70 anos de formação: fé, disciplina e valores que atravessam gerações (Edgar Lisboa)

Igreja Cristo Rei (Foto: Jornal Semanário)

Há convites que não chegam apenas como formalidade, chegam como reencontro com a própria história. Foi assim ao receber o chamado para a missa em Ação de Graças pelos 70 anos do Colégio Sagrado Coração de Jesus, em Bento Gonçalves. Mais do que uma celebração institucional, trata-se de um mergulho na memória de uma geração que encontrou, na educação religiosa, um alicerce sólido para enfrentar os desafios da vida.

A escola que ensinava muito além da sala de aula

O Colégio Sagrado Coração de Jesus nunca foi apenas um espaço de ensino formal. Era, sobretudo, um ambiente de formação humana. Ali, sob a orientação firme e afetuosa das irmãs, aprendia-se mais do que português, matemática ou história, aprendia-se a viver.

Figuras como a madre superiora irmã Anastácia, a irmã Miriam, a irmã Fulgência, e a irmã Luisinha marcaram gerações. Com palavras doces, mas também com disciplina rigorosa, característica de uma época em que educar significava formar caráter, transmitiam valores que iam da fé cristã ao respeito ao próximo. Quando a teimosia juvenil insistia em desafiar esses ensinamentos, a correção vinha rápida: da régua ao castigo de joelhos, métodos que hoje pertencem a outro tempo, mas que, à sua maneira, reforçavam limites e responsabilidades.

Era uma pedagogia baseada na presença, no exemplo e na autoridade moral. Um modelo distante da realidade atual, em que professores frequentemente enfrentam desrespeito e até ameaças, cenário impensável naquela época.

Fé, comunidade e pertencimento

Localizado no coração da cidade alta, ao lado da Paróquia Cristo Rei, o colégio vivia integrado à vida religiosa e comunitária. A igreja não era apenas vizinha, era extensão da escola e da formação dos alunos.

O então pároco, padre Rui Lorenzi, exercia papel central na condução espiritual. A presença nas missas não era opcional, e sim parte essencial da formação. Ao lado, o salão paroquial reunia a comunidade em festas, almoços e encontros, momentos que reforçavam o sentimento de pertencimento e convivência.

Na frente do Salão Paroquial, o espaço improvisado para o futebol traduzia a simplicidade da época. Até que uma bola atingiu uma das estátuas de anjos que ornamentavam o local, encerrando ali as partidas. Pequenos episódios que hoje ganham contornos de memória afetiva.

Disciplina, aprendizado e respeito

O rigor acadêmico também era marca registrada. Professores como Arlindo Camatti, responsável pelas aulas de português e inglês, simbolizavam a exigência que moldava não apenas alunos preparados, mas cidadãos disciplinados.

O respeito ao professor era absoluto. Aprendia-se porque havia cobrança, mas também porque havia propósito. A educação não era vista como obrigação burocrática, mas como caminho para a construção de um futuro digno.

Infância, amizade e identidade

Entre aulas e ensinamentos, havia também espaço para a leveza da infância. Os recreios na praça em frente à igreja, os campeonatos de futebol de salão e as histórias que atravessam décadas ajudam a compor o retrato de uma época.

Jogadores improváveis se tornavam lendas locais, como o jovem Gemir Paulo Basso, cujo chute potente atravessava defesas e até redes. Pequenos heróis de um cotidiano simples, mas marcante.

E havia também os gestos de cuidado. Do outro lado da rua, o restaurante Possamai simbolizava a relação de confiança entre famílias e comunidade. A pedido de meu pai, Adolfo, o dono do estabelecimento levava lanches até os alunos, um retrato de um tempo em que a educação também era compartilhada fora dos muros da escola.

Um legado que atravessa gerações

Ao completar 70 anos, o Colégio Sagrado Coração de Jesus reafirma sua missão: formar não apenas estudantes, mas cidadãos preparados para a vida. Em um mundo cada vez mais acelerado e desafiador, os valores ensinados pelas irmãs, fé, respeito, disciplina e solidariedade, seguem atuais e necessários.

A missa em Ação de Graças, marcada para esta sexta-feira, 27, às 18h, na Paróquia Cristo Rei, não celebra apenas uma instituição. Celebra uma história coletiva, construída por professores, religiosos, alunos e famílias que acreditaram, e ainda acreditam, que educar é, acima de tudo, um ato de transformação.

Mais do que recordar o passado, a data convida à reflexão: em meio às mudanças da sociedade, o que permanece essencial? Para muitos que passaram pelos corredores do Sagrado Coração, a resposta é clara, os ensinamentos recebidos ali tornaram os caminhos da vida menos difíceis e muito mais humanos.

Edgar Lisboa é jornalista, Diretor Editor do Portal Repórter Brasília e colunista político do Jornal do Comércio do Rio Grande do Sul