, nem de invejosos. Vêm de decisões erradas, teimosias, desobediências, fugas e confiança no próprio ego e na própria espiritualidade.
Orcélio Amâncio é pastor, professor de Teologia e membro da Academia Evangélica de Letras.