
Por Edgar Lisboa
O avanço das redes sociais ampliou o acesso à informação, mas também escancarou um problema crescente: a disseminação de conteúdos falsos por pessoas sem formação ou compromisso com a apuração jornalística. Em meio a esse cenário, reforça-se o papel do jornalista profissional — aquele que investiga, checa, confronta versões e assume a responsabilidade pública pelo que publica.
A proliferação de fake news, muitas vezes impulsionada por interesses políticos, econômicos ou simplesmente pela lógica do engajamento, compromete não apenas a qualidade do debate público, mas também a credibilidade da informação como um todo. Ao contrário do jornalismo, que se sustenta em métodos e princípios éticos, parte significativa do conteúdo que circula nas redes ignora critérios básicos de verificação, criando um ambiente propício à desinformação.
É nesse contexto que ganha relevância a iniciativa do governo federal ao instituir um protocolo nacional para investigar crimes contra jornalistas e comunicadores. A medida estabelece diretrizes para prevenção e apuração de ataques, reconhecendo que agressões à imprensa não são episódios isolados, mas ameaças diretas à democracia. O ministro da Justiça, Wellington Silva, foi direto ao afirmar que a violência contra jornalistas deve ser tratada como um ataque ao próprio funcionamento democrático, e não como mera estatística.
Os números divulgados pela Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão ajudam a dimensionar o problema. Apenas em 2025, o Brasil registrou quase 900 mil ataques virtuais contra profissionais da imprensa, uma média alarmante de quase 2.500 agressões por dia, ou duas por minuto. O crescimento de 35% em relação ao ano anterior revela um ambiente digital cada vez mais hostil.
Embora tenha havido leve redução nos casos de violência não letal, 66 registros envolvendo ao menos 80 jornalistas, o dado ainda preocupa: a cada cinco dias, um profissional ou veículo foi alvo de algum tipo de ataque. Mais grave é o aumento das agressões físicas, que cresceram 11,5%, totalizando 26 casos.
O levantamento aponta ainda um perfil preocupante dos agressores. Políticos em exercício de mandato aparecem como principais autores, seguidos por torcedores e integrantes de grupos ligados ao futebol. Profissionais de televisão foram os mais atingidos, e os homens aparecem como maioria entre as vítimas.
Outro ponto crítico é a sofisticação dos ataques. Segundo o presidente-executivo da ABERT, Cristiano Lobato Flores, há uma mudança clara no padrão das agressões, com o uso crescente de ferramentas de inteligência artificial para manipular conteúdos, distorcer falas e criar campanhas coordenadas de descredibilização da imprensa. Trata-se de uma nova fronteira da desinformação, mais difícil de detectar e combater.
Apesar desse cenário, o Brasil apresentou melhora no ranking global de liberdade de imprensa, divulgado pela Repórteres Sem Fronteiras, ocupando a 63ª posição entre 180 países. O avanço é relevante, mas não elimina os desafios internos.
Diante desse quadro, a defesa do jornalismo profissional deixa de ser apenas uma pauta corporativa e passa a ser uma questão de interesse público. Garantir condições de trabalho seguras para jornalistas e fortalecer mecanismos de combate à desinformação são passos essenciais para preservar a qualidade do debate democrático.
Mais do que nunca, informação exige responsabilidade, e essa continua sendo a principal diferença entre o jornalismo e o ruído das redes.
Portal Repórter Brasília, Edgar Lisboa