
Vivemos um momento emblemático, foi noticiada a descoberta do local onde foi forjado o suicídio de Wladimir Herzog. O jovem governador Eduardo Leite é preterido pelo presidente do PSD Gilberto Kassab ao indicar o governador de Goiás Ronaldo Caiado como candidato do partido à presidência da República. Caiado não é nenhum neófito na política, sua trajetória foi sempre pela direita, pelos interesses dos grandes proprietários de terras, contra as políticas de meio ambiente e a reforma agrária à frente do movimento ruralista.
Foi um dos artífices da derrubada de Dilma Roussef da Presidência. Ele mente descaradamente ao afirmar ser do centro democrático e por outro declarar que seu primeiro ato seria anistiar Bolsonaro e os generais golpistas de 8 de janeiro de 2023. Não adianta falar que Juscelino anistiou os oficiais da Aeronáutica que tentaram dar um golpe, ele aconteceu pouco depois, em 1964 com a deposição de João Goulart. Quem anistia golpistas a título de pacificação do país golpista é.
A declaração de Eduardo Leite sobre a decisão de Gilberto Kassab de indicar Caiado, que sempre teve lado, é no mínimo humilhante para o jovem governador. Se tivesse um pouco de dignidade no melhor estilo gaúcho teria rompido com o PSD e como Getúlio Vargas e se retirado para um recolhimento político reflexivo. Não há dúvidas de que não há espaço para ele no PSD e que seu discurso de centro liberal está superado pela realidade do Brasil e do mundo.
Falta-lhe uma leitura analítica da conjuntura histórica, o Brasil de hoje e suas relações internacionais não são as mesmas dos anos 90 e início de 2.000, onde a social democracia e a defesa de um estado de bem estar social eram a tônica aqui e no mundo. Pode-se criticar Lula e os “extremos”, mas o fato e que paradoxalmente são exatamente Lula, o PT e os partidos que compõem a aliança democrática-popular que garantem as conquistas sociais, a democracia e o estado democrático de direito.
A postura de Lula no campo internacional é a de um verdadeiro estadista. Internamente tem que se equilibrar na débil relação com um Parlamento considerado o pior das últimas legislaturas. Com o poder judiciário por outro lado mantém uma relação respeitosa, consideradas as decisões difíceis e de caráter político do 8 de janeiro e os recentes episódios envolvendo magistrados no escândalo do Banco Master. Porém, de fato, existe uma campanha urdida desde fora do país para desgastar e quem sabe desconstituir um dos poderes mais importantes da República, algo que nem a ditadura militar de 1964 ousou fazer.
As cartas estão na mesa. A eleição ainda não começou, mas elas já estão sendo distribuídas, agora e saber como cada um dos candidatos e partidos se comunicarão com o povo. Quanto a Eduardo Leite, penso que deveria concluir seu mandato no RS e rever suas posições de bom moço, pretensamente equilibradas, cheias de dignidade e orgulho gaúcho, mas o exemplo dado pelo também jovem imigrante eleito prefeito de Nova Iorque é marcante, pode servir também para a esquerda, já é hora de falar diretamente ao povo, tal como sugere a peça de Bertold Brecht intitulada “Faça-se a luz para o esclarecimento do povo”! É disso que precisamos, e muito!
Paulo Brum é jornalista