Viciados em tragédia: como o caos afetou o café da manhã dos brasileiros (Calebe Pacheco)

Calebe Pacheco/Divulgação

Ele acorda e a primeira coisa que faz é olhar o telefone. Não para falar com alguém. Ele precisa sentir alguma coisa: um vídeo de briga; um escândalo novo; uma tragédia com trilha sonora; uma treta que “merece” ser comentada. Ele não percebe, mas está tomando café com veneno — e chamando isso de informação.

Ele diz que é “bem informado” , mas está viciado em tragédias. Porque a desgraça gera adrenalina, indignação, sensação de superioridade moral. Ele olha o caos e pensa: “eu não sou assim”. Dessa forma encontra um vilão e ganha uma identidade: “eu sou do lado certo”. Ele vê sangue, guerra e morte — e por alguns segundos se sente abençoado. A miséria do mundo vira conversa com os amigos e a dor do outro, motivo de gratidão.

E aí, quando alguém fala de bondade, ele boceja. “Fofo e ingênuo: coisa de gente que não enxerga a realidade.” Só que essa “realidade” que ele acha madura, pode ser apenas um programa instalado: um algoritmo que treinou todos nós a esperar o pior, a desconfiar de todos, a tratar o amigo como inimigo, apenas porque pensa diferente. E se esse caos televisionado e compartilhado nas redes sociais fizer parte de uma grande arena de circo para manter você com medo e acreditando nesse espetáculo de terror?

Na verdade o mundo não é bem assim! Estudo anual realizado pela Gallup, Universidade de Oxford e Organização das Nações Unidas (ONU) mostra que 70% da população mundial teve uma ação gentil no último mês antes da pesquisa. Sete em cada dez. O relatório mede benevolência em três ações simples: doar dinheiro, fazer trabalho voluntário, ou fazer algo agradável para um estranho. Ou seja: o mundo não é esse filme de terror permanente que você consome antes do almoço. Ele é mais ambíguo; mais humano; mais surpreendente. O problema é que nós fomos condicionados a acreditar que “ninguém presta”. E a ciência chama isso de “lacuna de empatia”. Para entender como as pessoas percebem os níveis de bondade ao redor delas, pesquisadores do estudo anterior perguntaram se as pessoas esperavam que uma carteira perdida seria devolvida a elas. Quase todos subestimaram drasticamente a chance de um estranho devolver. Nos Estados Unidos, cerca de 1/3 esperava a devolução, mas 2/3 das carteiras foram devolvidas. Percebe o estrago? Nós esperamos traição, então nos armamos.

Andamos secos, agressivos e “prontos para o pior”. E, nessa postura, viramos parte daquilo que dizemos condenar. Porque o mundo não piora só por causa dos maus. Ele piora porque os neutros – os “realistas” – se dizem do lado do bem, mas não se levantam para fazê-lo. Então eu pergunto, sem anestesia: qual papel nós estamos desempenhando no mundo que criticamos. Distribuímos o quê por onde passamos: paz ou ruído? No trânsito, espalhamos gentileza ou raiva? Em casa, oferecemos presença ou apenas cobrança? No WhatsApp, jogamos gasolina — fofocas, sarcasmo, deboche — ou criamos laços de amizade e tolerância? Estamos construindo pontes ou fabricando inimigos?

Seja bondoso pelo seu próprio bem! Bondade não é um sentimento fofinho. É uma decisão com custos e benefícios. Segundo pesquisadores da Universidade de Harvard (Health Publishing), a bondade tem efeitos que não cabem em frase de caneca, acredita?

A pesquisa evidencia que a gentileza se associa a redução de ansiedade, aumento de conexão social e é contagiosa — um gesto puxa outro gesto. E mais! A gentileza aparece ligada à redução da pressão arterial e a níveis mais baixos de cortisol (hormônio do estresse). E não é só “sensação”: há um experimento documentado no Relatório Mundial da Felicidade, divulgado anualmente no Dia Internacional da Felicidade, realizado em 2025. Nele algumas pessoas receberam de US$ 2 a US$ 5 e foram orientadas a gastar consigo ou com outra pessoa. Quem gastou de forma generosa relatou mais felicidade. O relatório afirma que “atos de generosidade preveem felicidade mais do que ganhar um salário mais alto”.

Mas aqui está o golpe final: bondade não acontece por acidente. Um estudo realizado em 2019 (Journal of Social Psychology), com quase 700 pessoas, aponta que concentrar gestos gentis em um único dia, durante seis semanas — pode aumentar o bem-estar mais do que espalhar pequenas ações ao longo da semana. Ou seja: não é sobre “ser bonzinho”. É sobre treinar o coração — do mesmo jeito que a gente treina a mente para a tragédia.

Para fechar, eu deixo a pergunta que precisa ser respondida com muito cuidado e com toda a sinceridade: Nós queremos uma real mudança, ou buscamos apenas uma nova tragédia para comentar e denunciar? Todos os dias nós participamos de eleições — não para escolher um presidente ou
deputado, mas para decidir as nossas microações. Nós elegemos a resposta que
daremos ao outro, pessoalmente ou nas redes sociais; com quem compartilhamos o pão; o que toleramos ou agredimos.

Hoje existe um culto ao ódio e à intolerância. Mas tudo que aprendemos podemos desaprender e reaprender, num ciclo contínuo de adaptação. Não com discurso, mas com a prática do amor contínuo. Faça um ato de bondade que custe alguma coisa: tempo, orgulho, conveniência. E observe o efeito: primeiro em você e depois ao redor. Porque o mundo não será salvo por gritos, guerras ou pela política partidária. Será salvo por gente que, apesar de tudo, escolhe amar no lugar onde seria mais fácil ferir. E aí, quando a tragédia pedir sua dose diária, você vai ter coragem de dizer não? Ou vai continuar cultivando a desgraça e chamando o vício em tragédia de informação?

Calebe Pacheco é jornalista, pós-graduado em gerenciamento de projetos pela FGV e especialista em marketing político e de performance.