
A tarde desta terça-feira (9) entrou para a história recente do Parlamento como um dos episódios mais tensos desde a redemocratização. A sessão que discutia o projeto de dosimetria das penas desandou em tumulto, gritos, cadeiras caindo e agentes da Polícia Legislativa cercando o deputado Glauber Braga (PSOL/RJ), retirado à força após ocupar a cadeira da Presidência da Câmara num ato de protesto contra a possível votação de sua cassação.
No instante da remoção, a TV Câmara saiu do ar, jornalistas foram impedidos de entrar no plenário e a Mesa ordenou o esvaziamento da imprensa. As únicas imagens que restaram vieram de celulares de deputados e assessores, como numa cena de interdito informacional.
Censura e Repressão: “Hoje não é um dia de orgulho”
A deputada Maria do Rosário (PT/RS) classificou o que viu como “o maior ato de censura e repressão à imprensa livre desde a redemocratização”. Para ela, o presidente da Câmara, Hugo Motta, carrega responsabilidade direta: “Um parlamentar foi arrastado no pleno exercício do mandato. O plenário foi fechado aos olhos do povo. A ordem para expulsar TV, rádio e jornais veio de algum lugar. Hoje não é um dia de orgulho para o Parlamento Brasileiro.”
Maria do Rosário ainda relacionou a confusão à tentativa de votar, no mesmo dia, a cassação de Glauber Braga e da deputada Carla Zambelli — decisões “incomparáveis”, segundo ela, e alinhadas a um movimento de “anistia ao golpismo”.
“A História Vai Cobrar Caro”
A deputada Fernanda Melchionna (PSOL/RS) ampliou o tom e acusou o Centrão e a extrema-direita de atuarem juntos em uma “agenda de 2026”:
“A história cobrará muito caro do casamento de conveniência do Centrão com a extrema direita para reduzir pena de 27 para dois anos para Bolsonaro.”
Ela denunciou a Presidência da Casa por expulsar jornalistas e comparou o episódio a regimes autoritários:
“O que aconteceu aqui causa inveja a ditaduras. Nem na ditadura civil-militar há registro de agressão a jornalistas dentro do plenário.”
Para Melchionna, o episódio desta terça é o “dia D dos golpistas”, articulado, segundo ela, para criar ambiente político favorável às candidaturas da direita em 2026.
Pauta Paralela: Terras de Fronteira em Meio ao Caos
Mesmo com o plenário ainda inflamado, prosseguiu-se — em meio a idas e vindas — a análise do projeto que permite a regularização de imóveis rurais em áreas de fronteira.
O deputado Pompeo de Mattos (PDT/RS) defendeu segurança jurídica para pequenos agricultores:
“O meu estado vive na fronteira com Argentina e Uruguai. Milhares de produtores pedem prazo, georreferenciamento e paz no campo.”
Já Bohn Gass (PT/RS) fez um alerta duro. Para ele, o texto transforma o Congresso em “cartório de registro de imóveis”:
“Não estamos falando do agricultor familiar. Estamos falando de quem tem 10 mil hectares. Sem estudo técnico, sem INCRA, sem georreferenciamento, e com aprovação tácita em dois anos. É absurdo.”
O parlamentar orientou voto contrário e afirmou que o projeto ameaça critérios constitucionais de função social e respeito ambiental.
A Defesa da Obstrução e o Ataque a Glauber
O deputado Marcel Van Hattem (Novo/RS) buscou distanciar as ações de seu partido da ocupação feita por Glauber. Ele afirmou que o Novo sempre agiu “de forma pacífica”:
“Jamais afrontamos a autoridade da Presidência. O deputado Glauber disse que só sairia arrancado por policiais — e foi exatamente o que aconteceu.”
Van Hattem lamentou que Glauber não venha a responder por agressões, porque, segundo ele, “não dará tempo”:
“Amanhã ele já estará cassado.”
Guimarães Admite: “Saiu do Controle”
Nos bastidores do governo, o líder José Guimarães (PT/CE) reconheceu que tentou evitar a escalada, mas que a situação fugiu ao comando da Mesa. Parlamentares relatam empurrões, assessores feridos e policiais legislativos superando limites da ação regular.
O Parlamento em Xeque
O conjunto dos acontecimentos, plenário fechado, imprensa expulsa, transmissão desligada, retirada forçada de um deputado, agressões e acusações cruzadas, expôs uma crise institucional profunda.
O episódio marca:
- Um questionamento aberto sobre liberdades democráticas dentro da própria Casa Legislativa;
- Uma disputa política contaminada pela pauta eleitoral de 2026;
- Uma sessão em que nenhuma das forças conseguiu controlar a escalada de tensão.
No fim do dia, o sentimento que se espalhou pelos corredores foi de vergonha institucional e apreensão sobre o que acontecerá nas próximas horas — especialmente com a votação da cassação de Glauber Braga, apontada por vários parlamentares como o estopim de uma crise que promete se aprofundar.
Portal Repórter Brasília, Edgar Lisboa