A decisão do PP gaúcho de firmar aliança com o PL para as eleições de 2026 e, ao mesmo tempo, romper com a base do governador Eduardo Leite não é apenas um movimento tático. Trata-se de uma inflexão política clara, que reposiciona o partido no campo da direita e redefine seu papel no tabuleiro eleitoral do Rio Grande do Sul.
Dilema que ninguém explica
Ao escolher o deputado federal Covatti Filho (PP/RS) como pré-candidato ao Piratini, o PP sinaliza desejo de protagonismo. Mas a escolha vem acompanhada de um dilema que ainda não foi respondido de forma convincente: como compatibilizar essa candidatura com um PL que já tem Luciano Zucco (PL/RS) em plena pré-campanha?
Protagonismo e ruptura com o governo

O senador Luis Carlos Heinze (PP/RS) tem adotado uma posição clara e coerente diante do debate interno no Progressistas no Rio Grande do Sul. Ele defende a saída do partido da base do governo Eduardo Leite (PSD) e a construção de uma candidatura própria ao Palácio Piratini.
Divergência estratégica
Para Heinze, a permanência no governo esvaziou o papel político do PP e alimentou indefinições que agora precisam ser enfrentadas com objetividade. A divergência central, segundo ele, não é pessoal, mas estratégica: o partido precisa decidir se quer protagonismo ou se continuará orbitando projetos alheios.
Candidatura própria e disputa interna
Heinze deixa evidente seu alinhamento com o grupo que sustenta a candidatura própria, defendida por parcela dos progressistas gaúchos.
Aliança declarada, candidatura indefinida
Os números da reunião mostram um diretório alinhado com a aliança ao PL. Foram 107 votos favoráveis, contra apenas 2 pelo MDB e 10 por uma candidatura sem alianças. O recado interno é inequívoco: o PP quer caminhar com o PL.
Duas candidaturas mesmo campo ideológico
O problema começa quando a aliança sai do papel e entra no terreno prático. Duas candidaturas majoritárias, no mesmo campo ideológico, tendem mais à colisão do que à soma. Covatti afirma que, se for necessário, o partido pode “abrir mão” da candidatura em março. Mas, até lá, ambos os lados seguem em campanha, ampliando a dificuldade de recuo sem desgaste.
Boicote, ruído e feridas internas
O boicote à reunião por parte do grupo ligado a Ernani Polo expôs fissuras que não desaparecem com discursos de unidade. A contestação da legitimidade do encontro e o clima de tensão revelam que o partido saiu da reunião com uma decisão formal, mas sem consenso político real.
A fala de Joel Wilhelm, ao defender a legitimidade do diretório, é correta do ponto de vista estatutário. Mas política não se resolve apenas com regimento. Unidade partidária se constrói com acomodação de interesses, e isso ainda está longe de acontecer.
Fora do governo Leite, mas para onde?
A saída da base de Eduardo Leite, aprovada por 91 votos a 25, fecha uma porta importante. O PP rompe com o governo estadual sem ter, ainda, uma alternativa de poder claramente consolidada. A aposta passa a ser integralmente na oposição de direita, orbitando o PL.
Esse movimento reduz margem de manobra futura. Ao deixar o governo, o PP abandona espaços administrativos e influencia menos a máquina pública. Em troca, aposta na polarização e na força eleitoral do campo conservador, uma estratégia de risco calculado.
O paradoxo da consulta interna
A consulta com 1.227 lideranças do partido traz um dado revelador: 56% preferem apoiar uma candidatura de centro-direita que não seja indicada diretamente por Jair Bolsonaro. Ao mesmo tempo, 74% defendem aliança com o PL.
Aliança sem subordinação politica
O paradoxo está posto. O PL é, hoje, o partido diretamente associado ao bolsonarismo, enquanto parte significativa do PP demonstra desconforto com esse rótulo. Como sustentar a aliança sem subordinação política? E, sobretudo, como explicar isso ao eleitor?
Covatti ou Zucco: a pergunta que não quer calar

A questão central segue sem resposta: quem será o candidato ao Piratini nessa aliança PP–PL? Covatti Filho ou Luciano Zucco? Ambos trabalham para se viabilizar, ambos falam ao mesmo eleitorado, ambos ocupam o mesmo espaço político.
Prudente mas com custo político
Adiar essa definição pode parecer prudente, mas o tempo costuma punir indefinições. Quanto mais as campanhas avançam, maior o custo político de uma desistência. Aliança sem hierarquia clara tende a virar disputa interna ampliada.
Uma aposta que exige maturidade
O PP fez sua escolha estratégica. Agora, precisará de maturidade política para transformar uma decisão partidária em um projeto eleitoral viável. Isso passa, inevitavelmente, por negociação dura com o PL, definição clara de papéis e disposição real para concessões. Sem isso, o risco é a aliança nascer forte no papel, mas frágil nas urnas, vítima das próprias contradições que hoje já estão à mesa.
A Coluna Repórter Brasília é publicada simultaneamente no Jornal do Comercio, o jornal de economia e negócios do Rio Grande do Sul.
Edgar Lisboa