Até entendo que para entender de economia seja necessário fazer uma faculdade.
Até entendo que para entender de medicina seja necessário passar pelos bancos de uma Universidade.
São ciências complexas. Ambas utilizam uma linguagem especial que só é entendida pelos entendidos.
Deve ser por isso que, no mundo, são poucos os ricos e muitos são os pobres.
Certa vez, logo que cheguei a Brasília, um colega jornalista me contou uma história engraçada. Ele e um grupo de outros jornalistas haviam sido enviados ao Nordeste para uma cobertura, não lembro exatamente do quê.
Foram convidados a jantar na casa de um político local. Estavam impressionados com a suntuosidade da mansão. Segundo ele, só a casa do político tinha uns 12 empregados, entre serviçais, motorista, eletricista e até um marceneiro.
À mesa, engambelados com lagosta e camarão, os jornalistas admiravam a figura do anfitrião. Um dos presentes perguntou a ele – não lembro quem era – qual o segredo de ter ficado tão rico.
– Simples, meu jovem. Comprar barato e vender caro.
Lógico. Simples. Irrefutável.
Essa história me remete à escolha do substituto de Roberto Campos Neto para comandar o Banco Central.
Dizem que Lula deve escolher Galípolo, um egresso do mercado que eventualmente se alinhou à política mais à esquerda.
Enquanto isso, Campos Neto abre sua caixa de maldades, segura a economia e assegura elogios do “Deus Mercado” ao manter os juros altos e acenar com usura ainda maior, num futuro próximo.
Mas imagino que haja outros nomes. Lula fez um ensaio, ao dizer que seria um economista de “cabeça branca”, sabe-se lá o que a metáfora ou a ameaça signifique.
A verdade é que o sistema financeiro nacional é o setor mais sólido de nossa economia. Senão, vejamos: na indústria e, principalmente no comércio, todos os dias se noticia balanços negativos, quebras, mal gerenciamento e até desonestidade, como parece o caso da Americanas.
O sistema financeiro prossegue sólido. Os balanços dos bancões é sempre positivo.
Também, esses bancos são obrigados por lei a depositar uma “sobra de caixa” no Banco Central, todos os dias, ao final do expediente. Esse dinheiro adormece magro e amanhece gordo, posto que é remunerado pelas nossas reservas. É compulsório, mas rende juros.
´Mais ou menos como se eu tivesse um supermercado e todos os dias depositasse num atacado o que não pude vender naquele dia. No dia seguinte, a carne do açougue aumentou de peso ou o estoque de arroz se multiplicou… coisa assim.
Os banqueiros cumprem com honestidade e sem qualquer vergonha o conselho do usineiro aos jornalistas, na história que contei acima: comprar barato e vender caro.
Se você fizer qualquer aplicação, ou se deixar o seu dinheiro no sistema bancário – ou seja, se vender o seu dinheiro para o banco usar – será remunerado com um juro mínimo. Mas se precisar de algum emprestado… – e tiver que comprar o dinheiro que o banco tem – os juros serão os maiores do planeta.
Assim, até eu, que não sou economista.
A desculpa é que os juros precisam ser altos, porque juros altos fazem recuar a inflação.
Acontece que outro dia, no boteco, a conversar com uns amigos, surgiu o assunto entre uma cervejinha e outra.
Um gaiato começou a fazer contas.
– O dono do boteco compra cerveja, para revender. Se a cerveja fosse barata, ele venderia barato. Mas precisa comprar a crédito, porque seus fregueses são pobres e ele próprio não é propriamente um empresário rico.
Como o juro é alto, ele compra pouca cerveja e paga mais caro por isso.
Como é um empresário responsável, ele precisa cuidar do seu próprio negócio. Por isso precisa subir o preço da cerveja, para não quebrar. Que eu saiba, inflação é preço que sobe de tempos em tempos.
Se os juros fossem mais baixos, disse o meu amigo… acho que a cerveja poderia ser mais barata.
Com os juros altos, financiamento caro, o fabricante vai fazer menos cerveja. Escassez de um produto importante, como a cerveja, aumenta os preços… o comerciante paga mais caro e repassa a quem sempre paga a conta, o consumidor.
Cerveja mais cara… não dá prá pagar no PIX… o amigo pega o cartão e paga a rodada no crédito.
Se ele não pagar o cartão de crédito no vencimento, ou se financiar a fatura, os juros podem superar 400% ao ano. Ele certamente beberá cerveja e vai pagar preço de vinho importado, por ela…
Bom, mas aqui ninguém entende de economia… garçom… mais uma!
E Lula vai colocar lá, para cuidar do cofre, mais um economista com diploma. Desses que enquanto fui repórter sempre me olhou de cima para baixo e me garantiu que só com juros altos, se combate a inflação. Alguém que cuide bem do sistema bancário, para que essas empresas não quebrem, quando você não puder pagar a conta.
Também tem aquela história dos títulos da dívida. O governo precisa de dinheiro e vende títulos com garantia. Os bancos compram esses títulos, porque eles têm garantia… mas de vez em quando, ameaçam não comprar, porque o rendimento está baixo… aí o BC eleva os juros para tornar os títulos mais atrativos… e, a exemplo do meu amigo do bar, você é quem vai ter que pagar a conta.
Mas essa é outra história e eu não sou economista.
Por Umberto de Campos, Jornalista, Especialista em Neuropsicologia