A vida é um grande tribunal (Paulo José Corrêa)

Paulo José Corrêa/Divulgação

1- EU AVALIO, TU AVALIAS…​

​Às vezes desço à noite com o Mostarda, um dos meus gatos, para passear embaixo do prédio onde moro. Gosto de observar como ele avalia o ambiente a cada passo. Se acha seguro, avança; se não, para ou retrocede.
Testes, provas, concursos: é o que nos vêm à mente quando se fala em avaliação. Mas avaliar vai muito além disso. É uma conduta natural. Todos os animais possuem um instinto avaliativo. Por meio do olfato, da audição e da visão procuram “sentir” o ambiente, escolher alimentos e se prevenir contra predadores.
Segundo a Bíblia, avaliar também é um comportamento divino. Logo ao início do Gênesis, se vê Deus avaliando as etapas do seu processo criativo.
​Nós, os humanos, vivemos com o “avaliador” ligado. Lugares, coisas, pessoas, comportamentos, tudo passa pelo crivo de nossa avaliação. Ela é necessária para a tomada de decisões: antes de atravessar a rua, avaliamos a distância e a velocidade dos carros; antes de comprar, avaliamos o produto; em um namoro, duas pessoas se avaliam mutuamente com vistas a um casamento.
2- COM QUE CRITÉRIOS ?
Avaliar é dar um valor a algo ou a alguém. É fazer um julgamento. E, como todo julgamento, é uma atividade complexa. Aprendi isso durante os vinte e oito anos em que trabalhei em um tribunal. Na maior parte desse tempo minha tarefa era examinar processos judiciais e propor aos juízes uma solução para os casos. Em alguns processos havia relatórios periciais. Tive que estudar sobre a realização de perícias: os métodos e critérios para avaliar a condição de um objeto ou lugar.
​Toda avaliação é feita a partir de critérios objetivos e subjetivos. Entre os critérios objetivos estão medidas, pesos, cálculos etc. Os critérios subjetivos incluem nossa visão de mundo, nossa ideologia, nosso gosto, aspectos dos quais nem sempre estamos conscientes. Por causa dessa complexidade, Jesus pôs um freio em nosso ímpeto avaliativo: “Não julguem, para que não sejam julgados. Pois com o critério com que julgarem vocês serão julgados…” (Mateus 7.1,2). À luz dos princípios bíblicos, essa frase não pode ser interpretada como simples proibição de julgar. Como poderíamos viver sem avaliar as coisas e as pessoas? O que Jesus está dizendo é: tenham muito cuidado com os critérios que utilizam nos julgamentos.
3- JUÍZES E RÉUS
​Juízes e tribunais estão em destaque nos meios de comunicação. Nas redes sociais, as decisões judiciais têm sido alvo de comentários, nem sempre elogiosos. Como ex-funcionário de um tribunal, fico espantado com a leviandade utilizada em muitos desses comentários. Não que os juízes não errem. Erram, até porque são humanos. Por essa razão existem os recursos para que uma decisão seja revisada em grau judicial superior. Mas, como está implícito nas palavras de Jesus, julgar é uma coisa muito séria. Por isso, a crítica às decisões dos juízes também exige seriedade.
​Muitos não sabem que, embora o juiz busque a verdade real de um caso, nem sempre pode alcançá-la. Ele chega apenas à verdade processual, isto é, ao que está exposto e provado no processo e que pode ou não corresponder à verdade real. Em consequência, faz a justiça possível, que pode ou não corresponder à justiça verdadeira. Assim, também o nosso julgamento será sempre imperfeito. A nossa avaliação está limitada ao grau de percepção que podemos ter das coisas e pessoas avaliadas.
Por fim, devemos lembrar que, ao mesmo tempo em que julgamos, também somos julgados. “Vocês serão julgados”, afirmou Jesus. O direito de avaliar implica reconhecer que os outros têm igual direito de nos submeter à avaliação. No dia a dia, todo mundo é julgador. Mas, enquanto nos sentamos na cadeira do juiz, os outros nos põem no banco dos réus. No grande tribunal da vida, todos somos juízes e réus.
Paulo José Corrêa é mestre em Direito e pós-graduando em Ciências da Religião.