Afonso Motta (Crédito: Kayo Magalhães, Câmara dos Deputados)
O deputado federal Afonso Motta (PDT-RS) avalia que o Congresso Nacional inicia os trabalhos em meio a um cenário político já totalmente marcado pelas eleições. Em entrevista à coluna Repórter Brasília, o parlamentar afirmou que a expectativa para o ano legislativo é de uma agenda complexa, com forte influência do calendário eleitoral e com espaço reduzido para votações estruturais. Ainda assim, ele aponta temas que devem mobilizar o Parlamento e defende que o funcionamento institucional seja preservado mesmo em meio ao clima de disputa.
Ano eleitoral deve pautar o ritmo do Congresso
Para o deputado, “evidentemente que esse é um ano eleitoral com todas as palavras”. Segundo ele, o processo político será determinante para o andamento das atividades legislativas. Motta lembra que entram em cena prazos de desincompatibilização, janela partidária, definição do fundo eleitoral e limites de gastos de campanha para presidente, governadores, senadores e deputados. “Tudo isso, embora a parte substancial dessa regulação não esteja aqui na Casa, o funcionamento do Congresso Nacional vai se subordinar a tudo isso”, afirmou. O parlamentar acrescenta que as regras de propaganda eleitoral e o ambiente político tradicional de ano de eleição tendem a influenciar diretamente o ritmo das votações e a priorização de pautas.
Mercosul–União Europeia e temas econômicos
Membro do Parlasul, Afonso Motta destaca que um dos principais debates previstos é o acordo entre Mercosul e União Europeia. Para ele, trata-se de uma pauta estratégica para o país e que não deve encontrar resistência significativa no Congresso.
O deputado afirma que o acordo “coloca mais uma vez o Brasil no cenário internacional” e reforça a capacidade nacional de exportação e comércio. Na avaliação dele, “votar contra ou criar obstáculos seria um despropósito”. Por isso, acredita que a discussão será relevante e decisiva ao longo do ano.
Relações de trabalho e pauta social
Outro tema que deve gerar debate é a discussão sobre jornada de trabalho, especialmente o modelo 6×1. Motta reconhece que se trata de uma pauta complexa e de difícil consenso, mas defende que o assunto seja enfrentado. “Já acho que esse debate é mais complexo e difícil de acontecer, mas é importante que entre na ordem do dia”, afirmou.
Endividamento rural preocupa o Sul
O parlamentar também chama atenção para a situação dos produtores rurais, em especial no Rio Grande do Sul. Segundo o deputado, o endividamento do setor chegou a um nível de forte tensionamento e exigirá respostas do Congresso.
Motta ressalta que há diferentes realidades — produtores arrendatários e proprietários, e que será necessário construir uma regulação mais acessível e com crédito mais barato. Afonso Motta admite, porém, que o ano eleitoral pode dificultar soluções amplas. “A gente sempre fica preocupado se esse tensionamento político vai permitir resolver o assunto”, disse, defendendo ao menos avanços parciais que tragam alívio ao setor.
Tensão política e preservação institucional
No dia a dia do Parlamento, o deputado prevê debates intensos em torno de temas como investigações, CPIs e questões envolvendo o sistema financeiro. Mesmo assim, acredita que a Casa terá cuidado para evitar crises institucionais.
Segundo ele, é preciso tratar esses assuntos com responsabilidade para não gerar “uma espécie de desordem institucional”.
Relação governo-Congresso e cenário eleitoral
Questionado sobre a relação entre Executivo e Legislativo, Motta foi direto: “Eu acho que já piorou bastante. E vai se manter nesse patamar de dificuldade e de desafio”. Para ele, a proximidade das eleições tende a ampliar o movimento de entrada e saída de ministros e aliados do governo, além de desincompatibilizações em vários estados.
No Rio Grande do Sul, o deputado observa com atenção a decisão do governador Eduardo Leite sobre disputar ou não as eleições. “Faltam menos de 60 dias para saber se ele vai se desincompatibilizar ou permanecer no governo”, disse.
PDT aposta em Juliana Brizola
Sobre alianças no estado, Motta confirma o diálogo com o PT, mas ressalta que o PDT tem posição definida. “Nós temos uma pré-candidata, que é a Juliana Brizola. Queremos aliança, mas não abrimos mão de ela liderar a chapa”, afirmou, destacando o simbolismo político do nome e a busca por unidade em torno do trabalhismo.
O deputado também avalia a movimentação de outros partidos, como PP e PL, e acredita que ainda haverá rearranjos e possíveis dissidências. Para ele, o cenário gaúcho permanece aberto, com várias pré-candidaturas e negociações em curso.
Ano difícil e de poucos consensos
Ao projetar o restante do ano, Afonso Motta resume o clima no Congresso: um período de trabalho intenso. A tendência, segundo ele, é de um Parlamento funcionando sob pressão política, com debates importantes, mas com dificuldade para construir consensos amplos.
Responsabilidade legislativa e institucional.
Mesmo assim, Afonso Motta defende que as instituições mantenham o equilíbrio e que pautas estratégicas, como o acordo Mercosul-UE, a questão rural e temas sociais, avancem. Para Motta, o desafio será conciliar o calendário eleitoral com a responsabilidade legislativa e institucional.
A Coluna Repórter Brasília é publicada simultaneamente no Jornal do Comercio, o jornal de economia e negócios do Rio Grande do Sul.
Edgar Lisboa