Da nossa incapacidade de ouvir lamentações (Sandro Xavier)

Sandro Xavier/Divulgação

“Ouvindo, pois, três amigos de Jó todo esse mal que lhe havia sucedido, vieram, cada um do seu lugar: Elifaz, o temanita; Bildade, o suíta; e Zofar, o naamatita; e combinaram ir juntamente condoer-se dele e consolá-lo. E, levantando de longe os olhos e não o reconhecendo, ergueram a voz e choraram; e, rasgando cada um o seu manto, lançaram pó ao ar sobre a cabeça. E assentaram-se com ele na terra, sete dias e sete noites; e nenhum lhe dizia palavra alguma, porque viam que a dor era muito grande.” (Jó 2.11-13)

Situação recente me fez pensar muito na maneira como lidamos com as frustrações das outras pessoas, especialmente quando a questão é de gravidade profunda, que atinge fortemente a casa da esperança.
Frequentemente, os cristãos e cristãs, lidamos com pedidos de oração, relatos de dificuldades e solicitação de ajudas das mais diversas qualidades. Percebi que temos a prática de nos aproximarmos sempre com uma palavra de superação, mostrando que Deus é poderoso e tudo pode fazer, tudo pode resolver, tudo pode restaurar.
Ocorre que, depois dessa situação que falei acima, que agora nem vem ao caso, pois quero focar nessa nossa incapacidade de lamentar, preocupei-me com a forma como ouvimos aqueles que relatam sua preocupação, sua dor, sua desesperança e até mesmo sua incredulidade (ou seria, em alguns casos, a sua leitura da realidade mesmo?).
No famoso relato que abre esse texto, vemos os três amigos de Jó que se aproximaram dele ao saber de seu imenso revés. Ao perceberem a grande dificuldade e a incapacidade mesmo de ajudar, simplesmente estiveram ao lado dele. Tomaram a atitude normal da época e do lugar de demonstrar lamento (rasgar a própria roupa e jogar cinzas sobre a cabeça), choraram com ele e somente mantiveram-se juntos dele. Não havia o que dizer. Não havia o que fazer.
Essa atitude inicial demonstrou uma empatia com o amigo. Reconheceram que ele vivia situação terrível que lhe doía o coração e a alma. Eles mostraram entender isso e estar ao lado do amigo que sofria, mesmo parecendo entender que não podiam fazer nada. Todavia, estavam ali, ao lado, chorando juntos.
Todos nós que temos uma afinidade com o texto bíblico sabemos que, logo a frente, os amigos de Jó passaram a questionar os motivos do seu sofrimento e tentaram impor a ele a culpa por estar vivendo aquela tragédia. Significa dizer que logo que passou o “tempo regulamentar” da empatia (e o texto acima fala de “sete dias e sete noites”), vieram com acusações e propostas inviáveis. Tudo isso chegou ao ápice de o próprio Deus mostrar a eles que a abordagem deles com Jó estava equivocada: “…a minha ira se acendeu contra ti [Elifaz] e contra os teus dois amigos, porque não falastes de mim o que era reto, como o meu servo Jó” (Jó 42.7).
Parece que a paciência de estar ao lado do amigo que sofria passou (ou o tempo regimental que fosse considerado solidariedade técnica) e, então, colocaram-se no caminho da tentação de corrigir tudo, de acusar, de propor o que não havia condições humanas para Jó.
Nesse tempo de lamento recente, pude perceber que é meio natural da gente, como cristãos, levar a proposta de “tudo vai ficar bem” a despeito de quaisquer situações. Se houver resposta esperançosa, ótimo. Mas se não houver, a impaciência chega, a ponto de, muitas vezes, trazer o afastamento.
Na carta que fiz a um amigo, e depois repliquei a alguns outros, pude usar essa situação para refletir a respeito dessa nossa dificuldade de ouvir lamentos. O próprio livro das Lamentações, na Bíblia, é pouco citado, estudado ou pregado. As naturais agruras que ele relata são pesadas, e a gente tem pouco preparo para lidar com as condições humanas, que podem atingir a qualquer um de nós, não é mesmo?
A ideia de ser atropelado por versículos de “vitória” deixa as pessoas sem espaço para lamentar a respeito das situações ruins que se lhes acometeram. Ainda isso se confronta com o discurso de sucesso da sociedade, em que lamentar pode ser aproximado com “pensamento negativo” que “atrai coisas ruins”. A falta de empatia (ainda que com tempo regulamentar) começa já aí.
Frases como “tenha fé”, “Deus está contigo” ou “tudo isso vai passar” desafiam a pessoa a deslegitimar seu momento de dor e de confronto com uma realidade que é evidente e inegável. Ao deixar de viver o momento de lamento com aquele que sofre, impedimos o luto e proclamamos esperança onde, naquela hora, não a tem. Essa etapa precisa ser vivenciada, reconhecida e sentida. Estar ao lado de quem passa por isso é importante, até porque há situações que não se apresentam soluções que superariam a dor. Imagine alguém lamentando a perda de um filho ainda jovem!
Na minha visão, essas frases acima não são tanto para acolher, encorajar ou esperançar, mas para amenizar a dificuldade que essas pessoas mesmas têm em lidar com a situação. Deve ser mesmo angustiante ver alguém que deveria estar em plena ação e esperança fazendo discurso de dor. O passo seguinte é estar longe, afastar-se. Afinal, estar ao lado de alguém assim é bem angustiante.
Que dificuldade a gente tem de entender que muitas situações não serão superadas! Uma doença pode, sim, levar à morte. Um desemprego pode jamais ser superado e retornar à situação anterior, talvez seja pior do que imaginamos. A perda de uma casa pode ser o início de uma saga terrível para se estabelecer em um lugar, e jamais ser concretizada até que a morte venha.
E sabe o que é mais marcante nisso tudo? Nada disso tem a ver com a fé; pelo contrário. Acho que entender que a situação é aterradora e, mesmo assim, crer que Deus estará contigo, mesmo nos piores resultados (segundo as expectativas deste mundo) é o que pode mostrar mais fortaleza na fé. Porque lamentar pode não significar que a pessoa entenda que Deus não estará com ela, seja lá o que acontecer.
Dessa forma, o lamento tem seu momento, tem sua necessidade, e é bom quando ele vem acompanhado de amigos que se coloquem ao seu lado, não por tempo regulamentar, mas por entender a gravidade da situação, ainda que não se vislumbre solução aparente. A empatia tem um grande valor, e não precisamos ter o peso de proferir palavras de esperança pasteurizadas diante de problemas tão graves e que trazem sentimento de luto mesmo. Estar ao lado é suficiente.
Precisamos, muito, aprender a ouvir lamentos sem contabilizar culpas ou elaborar soluções mirabolantes. Só esteja junto, ouça, chore, lamente ao lado!
Sandro Xavier é Linguista, Teólogo e Psicanalista