O que eu sou, afinal? (Elias Brito Junior)

Elias Brito Júnior/Divulgação

Durante décadas a dúvida entre ser uma pessoa otimista, pessimista ou realista me atormentou. Felizmente, há poucos anos, consegui encontrar a minha autodefinição.

Como cristão e discípulo de Jesus, sempre senti a obrigação de ser otimista. Afinal, vivemos na perspectiva de um Reino Eterno, que é a solução final para todos aqueles que se submetem ao domínio de Deus. No entanto, sabemos que a plenitude dessa realidade é futura. Sua implantação perfeita nas sociedades humanas, ao longo de todas as eras, sempre se mostrou complexa — para não dizer impossível.
Vivendo em sociedade e conhecendo cada vez mais a natureza humana — que a própria Bíblia descreve como enganosa e egocêntrica —, eu não conseguia vislumbrar uma saída puramente humana para as crises da minha vida e do mundo. Sendo um viajante contumaz, tive a oportunidade de conhecer seis dezenas de países, dos mais diferentes matizes culturais, econômicos, políticos e religiosos. Em nenhum deles encontrei uma sociedade completamente equânime e plenamente feliz
Por isso, concluí pela impossibilidade de ser um otimista ingênuo. Não podemos nutrir uma fé cega de que tudo vai dar certo de forma quase mágica ou mística, ignorando os riscos reais e os obstáculos que a realidade das relações sociais, econômicas e políticas nos impõe. O otimismo ingênuo ignora a realidade da Queda.
Por outro lado, minha formação intelectual e minhas práticas de vida também não me permitem ser um pessimista. O pessimismo é perigoso porque sempre parte de uma verdade ou meia-verdade. Isso confunde e engana, criando medos antecipados que servem apenas para paralisar as pessoas e a sociedade.
Um exemplo clássico dessa atitude foi a teoria do economista inglês Thomas Malthus, no final do século 18. Ele afirmava que a espécie humana caminhava para o declínio absoluto porque, enquanto a população crescia em progressão geométrica, a produção de alimentos crescia em progressão aritmética. Segundo ele, isso levaria inevitavelmente à fome em massa e à miséria. O que Malthus não previu foi que as novas tecnologias agrícolas e o controle da natalidade, abençoadas pela providência divina, transformariam a capacidade de produção, provando que o pessimismo catastrófico estava errado.
O realismo sempre me pareceu mais equilibrado. “Nem tanto ao mar, nem tanto à terra”. O realista tenta observar o mundo que o cerca, como ele o é de fato. Ele conhece as oportunidades que surgem, as dificuldades que vai enfrentar ao tentar implementá-las, sem fantasiar os perigos do futuro, nem sempre convenientemente dimensionados, que podem impedir ou dificultar o nosso avanço pretendido.
Mas confesso que me identifiquei, de verdade, com a definição do dramaturgo e escritor paraibano, Ariano Suassuna. Para ele, “o otimista é um tolo. O pessimista, um chato. Bom mesmo é ser um realista esperançoso”.
Pronto. A partir de então, ao ser perguntado sobre o que eu sou, respondo: Um realista esperançoso. O realista esperançoso vê a realidade como ela é, sem escamotear os problemas existentes e as dores que eles geram.
Como um discípulo do Mestre, devo ter o mesmo sentimento. A maturidade e a verdadeira sabedoria não habitam nos extremos, mas sim na esperança que se realiza na entrega dos nossos destinos nas mãos do Senhor Jesus.  É uma questão de fé, que me tranquiliza.
Há ensinos bíblicos que podem balizar as nossas atitudes mais realistas.
Um otimista ingênuo confunde fé com presunção. Ele assume que tudo dará certo de forma automática, esquecendo-se de que o próprio Cristo nos advertiu: “No mundo tereis aflições” (João 16.33). Ainda em Provérbios 14.15 encontramos: “O ingênuo acredita em qualquer palavra, mas o prudente atenta para os seus passos”.
De outro modo, um cristão pessimista enxerga o mundo através de filtros de amargura e incredulidade. Essa postura paralisa a ação, anula a gratidão e foca estritamente nas “ondas e no vento”, assim como Pedro quando começou a afundar no mar da Galileia.
O realista puro, por sua vez, baseia-se estritamente nos fatos observáveis. O realismo é uma ferramenta essencial para a prudência, pois, como ensina Jesus em Lucas 14.28, ninguém constrói uma torre sem primeiro sentar-se e calcular os custos.
O realista esperançoso não nega a realidade do sofrimento, da injustiça ou das dificuldades. Ele olha para os problemas de frente. Todavia, se recusa a ser definido ou paralisado por eles, pois sabe que a história humana não termina no caos, ao contrário, aqueles que se submetem ao senhorio de Cristo terão um futuro glorioso.
Essa atitude reflete perfeitamente a teologia bíblica da esperança. O apóstolo Paulo exemplifica esse equilíbrio em 2 Coríntios 4.8-9: “Em tudo somos atribulados, mas não angustiados; perplexos, mas não desanimados; perseguidos, mas não desamparados; abatidos, mas não destruídos”.
Ser um realista esperançoso à luz das Escrituras significa viver a definição de fé descrita em Hebreus 11.1: “Ora, a fé é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não veem”. É caminhar com os pés firmes no chão da realidade — plantando, trabalhando e lidando com as dores do presente — mas com os olhos fixos na eternidade e nas promessas daquele que é fiel para cumpri-las.
Elias Brito Junior é Mestre em Teologia – concentração em Igreja e Sociedade