
Em uma obra publicada nos anos 80, “A marcha da insensatez – De Tróia ao Vietnã”, a historiadora Barbara Tuchman identifica a insistência dos governos em adotar políticas contrárias aos seus próprios interesses imediatos, provocando consequências indesejadas para suas nações. Eu gostaria de estender essa percepção à insensatez de segmentos significativos de nossas sociedades ocidentais contemporâneas.
Um verdadeiro “efeito manada” parece conduzir o comportamento de parcelas do mundo ocidental. Princípios fundantes, que nos conduziram a ser o que somos, vem sendo solapados, especialmente aqueles decorrentes de nossa formação judaico-cristã, começando pela paulatina desconstrução das famílias. O que talvez não tenham avaliado, e que eu rasteiramente pretendo fazer aqui, são as consequências dessas rupturas, que começam a ser sentidas.
Uma primeira tendência já recebeu até um nome técnico. Trata-se da “agamia”. Segundo um artigo do Jornal da USP, agâmicos são homens e mulheres que “não querem pensar em ter parceiros fixos e muito menos filhos”. Segundo a antropóloga Heloisa Buarque de Almeida, “esses jovens estão preocupados com a preservação do planeta, aquecimento global, sustentabilidade, entre outras questões de vanguarda … As novas famílias estão tendo uma nova formação, com dois pais, duas mães, casais vivendo em casas separadas, são inúmeras as alternativas de relacionamento. Em suma, houve uma mudança na leitura do que é o amor, a família e o mundo”. (1)
O Criador deu à sua criatura, o direito de fazer escolhas. Deus nos deu a autonomia de escolher a forma de viver, à revelia de seu propósito original. Mas essa liberdade não nos livra das consequências de nossas opções. Que consequências o uso de uma liberdade personalíssima pode impactar a nossa sociedade? Não seria uma opção de foro íntimo, a que ninguém teria o direito de “meter a colher”?
O apóstolo Paulo, na carta à Igreja em Roma, já advertia quanto a essa tendência de ruptura dos seres criados, contra os princípios que Deus instituiu:
“Por isso Deus entregou os seres humanos aos desejos do coração deles para fazerem coisas sujas e para terem relações vergonhosas uns com os outros. Eles trocam a verdade sobre Deus pela mentira e adoram e servem as coisas que Deus criou, em vez de adorarem e servirem o próprio Criador, que deve ser louvado para sempre”. (Romanos 1.24-25)
Permitam-se uma ligeira digressão sobre os impactos da agamia para o futuro da sociedade humana. Ao sermos formados, o Criador recomendou que: “— Tenham muitos e muitos filhos; espalhem-se por toda a terra e a dominem”. Isto não é impositivo, pois alguns, por diversas razões, não podem procriar. Há aqueles que não têm as condições físicas ou emocionais, ou por não terem contraído um matrimônio, entre outras razões justificáveis, estão eximidos de cumprir esse imperativo natural. Já, escusar-se de deixar uma descendência, por mera comodidade ou capricho, não passa de uma atitude egoísta.
Alguns jovens casais que não querem ter filhos, dizem preferir ter animais de estimação (pets). A um deles eu perguntei: quando lhes vier a senilidade, quem vai levá-los à clínica de idosos e dar a assistência que é devida aos filhos? Será o seu “pet” ou, queira Deus, uma alma caridosa, necessariamente humana, que lhes socorrerá na finitude da vida?
Outros, ainda, alegam que a terra não suportaria o aumento populacional, e medidas de contenção são bem-vindas, para a preservação do meio ambiente. Esquecem-se que a terra foi criada para servir ao homem, que deve zelar por ela, mas inverter as prioridades é atentar contra o propósito do Criador, para que os humanos dominassem sobre tudo que foi criado por Ele.
A procriação é um imperativo aos seres vivos, sob o risco da extinção. Na espécie humana, a taxa de fertilidade que garante a reposição populacional é de 2,1 filhos por mulher ao longo da vida. Se uma sociedade não conseguir ultrapassar este limite, ela começa a diminuir. Já há diversos países em marcha da extinção. Segundo a CNN, a “fecundidade cai drasticamente nos países mais ricos do mundo, aponta OCDE”. Na Coreia do Sul, tem-se menos de um filho (0,7) e na Itália há 1,2. O Brasil registrou o seu menor índice histórico e temos 1,7 filhos por mulher. Na Europa os segmentos da população que apresentam crescimento são o dos migrantes, em especial os que professam a fé islâmica. Não há estatísticas precisas, mas no caso da França, em 2019, 21,5% dos recém-nascidos receberam de seus pais, um nome árabe.
