
Confesso que travei quando esse homem afirmou ser um vencedor, pois as palavras dele me pareceram absurdas e explico o motivo.
Ele estava prestes a ser preso, não tinha cargo de destaque, não era rico e não controlava nada do que hoje a sociedade costuma chamar de poder.
Então por que se via como vencedor?
Na cultura atual, alguém para se declarar vitorioso precisa ter patrimônio, influência política, conexões poderosas, ser dono de uma grande empresa ou instituição. Alguém que a sociedade chamaria de vencedor sem esforço.
Mas não era esse o caso. Na concepção desse homem, a vitória tinha um valor muito diferente daquilo que costumamos acreditar. E isso me deixou estupefato.
Porque, por muito tempo, eu também comprei essa ideia de vitória.
Eu já trabalhei em grandes empresas. Já ocupei cargos importantes. Já estive em lugares que, vistos de fora, pareciam significar “cheguei lá”. E mesmo assim, em muitos momentos, eu me senti em dívida com a vida. Como se ainda faltasse alguma coisa para finalmente me autorizar a dizer: agora sim, eu venci.
A lógica era sempre a mesma. Se eu alcançasse aquele cargo, faltaria outro. Se eu tivesse aquela renda, precisaria de mais. Se meu nome chegasse até certo lugar, eu ainda compararia com alguém que foi mais longe.
É assim que a cultura da performance funciona: ela nunca entrega descanso. Pode até entregar aplauso, status e dinheiro. Mas descanso, não. Porque vive de produzir uma sensação crônica de insuficiência. A gente corre; conquista; sorri; posta; compara; e volta a correr. No fundo, a mensagem é sempre a mesma: nunca somos suficientes.
Daqui a pouco eu volto a falar do homem que me fez repensar essa forma de ver o sucesso.
O filósofo Byung-Chul Han ficou conhecido justamente por descrever essa lógica de uma sociedade do desempenho, em que a cobrança já não vem só de fora. Ela mora dentro da gente. E o resultado disso é uma cultura cansada, ansiosa e esgotada, que transforma desempenho em identidade e descanso em culpa.
Foi só quando eu comecei a revisitar a minha própria história com mais carinho que alguma coisa mudou. Eu parei de olhar para a minha vida apenas pelo que faltava.
E comecei a olhar também para o que já tinha construído. Não estou falando de carros caros, mansões ou círculos de poder. Estou falando de coisas que a sociedade costuma chamar de secundárias, mas que talvez sejam mais decisivas do que parecem. Relações que permanecem; amizades verdadeiras; pessoas que eu ajudei em silêncio.
Foi olhando para isso que eu comecei a entender uma coisa simples e forte: talvez eu estivesse usando a régua errada para medir a minha vida. E talvez muita gente esteja. Porque a cultura em que vivemos nos treinou a admirar o que aparece. Ela nos ensinou a confundir vitória com vitrine. Vencedor é quem tem; quem acumula; quem impressiona; quem pode mostrar uma coleção visível de resultados.
Mas será mesmo? Será que vencer é apenas ser reconhecido por fora? Será que só os ricos e poderosos podem se considerar vitoriosos? Será que uma pessoa comum, sem grandes símbolos de status, está condenada a se enxergar como fracassada?
Existe uma pergunta que quase nunca aparece nas planilhas da vida moderna: quem nos tornamos no caminho? Podemos ganhar muito e nos perder. Podemos crescer por fora e empobrecer por dentro. Podemos conquistar espaço e perder paz. Podemos ser admirados por muita gente e não conseguir mais admirar a própria história.
Foi aí que outra voz me ajudou a pensar. Viktor Frankl, psiquiatra austríaco e sobrevivente do Holocausto. Ele insistiu que o ser humano não vive só de prazer nem só de poder; ele precisa de sentido. E quando escreveu sobre sucesso, ele foi na contramão do nosso tempo: dizia que sucesso não pode ser perseguido como um troféu em si mesmo. Ele surge como efeito colateral de uma vida dedicada a algo maior do que o próprio ego.
E aqui eu volto ao homem que me chocou ao afirmar ser um vencedor, mesmo sem ter as qualidades exigidas hoje nessa sociedade de performance. A frase aparece no Evangelho de João: “Eu venci o mundo”. E ela não foi dita depois de uma grande conquista material, nem depois de uma coroação, nem depois de uma ascensão pública. Foi dita num momento de tensão, pouco antes da prisão, depois de Jesus avisar aos discípulos que eles seriam dispersos e o deixariam sozinho.
No mesmo fôlego, Ele fala de paz e de aflição. Em outras palavras: Jesus chama de vitória algo muito diferente daquilo que nós costumamos chamar.
Hoje, para mim, a afirmação de Jesus soa como libertação. Porque talvez vencer não seja dominar o mundo. Talvez seja não deixar que a sociedade dite o seu valor. Seja continuar inteiro num ambiente que recompensa máscaras. Seja preservar amor, verdade, dignidade e paz interior mesmo numa sociedade viciada em comparação e performance.
Eu não estou dizendo que dinheiro não importa. Nem estou afirmando que crescer profissionalmente é errado. Querer melhorar de vida, sustentar a família com dignidade, ampliar horizontes, estudar, construir patrimônio, acessar boas oportunidades — tudo isso é legítimo. O problema começa quando essas coisas deixam de ser meios e viram a medida final da nossa humanidade.
Porque essa visão torna a pessoa simples menor. O operário se sente atrasado no tempo. A mãe exausta que segurou a casa se sente invisível. O homem íntegro que não se corrompeu se sente menos importante do que os corruptos. A professora que formou consciências, o cuidador que serviu sem palco, o profissional que ajudou pessoas reais, o amigo que sustentou vínculos, todos eles passam a achar que não venceram — só porque não cabem no retrato glamouroso do sucesso.
Isso é cruel. E, pior: isso é mentira! Há vitórias que não cabem no currículo. Há conquistas que não aparecem no feed. Há triunfos que não impressionam o mercado, mas sustentam uma vida inteira. Talvez o nosso tempo admire o sucesso e já não saiba reconhecer a vitória.
Hoje eu desconfio de qualquer ideia de sucesso que me faça desprezar a minha história, esquecer as pessoas que ajudei, reduzir o meu valor ao que aparece e tratar como fracasso tudo aquilo que não virou símbolo material. Talvez a pergunta mais importante da vida seja: será que estamos usando uma régua pequena demais para medir uma vida inteira?
As vitórias de Jesus foram tão grandes, que não podiam ser medidas com valores monetários, influência política ou seguidores. Elas aconteceram dentro dele, numa gigantesca força interior, coerência moral e resistência ao status quo, sem reproduzir a lógica da brutalidade.
Você já parou para pensar que aquilo que chamamos de vitória seja justamente o que está nos destruindo como humanidade?
Calebe Pacheco é Jornalista, pós-graduado em Gerenciamento de Projetos pela FGV e especialista em Marketing de Performance.