Sem limão. Só gelo (Sandro Xavier)

Sandro Xavier/Divulgação

“O discurso contribui para a constituição de todas as dimensões da estrutura social que, direta ou indiretamente, o moldam e o restringem: suas próprias normas e convenções, como também relações, identidades e instituições que lhe são subjacentes” (Fairclough, 2001: 91)

Vocês também têm percebido uma forte crise de comunicação atualmente? Claro que existe o fenômeno de não ouvir as pessoas propriamente dito. Quero dizer com isso que também lidamos com a parte em que as pessoas, de fato, não param para ouvirem as outras. Muita gente precisa falar de seus problemas, esse é um exemplo, e talvez o mais contundente, mas não há quem as escute no seu rol de convivência: família e amigos mais próximos.

Eu me lembro, quando mais novo, de que não havia tantas academias para atividades físicas como hoje, pois as encontramos muitas vezes mais de uma na mesma rua. Ocorre que isso se dá pelo fato de o ser humano não ser mais tão ativo como antes. Hoje pegam-se os carros para ir à padaria na outra esquina. Esses locais de exercícios físicos tentam superar essa demanda.

Assim como antigamente, hoje proliferam-se os consultórios para a prática (saudável e necessária) da psicoterapia ou da psicanálise, onde as pessoas podem falar livremente daquilo que as incomoda. Talvez essa necessidade, para além da conscientização da busca pela saúde mental e pela compreensão do seu inconsciente, também resida nessa raridade da possibilidade de ser ouvido em seu ambiente de vida.

Mas você deve ter chegado aqui e ainda se pergunta: o que tem tudo isso a ver com gelo e limão? Pois esse título é justamente o exemplo que estou trazendo para comentarmos essa situação em outro viés. Afinal, as pessoas não estão somente deixando de parar para ouvir as outras. Elas também não estão ouvindo quando parecem ter ouvido.

“Gelo e limão?” é uma pergunta recorrente para quem frequenta restaurantes ou bares e gosta de tomar sua bebida, um refrigerante, talvez, e o atendente precisa saber se traz o copo com esses itens ou não. Eu prefiro que não se coloque limão na bebida e peço conforme está no título desta coluna: sem limão. Só gelo.

Ocorre que, creio que por uma série de razões, a maioria significativa das vezes o copo vem completo, com o gelo e com o limão. Não sei uma porcentagem que isso acontece, mas posso arriscar que é, seguramente, acima dos 90%. Fazendo um esforço de memória agora, para saber de quantas vezes me lembro de o copo vir da maneira como pedi, só estou me recordando, ultimamente, de uma.

Ao fazer um esforço sobre as razões dessa prática, ou “não prática”, imagino que haja um ambiente em que essa fala está inserida, e deva existir uma resposta básica e comum que pode ser esperada. Talvez seja mais normal que as pessoas queiram mesmo seus copos com gelo e limão. Até por isso, muitos bares já deixam dezenas de copos preparados com gelo e limão (prática desaconselhada, mas muito comum). Ali o garçom já pega e coloca na bandeja para levar ao cliente.

A pergunta lhe foi feita. A resposta que sai da sua boca é ouvida, mas não com atenção, afinal, talvez, você responderia mesmo o comum “sim”. Olhar nos olhos, ouvir com atenção as palavras que são proferidas, refletir nelas e atender o pedido é demandar um tempo que não se pode ter em um lugar com muita gente. É preciso ser ágil. Ouvir e estar atento para o que as pessoas dizem não contempla a praticidade exigida de quem “atende” (isso é atender entre aspas, não é?).

Outro teste que um amigo fez, há muitos anos, posto que vamos falar de ambientes de cheques, ocorreu numa farmácia, e ele já tinha alertado antes: “Presta atenção no que vai acontecer”.

Ele chegou ao balcão, fez sua compra e no momento do pagamento tirou uma nota de 50 reais. Falou para a atendente no caixa que só tinha aquela nota mas que precisava ser depositada na segunda-feira (era um sábado). A menina arregalou os olhos, como quem diz que não tinha competência para resolver um assunto tão grave (que já deveria ter ocorrido no estabelecimento), e disse: “Vou chamar o gerente”.

As pessoas não ouvem mais. As sentenças fazem parte de um contexto do qual se espera previamente o que deve ser e agem de acordo com o que está na sua mente para, talvez, facilitar a praticidade. Esses dois exemplos, tenho certeza, vai ativar outros fatos na sua vida desse jeitinho.

Como disse Norman Fairclough no enunciado acima, o discurso está dentro de uma prática social. A correria da vida e esse tempo de não ter tempo para ouvir fazem com que as pessoas já programem uma resposta e agem de acordo com ela, sem ouvir a outra pessoa. A comunicação está truncada por uma série de razões e essa é uma delas. Vivemos em uma sociedade que você paga por tudo, inclusive para ser ouvido.

Se há a crise de escuta até mesmo com as pessoas mais próximas, imagine com quem não é pago para te ouvir. Abençoados são aqueles que ainda mantêm seu círculo de escuta: os amigos que se sentam pra trocar ideias e conseguem comentar sobre os problemas uns dos outros; as amigas que saem para compartilhar seus sentimentos; aqueles que têm um círculo de amizade na igreja, no trabalho, na escola; ou até mesmo quem se senta em casa no fim do dia (ou em outro momento) para falar das expectativas.

Muita gente quer ser ouvida de verdade, para além de pedir um copo só com gelo e receber, de fato, um copo só com gelo, mas precisa-se de empatia.

Sandro Xavier
Linguista e Teólogo