O Dilema das Expectativas (André Oliveira)

André Oliveira/Arquivo pessoal

Sou um admirador de produções, principalmente de filmes que retratam batalhas. Nessas histórias, há um elemento comum: a construção de uma expectativa coletiva de que um herói entrará em cena para salvar a todos. Essa é a fórmula clássica de muitas narrativas: um povo oprimido, uma ameaça iminente e a esperança depositada em alguém que carregará o destino de muitos sobre os ombros.
Mas a verdade é que, na vida real, não é muito diferente. Os pais têm expectativas sobre seus filhos, empregadores sobre seus colaboradores, alunos sobre seus professores, cônjuges sobre seus parceiros. De certa forma, vivemos constantemente cercados por expectativas, tanto as que criamos quanto as que são projetadas sobre nós e como disse William Shakespeare: “A expectativa é a raiz de toda a dor de cabeça.”
A expectativa é uma palavra fascinante. Sem expectativas, a vida se torna um cenário monótono, sem brilho, sem direção. No entanto, quando mal administrada, pode se transformar em um peso esmagador. Passar pela vida sem expectativas é como ser um zumbi, apenas observando os acontecimentos sem se envolver ativamente. Por outro lado, quando não lidamos bem com as expectativas dos outros, corremos o risco de viver segundo padrões que não são nossos, sacrificando nossa identidade em nome da aceitação.
Na Bíblia, há um episódio interessante que ilustra bem esse dilema. Um jovem pastor chamado Davi recebeu o desafio de enfrentar um guerreiro experiente e temido: Golias, uma verdadeira máquina de guerra. O rei Saul, governante de Israel na época, acreditava que para Davi vencer, ele deveria usar sua armadura real. Afinal, se aquela armadura era digna de um rei, certamente daria a Davi alguma chance contra um adversário tão poderoso.
O problema? Davi não conseguia se mover com aquela armadura. Ela era pesada, limitava seus movimentos e não lhe pertencia. Ele tentou andar, mas percebeu que lutar daquele jeito seria impossível. Então, fez algo inesperado: rejeitou a armadura, pegou sua funda e cinco pedras e decidiu lutar do jeito que sabia, usando as habilidades que realmente dominava. O resultado? Todos conhecemos. Davi venceu, mas não pelas expectativas de Saul e sim porque confiou em sua própria estratégia.
Quantas vezes vivemos essa mesma situação? Quantas vezes tentamos vestir armaduras que não foram feitas para nós, apenas porque alguém nos disse que sem elas não conseguiríamos? A verdade é que nem toda expectativa imposta sobre nós corresponde ao nosso propósito ou capacidade, e insistir nisso pode nos levar ao esgotamento e à frustração.
“Se você viver pelas expectativas dos outros, morrerá com as frustrações deles.” – Patrick Bet-David.
Viver sob o peso das expectativas externas pode ser como carregar uma armadura que nos imobiliza. Alguns tentam nos moldar à sua imagem, acreditando que se seguirmos seus caminhos, seremos mais bem-sucedidos. Mas há uma linha tênue entre o conselho que orienta e a expectativa que aprisiona.
Um grande exemplo disso é visto no mundo dos esportes e das artes. Atletas e artistas muitas vezes são pressionados a atender às expectativas da mídia, dos patrocinadores e até mesmo dos fãs. Alguns se adaptam e encontram equilíbrio, enquanto outros entram em colapso. O caso de Michael Phelps, maior nadador da história, ilustra bem isso. Durante anos, ele lidou com uma carga imensa de expectativas e, apesar de suas conquistas, sofreu com ansiedade e depressão. Ele mesmo disse: “Por muito tempo, eu vivi como as pessoas queriam que eu vivesse, e não como eu realmente queria viver.”
Isso nos leva a um questionamento essencial: Até que ponto vale a pena sacrificar nossa paz para atender às expectativas dos outros?
Se há alguém que lidou com expectativas de forma singular, esse alguém foi Jesus. Desde seu nascimento, havia uma grande expectativa sobre Ele. Muitos esperavam um Messias guerreiro, um líder militar que libertaria Israel do domínio romano. Mas Jesus veio de um jeito completamente diferente. Ele não se encaixava nos padrões messiânicos tradicionais e, por isso, foi rejeitado por muitos. Em várias ocasiões, tentaram moldá-lo às expectativas humanas. Tentaram fazê-lo rei, testaram sua paciência com perguntas armadas, pressionaram-no a agir conforme seus interesses políticos e religiosos. Mas Jesus nunca permitiu que as expectativas dos outros definissem sua missão. Ele sabia quem era e o que veio fazer, e por isso permaneceu firme.O exemplo de Jesus nos ensina que nem todas as expectativas precisam ser atendidas. Algumas devem ser ignoradas, pois vêm de perspectivas limitadas.
Filmes, heróis e batalhas à parte, a vida é cheia de expectativas. Algumas nos motivam, outras nos aprisionam. A chave está em escolher quais expectativas vale a pena carregar e quais devemos deixar de lado.
Na próxima vez que alguém lhe impor um fardo que viole sua humanidade e exija aquilo que você não se sente confortável em realizar, pergunte-se: Essa expectativa me aproxima ou me afasta daquilo que eu realmente sou?
Davi não precisou da armadura de Saul. Jesus não precisou atender às expectativas de um messias guerreiro. E você? De quais armaduras precisa se libertar para viver plenamente?
“Não viva para atender às expectativas do mundo. Viva para cumprir o propósito que Deus colocou em seu coração.”

André Oliveira é pastor, psicólogo, pós-graduado em Terapia Cognitivo Comportamental e mestrando em Cognição Humana.