
Acordei recentemente com uma frase ecoando no coração: “Orelha ficará na memória de muitos.” O nome, tão simples e tão afetuoso, pertence ao cão comunitário cuja morte violenta, na Praia Brava, em Florianópolis, comoveu o país no início deste ano. O episódio ultrapassou fronteiras, gerou indignação internacional e reacendeu um debate urgente: como estamos cuidando daquilo que Deus colocou sob nossa responsabilidade?
Ao buscar na Bíblia uma luz para essa inquietação, encontrei um versículo curioso e profundamente atual: “O que, passando, se mete em questão alheia é como aquele que toma um cão pelas orelhas.” (Provérbios 26.17)
A imagem é forte. O texto bíblico usa o cão — um animal comum, presente no cotidiano do povo — para ensinar prudência e respeito. Mas, ao mesmo tempo, revela algo maior: até um simples animal pode carregar uma lição moral. E com o “Orelha”, podemos aprender muitas lições de vida.
O caso do Orelha nos lembra disso. Ele não era apenas um cão. Era parte da rotina de moradores, turistas e trabalhadores da região, pelo menos é o que tomei conhecimento pelas redes sociais. Era símbolo de afeto, de convivência, de comunidade. Sua morte brutal expôs uma ferida social: quando o amor se esfria, até os indefesos pagam o preço, isto é, desde que haja justiça.
Para nós, cristãos, esse episódio deveria provocar mais do que tristeza. Deveria despertar responsabilidade. A Bíblia afirma que “o justo atenta para a vida dos seus animais” (Provérbios 12.10). Isso significa que o cuidado com os bichinhos não é mero sentimentalismo moderno — é expressão de justiça, de caráter, de espiritualidade prática. Por que não dizer: amor pela criação de Deus!
Cuidar da criação é parte da nossa missão. Não apenas dos animais domésticos, mas de tudo o que Deus nos confiou: a terra, as águas, as florestas, os seres vivos que compartilham conosco este mundo. A criação não é um cenário; é um presente. E presentes se cuidam. E não cabe essa responsabilidade somente aos cristãos, mas a toda a sociedade que habita o planeta.
Orelha tornou-se símbolo de algo maior. Sua história nos convoca a repensar atitudes, educar nossas crianças para a compaixão, denunciar a violência e promover uma cultura de respeito à vida. Não apenas à vida humana — mas à vida como dom divino.
Se queremos um mundo mais justo, mais pacífico e mais humano, precisamos começar pelas pequenas atitudes. Pelo cuidado com quem depende de nós. Pelo respeito ao que Deus criou. Pelo amor que se manifesta não apenas em palavras, mas em gestos concretos.
Que o episódio com o Orelha não seja apenas uma notícia triste que passou. Que seja um chamado. Um convite. Uma oportunidade de sermos melhores e de contribuirmos firmemente para esse mundo de Deus ser mais justo e pacífico.
Porque, no fim das contas, a forma como tratamos os mais vulneráveis — humanos ou não — diz muito sobre quem somos.
Orcélio Amâncio é pastor, escritor e membro da Academia Evangélica de Letras do DF.