
A libertação do jugo de Faraó propiciou a retomada da autonomia dos hebreus. Embora um processo que custou muito caro ao povo hebreu, foi uma grande vitória. Sangue, suor e lágrimas o preço que corrigia um erro antigo na família de Abraão.
Moisés ignora a idade avançada, ainda tem forças para corrigir os erros dos hebreus. Sob o sol do deserto, a multidão de hebreus não se intimidou enfrentar seus obstáculos. Um monte conhecido como Monte da Congregação com muitas nascentes, água fresca e frutas era parada obrigatória dos viajantes que fazem daquele lugar, o ideal para invocar seus deuses, agradecer e descansar. Sacerdotes viam o Monte como lugar místico, encontro dos deuses, por isso o chamam de Monte da Congregação. Acreditam que nesse é possível falar com seus deuses. Os que praticam as crenças com mais afinco trazem cânticos de alegria ou desespero nas causas que envolvem sofrimentos.
Um exemplo, o Salmista canta: “Elevo os olhos para os montes, de onde me virá o socorro?” E a resposta vem em seguida: “O meu socorro vem do Senhor que fez os céus e a Terra.”
No Monte da Congregação a fé de cada um é respeitada e plural.
Josué, cavalga escoltado por dezenas de soldados. Os hebreus são vistoriados, ele pede ordem e obediência no retorno a Canaã. Na linha de frente, jovens soldados seguidos por soldados bem armados, por último, mulheres e crianças.
— Quando vamos retornar para a nossa terra?
Calebe se antecipa e responde:
— Aguardem nossas ordens! Antes, Jericó precisa ser vencida.
Os hebreus se acomodam como podem entre areias e rochas. Os que ainda têm grãos, comem com avidez, limpam as mãos discretamente nas vestes, ajeitam-se sob a vasta vestimenta, leves e esvoaçantes.
No dia seguinte, uma mãe cutuca o filho adolescente e avisa:
— O discurso de Moisés vai começar! Faça silêncio!
As mulheres que chamam seus filhos, quase todas com muitos filhos. Tampam os rostos com véus, protegem os olhos da fina areia.
— Mãe, por que me cutucou?
— Esse é o grande dia! Moisés disse que vai revelar a origem do mal.
— Origem… do quê?
O leve silêncio envolve o ambiente. Um jovem ajudante de Moisés pede atenção, sua voz soa alto:
— Anjos e nosso líder Moisés já estão entre nós.
Ele acena e cumprimenta a todos com um discreto sorriso.
— Shalom!
Todos respondem:
—Shalom!
Do lugar mais alto no Monte da Congregação, hebreus cantam, bebem, Miriam dança. Com ela, centenas de crianças cantam, a noite é de festa.
Josué cavalga com passos harmônicos. Faz outra vistoria no ambiente. Ele é um líder temido e admirado. Com vestimenta que o destaca, a seriedade no rosto de Josué o impede de sorrir. Caminha em volta do Monte da Congregação. Confere as armas suficientes nas providências
de proteção e emergências, principalmente das mulheres e crianças.
Na tenda principal, pregações mostram que Moisés não se cansa de fazer revelações. Hoje ele vai falar sobre a origem do mal. A ansiedade não sabe esperar. Alguém na multidão o apressa:
— Como se deu o início do mal?
— Não tenho respostas prontas.
— Não?
— E não é assunto para discursos inflamados. A cautela sugere deixar os profetas contarem essa história.
— Mas você prometeu!
Após uma pausa, ele cerra os olhos e prossegue:
— Tudo bem… Vou falar muito pouco sobre isso. Os céus já testemunharam a presença de um anjo muito forte, aliado de Deus no passado, o maioral entre os Anjos nos céus.
— Mais forte que Miguel? – pergunta o inquieto adolescente.
— Muito mais forte. – Responde Moisés.
— Qual o nome dele? – insiste o inquieto adolescente.
— Shhhh… – pede o pai do garoto. – Calma, meu filho. Ele vai explicar tudo!
Moisés, começou manso, manso continuou.
— Tudo? Não vou falar tudo. A presença de Lúcifer exige resposta longa; difícil a compreensão. O Altíssimo Jeová não permite respostas que confundem o conhecimento. Lembrem-se da história do Eden. Uma parte é simbólica, a outra, literal…
— O simbólico e o literal. Isso aprendi.
— Aprendeu? Glórias a Yavé por isto!
— Glórias a Yavé!
— Amigos, vamos fazer outra pequena pausa aqui.
Moisés ouve com atenção um alerta de Caleb:
— Homens estranhos estão cercando o nosso povo.
