EUA e China reduzem tensão comercial de olho em interesses estratégicos

Donald Trump, dos Estados Unidos e Xi Jimping, da China. Negociações entre as duas maiores economias do Planeta. Juntos mais fortes para um mundo melhor. Pelo menos essa é a expectativa. Ilustração, Edgar Lisboa, com recursos de IA

Por Edgar Lisboa

O encontro entre lideranças dos Estados Unidos e da China sinaliza uma tentativa concreta de reduzir tensões comerciais e reorganizar interesses estratégicos em um momento de forte disputa global por tecnologia, defesa e segurança econômica. A avaliação é do professor Marcos Vinicius de Freitas, especialista em relações internacionais e Senior Fellow do Policies Center for the New South, em entrevista ao Jornal da CBN.

Segundo o especialista, o movimento construído entre Washington e Pequim não tem caráter de longo prazo, tradicionalmente associado à diplomacia chinesa. Desta vez, afirma, o planejamento foi desenhado com foco no curto prazo e diretamente alinhado ao mandato do presidente Donald Trump.

Para o professor, o principal objetivo é diminuir o ambiente de guerra comercial que marcou os últimos anos da relação bilateral. “Os chineses fizeram um projeto pensado para os três anos do mandato de Trump, algo mais pragmático e imediato”, observou.

Terras raras no centro da disputa

A negociação entre as duas maiores economias do planeta passa diretamente pelo controle das chamadas terras raras, minerais essenciais para a indústria de alta tecnologia, defesa, transição energética e produção de armamentos.

Marcos Vinicius de Freitas destaca que o problema para os Estados Unidos não está apenas na mineração, mas principalmente no refino. Atualmente, cerca de 90% das terras raras do mundo passam por processamento na China, o que amplia significativamente a dependência americana.

O tema ganhou ainda mais relevância diante do esforço dos Estados Unidos para recompor estoques militares utilizados em conflitos recentes no Oriente Médio, especialmente após o aumento das tensões envolvendo o Irã. Segundo o especialista, Washington precisa garantir acesso rápido e contínuo aos minerais refinados para manter sua capacidade industrial e militar.

“O planejamento de mineração é de longo prazo, pode levar 10, 15 ou até 20 anos. Isso ultrapassa inclusive o próprio ciclo político de Trump”, explicou.

China busca reduzir barreiras

Do lado chinês, o interesse seria diminuir obstáculos impostos pelos Estados Unidos ao avanço econômico e comercial de Pequim no cenário internacional. Para isso, a China estaria disposta inclusive a reavaliar temas sensíveis da agenda bilateral.

Entre eles aparece o setor agrícola, considerado estratégico tanto para a economia americana quanto para o ambiente político interno dos republicanos. O professor ressalta que a preocupação cresce especialmente diante das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos.

Estados agrícolas tradicionalmente republicanos, como Iowa, dependem fortemente das exportações para a China. Um eventual desgaste comercial poderia provocar perdas políticas importantes para o Partido Republicano.

“A pior coisa para os republicanos seria ver produtores rurais se sentindo abandonados pela política comercial americana”, avaliou.

Reflexos para o Brasil

A reaproximação entre Washington e Pequim também é acompanhada com atenção pelo Brasil. O agronegócio brasileiro ampliou espaço no mercado chinês justamente durante os períodos de maior atrito comercial entre chineses e americanos.

Caso haja redução das barreiras e retomada mais forte das compras agrícolas dos Estados Unidos pela China, setores do agro brasileiro podem enfrentar maior concorrência no mercado asiático. Ao mesmo tempo, especialistas observam que um ambiente global menos tensionado reduz riscos para o comércio internacional e pode favorecer estabilidade econômica.

O encontro, portanto, indica mais do que um simples gesto diplomático. Representa uma tentativa de reorganização pragmática das relações entre as duas maiores potências econômicas do planeta, em um momento em que segurança estratégica, cadeias produtivas e disputa tecnológica passaram a influenciar diretamente a política internacional e os cenários eleitorais internos.

Portal Repórter Brasília, Edgar Lisboa