Outra implicação dessa redução populacional é o impacto na previdência social. Como se reduziu a população infantil e aumentou o número de idosos, o risco de falência do sistema é certo. Hoje, no Brasil, temos menos de dois contribuintes para cada beneficiário da Previdência. A previsão estatística, se mantida essa regressão, é que a partir de 2051 haja mais pessoas seguradas do que contribuintes. Perceberam que aquela opção personalista de hoje tem impacto futuro para toda sociedade?
Para agravar esse quadro de escassez de pessoas, as sociedades progressistas têm estimulado a prática do aborto. Outro efeito colateral é o aumento das uniões homoafetivas, que por razões da natureza, não costumam produzir descendentes.
O segmento do movimento progressista ocidental, denominado cultura “woke” (derivada de wake, acordar em inglês), que declaradamente tem o objetivo de destruir os valores passados de geração em geração, solapando as bases judaico-cristãs da sociedade, desconstituir a família tradicional e desequilibrar os indivíduos, parece que tem produzido efeitos muito preocupantes para a sociedade humana. A consequência mais imediata, em especial para os mais vulneráveis afetivamente, é a falta de uma identidade, de uma razão para lutar por um projeto de vida pessoal e, ao final, de um imenso vácuo interior.
Essa anomia afetiva, tem gerado em muitos jovens, um vazio existencial. A perda da sua identidade de familiar, a dificuldade de encontrar um projeto de vida para lhe dar um norte, a carência de um relacionamento com o transcendente, tem cobrado um alto preço dessa nova geração.
Segundo o professor Paulo Saldiva, no citado Jornal da USP, o “mundo hoje não é mais composto de amigos e familiares, e sim de uma extensa rede social e eletrônica, que pode emitir conceitos e julgamentos extremamente críticos e violentos”. (2)
Uma consequência que tem assustado, demasiadamente, os estudiosos desse assunto, é a alta incidência de doenças emocionais e mentais nas faixas etárias mais jovens, incluindo a primeira infância e pessoas da terceira idade. No texto de Saldiva, há uma constatação realmente assustadora: “Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que cerca de 800 mil pessoas morrem por suicídio anualmente. O número tem aumentado entre pessoas abaixo de 20 anos e acima de 70. O suicídio de jovens aumentou três vezes na última década… Nos idosos, o problema está relacionado com a solidão, perda das relações sociais e ligações com o mundo que muda cada vez mais. No entanto, o que faria os jovens perderem o interesse em viver? Saldiva diz que a falta de identidade, de um propósito, de uma vinculação maior com um projeto de vida, explicam algumas das causas desse vazio existencial.”
Como um cristão, creio que o afastamento do Criador, e de suas prescrições, tornaram os seres humanos com uma autonomia que eles, nem sempre, estavam prontos para suportar.
Ao concluir, permitam-me uma última reflexão. Andando pela Europa, eu vi muitas placas que listavam os heróis tombados nas diversas guerras. A dúvida que me veio é: se, com tanta preocupação com uma alimentação vegana, para preservar a vida de animais, será que os rapazes, emasculados de sua “masculinidade tóxica”, jovens superprotegidos que têm propostas para mudar o mundo, mas não arrumam a cama onde dormem, estariam plenamente habilitados a defender sua pátria no caso de haver uma guerra, como a invasão da Ucrânia?
“Não se deixem enganar: de Deus não se zomba. Pois o que o homem semear, isso também colherá”. (Gálatas 6.7).
Elias Brito é um estudante dos assuntos relativos às sociedades Pós-modernas
(1) Heloisa Buarque de Almeida. Agamia a nova forma de relacionamento que vem crescendo entre os jovens. Jornal da USP. Março de 2024
(2) Paulo Saldiva. “O suicídio de jovens aumentou três vezes na última década”. Jornal da USP. Agosto 2019