Desigrejados do mundo (Eliseu Pereira)

Eliseu Pereira/Arquivo Pessoal

“Desigrejado” é um termo criado para designar pessoas que estão saindo de suas igrejas por diversos motivos. Trata-se de um fenômeno notável, que está chamando a atenção de observadores de dentro e de fora das igrejas.

Pastores, teólogos, sociólogos, cientistas políticos e da religião estão analisando suas causas e consequências. A razão é que, durante as últimas décadas, o número de fiéis nas igrejas evangélicas brasileiras estava em crescimento, ao passo que o número de católicos estava em queda no país. Porém, o Censo de 2022 indica que o crescimento dos evangélicos está desacelerando e talvez um dos motivos seja o “desigrejamento”. Como os evangélicos representam cerca de 30% da população brasileira, qualquer movimentação nesse segmento não passa despercebida.

Neste breve artigo pretendo apresentar algumas reflexões sobre o sentido desse “desigrejamento”. Falo como pessoa de dentro e de fora da igreja. De dentro, porque sou cristão, convivo com igrejas desde a infância e estudo teologia há mais de 30 anos. De fora, porque também já tive a experiência de ser “desigrejado”. A propósito, atualmente, participo de uma comunidade que muitos não considerariam uma igreja. Para esses, eu sou um desigrejado. Então, digamos assim, tenho lugar de fala.

Primeiramente, o termo “desigrejado” teve que ser inventado, porque a linguagem não dispunha de vocábulo adequado para designar o novo fenômeno religioso. O prefixo latino “des-” indica movimento de separação, afastamento — no caso, afastamento da “igreja”. São pessoas que estão abandonando voluntariamente a frequência regular de suas igrejas. O motivo e o destino dessas pessoas sem-igreja variam: algumas buscam novas formas de viver a fé cristã em novos formatos comunitários; outras saem, mas, depois de um tempo, voltam para a mesma igreja ou para outra; algumas mudam de religião; outras adotam uma espiritualidade à la carte; outras simplesmente desistem de toda religião e se tornam agnósticas ou ateias. O fato é que estão saindo das igrejas locais.

Em segundo lugar, trata-se de um fenômeno observado apenas entre evangélicos, porque os católicos têm uma relação diferente com sua igreja. Todo católico tem o dever de frequentar as missas e participar dos sacramentos. Porém, a maioria deles não frequenta igreja regularmente. Formalmente, eles seriam “desigrejados”, mas esse termo não se aplica a católicos, porque, como o catolicismo já foi religião oficial no Brasil, é comum que haja dois tipos de fiéis: o nominal e o praticante. O nominal é aquele se declara católico porque é a religião de sua família e de sua cultura; o praticante é aquele que adere pessoalmente ao catolicismo. No Censo de 2022, pouco menos da metade dos católicos se declarou praticante (48%). Desses, 28% dizem que vão à igreja uma vez por semana e apenas 17% vão à igreja mais de uma vez por semana.

No Brasil, ainda não se fala em evangélico “nominal”, porque, supostamente, num país de tradição católica, quem muda de religião tem a intenção de praticar a nova fé. Nos EUA, por exemplo, a situação é diferente: sendo um país de maioria protestante, há nominais e praticantes. Os evangélicos praticantes são distinguidos dos nominais como born again (nascidos de novo) e churchgoers (frequentadores de igreja). Aqui no Brasil, porém, até agora, todo evangélico é born again e churchgoer. Mas, parece que o “desigrejamento” está mudando essa situação e, talvez, logo será possível também falar em evangélico nominal e praticante.

Em terceiro lugar — e mais importante — o termo “desigrejado” pressupõe necessariamente um conceito de “igreja”. O prefixo “des-” depende de uma definição de “igreja” que permita dizer com clareza: “até aqui é igreja” e “a partir daqui, não é mais igreja”. Somente assim, se pode identificar os dois grupos: quem está dentro da igreja (“igrejado”) e quem está fora da igreja (“desigrejado”). Mas qual é a definição de igreja? Parece uma pergunta simples, mas não é. Afinal, o que é uma igreja? Quais os sinais essenciais de uma igreja?

A resposta depende da confissão de fé do interlocutor — se católico ou protestante. Antes da Reforma Protestante, a definição teológica de igreja era simples, afinal só havia uma igreja no ocidente: a Igreja Católica Apostólica Romana, sob o governo do bispo de Roma, em sucessão apostólica de Pedro. Porém, depois da Reforma, esse conceito de igreja foi profundamente alterado para abarcar o direito legítimo de qualquer comunidade cristã se constituir como igreja, desde que em submissão a Cristo e obediência à Bíblia. Para os protestantes, a igreja de Jesus é um corpo orgânico unido pelo Espírito Santo na fé em Jesus Cristo. Para melhor defini-la, aplicaram-se os conceitos de “igreja visível” e “igreja invisível”. A igreja visível é a igreja local, institucional; a igreja invisível não se confunde nem coincide com nenhuma instituição em particular, mas atravessa e transcende todas as instituições eclesiais.