Moisés, pensa por alguns instantes.
— De onde estão vindo?
— Jericó.
— Calebe, libere o povo para suas tendas.
Todos retornam, cada um para suas tendas.
Anoitece no Monte da Congregação em silêncio.
O legislador dos hebreus gosta de caminhar solitário nas madrugadas. O cajado de pastor o apoia. Os longos cabelos desalinham-se ao
vento. Por onde passa o mais famoso filho adotivo de Faraó, multidões fazem silêncio em reverência. Moisés não gosta de guardar segredos, mas resiste. Ainda não é tempo de revelar tudo.
Um novo dia amanhece menos ensolarado. A história de Lúcifer volta a deixar o povo alvoroçado. Moisés, filtra as minúcias das perguntas.
— É o momento de expor algumas intenções de Lúcifer.
O legislador Moisés, ponderado, sucinto em suas explicações, é um excelente mestre. Não muito distante, atento aos que insistem nas respostas, Moisés explica e ajuda a entender mistérios. Muitas lacunas ainda pairam sobre os relatos de Moisés. Ele prossegue:
— Eu já estou velho… Os profetas que virão saberão explicar com mais detalhes e eloquência. Mas vou lhes dizer do pouco que me foi revelado. Um dia, Lúcifer desejou a “semelhança de Deus”. Num esforço descomunal, ele sobe aos céus com ajuda de um monte imaginário. Um pássaro branco se aproxima. Lucifer se esquiva. A aparência é de um pombo. Mas tem fogo nas asas! Caem as primeiras gotas de suor do rosto de Lúcifer. O medo, ganância e arrogância se misturam. Lúcifer insiste em subir.
— Por que ele não desceu?
— Outro ser celestial haveria de descer… E Lúcifer sabia disto. O esforço previa evitar um confronto.
— Com quem?
Lúcifer se estremece ao ouvir o barulho de forte vento provocado pelo pássaro.
— Eu te ajudo a descer…
— Não! Eu não vou descer e nem subir!
Naquele diálogo com o pássaro, Lúcifer mentiu. Não parou de subir lentamente. A ambição de pisar em pedras preciosas era mais forte: ônix, diamantes, rubis, esmeraldas, pérolas… Ouro, a superioridade o consagrava sobre todos.
Ainda faltava subir mais. O objetivo de Lúcifer exigia uma longa viagem até o ponto mais alto: moradas do Altíssimo. Quem conhecia intimamente o poder e a soberania de Deus como Lúcifer, deveria ter mais prudência e evitar um plano insensato.
— Qual era o plano dele?
— Alcançar a semelhança do Altíssimo. O Anjo maioral esqueceu as recomendações do pássaro e prosseguiu em seu intento. O plano da “semelhança” com a pessoa do Altíssimo falseou uma identidade que não lhe cabia.
Lúcifer aproxima-se do Altíssimo. O maioral dos anjos perdido nas trevas espirituais, descuida-se. Calcula mal a sua intenção. Não fez guerra, não lutou, não matou e não morreu. A maldade o alimentou da
mentira, entregou-se ao desejo de uma grande farsa. Assim, Lúcifer fracassou na mentira antes de prosseguir e subir. Se o mal tinha a semelhança dele, ele não tinha a semelhança de Deus. Galgou as alturas, mas por pouco tempo. Lúcifer viu uma pata de leão ao seu lado que o lançou às profundezas.
—Por que ele queria a semelhança de Deus?
— Sozinho ele não seria vitorioso. O plano ardiloso de Lúcifer residia na igualdade com Deus, o que achava que venceria dentro do Caminho de Deus. A ambição naquela altitude era estratégica. Lúcifer rebelou-se contra Deus no legítimo direito de um soberano ocupar a posição que só pertence ao Senhor Deus. Um raciocínio sobre suposições e probabilidades: se Deus compartilhasse o trono com Lúcifer, Deus perderia a soberania no trono. O Pai é quem morreria sem o Filho. Por fim, a igreja morreria sem a ressurreição. A igreja se tornaria a serpente rastejante. Mas, por isso Satanás, já derrotado, caiu sem subir.
— O que a Palavra de Deus diz?
— Boa pergunta. A Palavra de Deus diz: “Ora, isto – ele subiu – que é, senão que também antes tinha descido às partes mais baixas da terra? Aquele que desceu é também o mesmo que subiu acima de todos os céus, para cumprir todas as coisas.” (Efésios 4:9,10)
— Só o Senhor é Deus!
Todo respondem:
— Só o Senhor é Deus!
Judson Santos é Escritor,
professor de teologia e
terapeuta bíblico.