
“Nenhuma palavra torpe saia da boca de vocês, mas apenas a que for útil para edificar os outros, conforme a necessidade, para que conceda graça aos que a ouvem” (Efésios 4.29).
Existem pessoas que possuem uma capacidade terrível de lembrar o pior em nós. Em geral, usam as palavras para peneirar o nosso lado mais sombrio e usá-lo com a finalidade de nos humilhar e nos deixar feridos. Somos velozes e furiosos em emitir julgamentos e lentos em oferecer compreensões. É muito triste sermos reduzidos a um carimbo que não dá conta da complexidade da nossa história. Reduzir pessoas a fragmentos expressos em falas torpes é como condenar alguém a nunca mudar.
Palavras torpes não são apenas palavrões, segundo o conceito da sabedoria bíblica uma palavra torpe é toda palavra que não edifica, que não é condutora de graça e que não tem a capacidade de discernir a necessidade e a conveniência de uma fala. A palavra torpe conforme o Dicionário Escolar da Língua Portuguesa significa: “contrário à decência, à moral e aos bons costumes; sórdido, infame, vergonhoso”. O conceito bíblico é bem mais rico e repleto de possibilidades no campo da hermenêutica da alma, pois tudo o que sai do nosso coração e que não produz crescimento na vida do outro – “que não edifica e transmite graça”, entra na categoria do que é considerado torpe. Existem dores que não brotam do que somos, mas da forma como somos interpretados.
Muitas pessoas nos fazem mal quando dirigem palavras “envenenadas” às nossas vidas, nos colocam para baixo, despertam o pior em nós e não fornecem nenhuma esperança. Devemos atentar para as exortações bíblicas que nos lembram sobre o zelo da fala, vejamos: (i) “A língua dos justos é prata escolhida, […] – Provérbios 10.20; (ii) […] seja a minha língua como a pena de um hábil escritor” – Salmos 45.1 e (iii) “Há palavras que ferem como espada, mas a língua dos sábios traz a cura” – Provérbios 12.18 etc.
Edificar por meio das palavras não é a mesma coisa que bajular ou maquiar uma realidade que precisa ser dita ou tratada, é antes de tudo, falar a verdade em amor. É certo que em ocasiões específicas, falaremos algo que num primeiro momento parecerá motivo de tristeza e até poderá provocar no outro um sentimento de raiva ou algo semelhante, mas quando palavras brotam da fonte do amor, elas não voltam vazias e com o tempo frutificarão de alguma forma.
Em tempos de tanta radicalização no campo ideológico e ao mesmo tempo, tanta ênfase na necessidade de uma comunicação não violenta, precisamos repensar nossa atuação como “mineradores” do melhor do outro. Vamos nos cansando de tentar ser lúcidos na fala, deixo então, o alerta expresso nos belos versos de Adélia Prado no poema “O Poeta Ficou Cansado”: Pois não quero mais ser Teu arauto. / Já que todos têm voz, por que só eu devo tomar navios de rota que não escolhi? / Tudo progrediu na terra e insistes em caixeiros-viajantes de porta em porta, a cavalo! / Ó Deus, me deixa trabalhar na cozinha, nem vendedor nem escrivão, me deixa fazer Teu pão. / Filha, diz-me o Senhor, eu só como palavras.
Júnior Sipaúba é Professor, escritor, teólogo, psicanalista, matemático e mestre de Taekwondo.