
Essa semana, o mundo teve mais uma vez seus olhos voltados para o Oriente Médio. Após a mediação de diversos interlocutores de grande influência mundial, de muitos países, em especial os Estados Unidos, Hamas e Israel assinaram um cessar fogo e ambas as partes assumiram compromissos imediatos para o fim do conflito: Hamas libertou todos os reféns vivos sequestrados em outubro de 2023 e Israel libertou mais de mil palestinos presos. As principais lideranças mundiais se uniram e celebraram a paz e o fim do conflito na faixa de Gaza.
Assim como esses líderes, eu também me alegrei com o cessar fogo. Mas enquanto ouvia as notícias e me atualizava sobre o assunto, me chamou a atenção como o termo paz estava sendo associado: a conquista da paz! “Espera aí! Quer dizer que para haver paz é preciso que haja um vitorioso e um conquistado?” Arrazoei comigo mesmo. Parece que a paz passou a estar associada a um acordo entre partes em conflito onde há a sujeição de um vitorioso sobre um derrotado. Essa ideia ficou mais evidente quando ouvi comentaristas dizerem que Israel celebrava a vitória por ter esfacelado o Hamas e se imposto como potência na região, destruindo o armamento nuclear do Irã, aliado do Hamas. Já o Hamas, também celebrava a vitória porque chamou a atenção do mundo inteiro para a causa palestina, pois o bloqueio de Israel a Gaza fazia com que seus habitantes se sentissem em uma grande prisão a céu aberto. Enfim, ambos os lados celebraram a vitória sobre o inimigo para aceitar a paz.
Bom, fui consultar o dicionário Houaiss sobre o verbete “paz”: (1) relação entre pessoas, nações que não estão em conflito; concórdia; (2) ausência de problemas, de violência; tranquilidade; (3) cessação total de hostilidades entre Estados; armistício, trégua; (4) estado de espírito de uma pessoa que não é perturbada por conflitos ou inquietações; calma, quietude; (5) estado característico de um lugar ou de um momento em que não há barulho e/ou agitação; calma, sossego.
Por um lado, me convenci de que o uso do termo paz estava correto, do ponto de vista linguístico, por estar associada a uma trégua, o que ocorreu na assinatura do acordo entre Israel e Hamas. Por outro lado, percebi que os demais itens do verbete são praticamente utópicos ou sazonais, dependendo de contextos os espaços físicos.
Como as palavras de Jesus sobre a paz passaram a ter mais sentido após esses meus devaneios. Disse Jesus: “Deixo com vocês a paz; a minha paz dou a vocês. Não a dou como o mundo a dá. Não se perturbe o coração de vocês nem tenham medo (João 14.27).” O conceito de Paz trazido por Jesus é tão maravilhoso que nem mesmo um dicionário como o Houaiss conseguiu definir porque vai além de um “estado de espírito, calma ou quietude”. Afinal os discípulos estavam super inquietos por terem ouvido de Jesus que Ele os deixaria, que iria para o Pai.
A ideia da Paz apresentada pelo Linguista é natural, humana, deste mundo. Sendo assim, é plausível que ele não consiga atingir sua plenitude conceitual. Ou seja, a ideia de Paz que Jesus apresentou aos discípulos não seria uma ideia natural. Mas se não é natural, ainda assim seria alcançável?
Em um outro trecho, as Escrituras dizem que sim. O apóstolo Paulo, em sua carta aos moradores de Filipos, se despede dizendo a eles: “E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará o coração e a mente de vocês em Cristo Jesus (Filipenses 4.7)”. O apóstolo fez referência a uma paz que era conhecida tanto por ele como para aqueles que leram originalmente aquela carta.
A ideia de Paz que Jesus trouxe e replicada por Paulo, mesmo não sendo compreensível, fugindo ao entendimento, ainda assim era conhecida. Tanto para Paulo como para os leitores de Filipos, tratava-se de uma ideia de paz tão evidente como um dia ensolarado, sobrenatural. Sobrenatural? Como não dizer? Afinal, Paulo estava preso, em uma prisão romana e ainda assim reforçava aos leitores de Filipos que se alegrassem com ele, mesmo diante de sofrimento.
Não havia vitorioso! Não havia derrotado! Só havia as palavras de Jesus como fonte de esperança, de renovo, de consolo, e nada mais! Uma paz que pode ser experimentada, até mesmo transmitida, mas ao mesmo tempo, logicamente incompreensível e por isso, duradoura!
Luiz Nolasco Júnior é Teólogo, Mestre e Doutor em Educação.