Efeito do Espectador (André Oliveira)

André Oliveira/Arquivo pessoal

Estamos cercados por imagens e notícias que nos colocam, diariamente, diante da realidade de outras pessoas. Pelas telas, acompanhamos guerras, injustiças, sofrimento e necessidades. No entanto, existe uma grande diferença entre ver e assumir responsabilidade diante daquilo que vemos. Podemos nos indignar, comentar e compartilhar sem realmente nos envolver. O perigo é confundirmos estar informados com estar envolvidos. Comentar não é cuidar. Assistir não é participar.

Mas por que, mesmo percebendo a necessidade do outro, tantas vezes não agimos? Nesse contexto, a Psicologia Social pode nos ajudar a compreender por que, mesmo diante da necessidade de alguém, nem sempre nos sentimos responsáveis por agir. Um dos fenômenos que ajuda a explicar esse comportamento é o chamado “efeito do espectador”: quando outras pessoas estão presentes, nossa percepção de responsabilidade para ajudar pode diminuir. É como se pensássemos: “Alguém fará alguma coisa.”
Um episódio ocorrido em Nova York, em 1964, contribuiu para que esse fenômeno ganhasse atenção e se tornasse objeto de investigação. O caso de Kitty Genovese tornou-se uma das referências mais conhecidas sobre o efeito do espectador. Ela foi atacada próximo de casa e pediu socorro.
Vizinhos ouviram ou perceberam partes do que estava acontecendo, mas a intervenção não ocorreu a tempo de impedir sua morte, o episódio deixou uma pergunta que permanece atual: por que, diante da necessidade de alguém, tantas vezes esperamos que outra pessoa faça alguma coisa?
Essa pergunta, porém, não é apenas contemporânea. Muito antes de o comportamento de ajuda se tornar objeto de estudos, Jesus contou uma história que nos confronta justamente com essa questão. Na conhecida parábola do bom samaritano, um homem é assaltado, espancado e deixado à beira da estrada. Um líder religioso passa, vê o homem e segue adiante. Depois, outro homem, também ligado ao serviço religioso, passa pelo mesmo lugar, vê a situação e faz o mesmo.
Então surge alguém de quem pouco se esperava: um estrangeiro pertencente a um povo desprezado. Ele também vê, mas faz algo diferente: aproxima-se. Cuida das feridas, leva o homem a um lugar seguro e assume a responsabilidade pelo seu cuidado. A diferença não estava apenas no que aquelas pessoas viram, mas no que decidiram fazer com aquilo que viram. Jesus conclui: “Vá e faça o mesmo.”
Talvez essa seja uma das respostas mais poderosas ao efeito do espectador: não apenas veja. Aproxime-se. Faça.
Essa reflexão ganha um significado especial quando nos aproximamos do 7 de Setembro. É fácil olhar para os problemas do Brasil e perguntar: “Por que ninguém faz alguma coisa?” Talvez, porém, outra pergunta seja mais importante: “O que eu posso fazer?”
Uma nação não é construída apenas pelas decisões dos grandes centros de poder. Ela também é construída dentro de casas, escolas, empresas, igrejas e comunidades. Quando um pai se torna mais presente, alguém escolhe a honestidade, uma igreja se aproxima das dores de sua comunidade, um professor não desiste de um aluno ou um vizinho percebe a necessidade do outro, alguma coisa começa a mudar. Podem parecer pequenas mudanças, mas sociedades são feitas de pessoas, e pessoas fazem escolhas.
A independência de uma nação também nos convida a lembrar que liberdade e responsabilidade caminham juntas. O Brasil não precisa apenas de espectadores indignados, mas de pessoas dispostas a fazer o que está ao alcance de suas mãos, pode ser o cônjuge que precisa ser ouvido; o filho que está tentando chamar nossa atenção; o colega de trabalho que atravessa um período difícil; o vizinho idoso que precisa de ajuda; uma família da igreja enfrentando silenciosamente uma crise; ou alguém que cruzou o nosso caminho precisando apenas de uma oportunidade. Nem toda ajuda exige dinheiro. Às vezes, exige tempo, atenção, uma conversa, presença ou simplesmente a disposição de perguntar: “Como posso ajudar?”
O estrangeiro da história de Jesus não resolveu todos os problemas daquela estrada. Apenas cuidou da necessidade que encontrou diante de si. Nós também não podemos resolver todos os problemas do Brasil e do mundo, mas podemos fazer alguma coisa no pedaço do mundo que Deus colocou diante de nós.
A história de Jesus nos ensina movimentos simples: veja sem tornar o sofrimento parte da paisagem; aproxime-se em vez de esperar que outro o faça; faça aquilo que estiver ao seu alcance; e, quando necessário, envolva outras pessoas no cuidado. No final, a pergunta não é apenas o que estamos vendo acontecer ao nosso redor, mas o que estamos fazendo com aquilo que vemos.
Às vésperas de mais um 7 de Setembro, talvez a pergunta não seja apenas “Que Brasil queremos?”, mas também: “Que responsabilidade estamos dispostos a assumir para construí-lo?”
Porque, diante da necessidade, Jesus não nos chamou para sermos apenas espectadores. Ele disse: “Vá e faça o mesmo.”
André Oliveira é pastor, psicólogo, pós-graduado em Terapia Cognitivo 
Comportamental e mestrando em Cognição Humana.