Esse debate sobre o que é igreja persiste entre católicos e protestantes, mas não entre os próprios protestantes em suas diversas denominações históricas, evangélicas, pentecostais, neopentecostais etc. A razão é simples: todas essas igrejas estão igualmente fora da “barca de São Pedro” e dependem da mesma eclesiologia reformada protestante para garantir seu direito legítimo à comunhão, independente do poder papal, da sucessão apostólica e da Sé romana.

As igrejas protestantes não quiseram formar uma igreja única, justamente para não cair no “erro” da unicidade institucional. Eles optaram por preservar suas igrejas independentes, com apoio estatal ou não. Com a migração dos protestantes ingleses para o norte das Américas, a partir dos séculos XVI-XVII, elas coexistiram de forma mais ou menos livre nas novas terras. Após a independência, os Estados Unidos da América estabeleceram a separação entre igreja e Estado, concedendo ampla liberdade religiosa. Assim as igrejas protestantes se organizaram em denominações independentes. A partir de meados do século XIX, essas igrejas estadunidenses começaram a fazer missões no Brasil e trouxeram o modelo denominacional, que foi aqui adotado e predomina até hoje. Como se pode notar, as denominações são uma construção histórica e não são essenciais à eclesiologia protestante.

O fato é que Jesus e os apóstolos afirmaram o que é uma igreja cristã (definição teológica), mas não estabeleceram o modo de organização de uma igreja (definição institucional), o que concede ampla margem de liberdade aos cristãos de todos os lugares e de todas as épocas. Nesse sentido, a Reforma Protestante reformou a eclesiologia para o bem de todos, inclusive dos próprios católicos.

Tal liberdade diz respeito a vários quesitos. Por exemplo, a igreja tem que ter governo único universal? Tem que ter prédio com aparência de igreja (cruz, torre e sino)? Ou pode se reunir numa casa, numa sala emprestada ou sob as árvores do parque? A igreja precisa ter pastores ordenados ou é livre para eleger seus supervisores? Os membros podem batizar os que creem ou apenas os pastores ordenados podem fazê-lo? Podem servir a ceia do Senhor aos irmãos e irmãs ou precisam de permissão de uma autoridade eclesiástica? Tem que ter coral ou orquestra ou pode cantar à capela? Tem que ter piano ou pode ter batuque? Tem que ser grande ou pode ser pequena? Pode ser uma igreja local independente ou precisa estar vinculada a uma denominação? Tem que ter “nome de fantasia” e CNPJ ou isso é meramente circunstancial? Tem que seguir o credo e os concílios ou pode fazer sua própria leitura da Bíblia e da história da igreja?

Pensem bem: essas perguntas dizem respeito à definição teológica da igreja ou apenas à definição institucional? Se a questão do “desigrejado” fosse teológica, então todos os protestantes deveriam voltar para a Igreja Católica, a única igreja fora da qual “não há salvação”, como consta no Catecismo. Mas, se a questão do “desigrejados” é apenas institucional, então eles têm a mesma liberdade de questionar as estruturas denominacionais, na mesma linha do que a Reforma Protestante fez à Igreja Católica Romana medieval. Afinal, ecclesia reformata, semper reformanda.

À luz de tudo isso, proponho que o termo “desigrejado” seja simplesmente “desinventado”, por completa inadequação. Ora, se o chamado “desigrejamento” é um fenômeno protestante e evangélico (portanto, não católico) e se o debate sobre a definição de igreja é institucional (portanto, não teológico), então, de fato, o fenômeno não pode ser chamado de “des-igrejamento”, porque, de fato, não há “fora” ou “dentro” da igreja, mas apenas novas formas de ser igreja, no pleno direito dado por Jesus a todos os seus seguidores — diversidade na unidade. Como ocorreu na Reforma Protestante, as novas igrejas interpelam as velhas igrejas e umas podem aprender com as outras, sem a tentação de controlar esse “sopro do Espírito”. “O vento sopra onde quer” e “quem não é contra nós, é por nós”, disse Jesus.

Portanto, “desigrejados” do mundo, “igrejai-vos” em Cristo!

Eliseu Pereira é mestre e doutor em Teologia, membro da Igreja Liberta em Curitiba/PR e produtor de conteúdo digital no canal Teologia Pé no Chão.