Que queres que eu te faça? (Luzelucia Ribeiro da Silva)

Luzelucia Ribeiro da Silva/Divulgação

Aquele parecia ser um dia normal como os outros. A manhã já estava alta quando os sons de vozes de uma multidão lhe chegaram aos ouvidos, ativando o modo alerta. O que estaria acontecendo? Quem estaria liderando todo aquele alvoroço que deixava no ar sons intrigantes: vozes entusiasmadas, passos fortes na areia que cobria a estrada? Uma certa inquietação lhe sombreou a face escurecida pelo sol de todo dia, naquele mesmo lugar, esperando que algo novo acontecesse. E cada dia era a repetição do anterior.

Há muito tempo que ele se envolvia em sua capa, fornecida pelo Estado para lhe garantir o direito de ficar à beira da estrada, mendigando e assim abordar quem por ali passasse. Um detalhe interessante é que para mendigar ele precisava de uma autorização do governo romano para que pudesse ser liberado para pedir esmolas. A autorização dos romanos para um mendigo era uma capa, não só para mendigar, mas também para que ele fosse identificado como mendigo ao usar aquela capa, portanto,  na sua condição era necessário usá-la. Ele não estava mendigando porque queria e  sim por não ter outra opção, tentando obter um pouco de solidariedade para a sua sobrevivência, pois a vida lhe negara a luz que a deixaria iluminada… Ter ficado cego, com certeza não era um prêmio.
Já ouvira falar que um certo jovem Nazareno estava percorrendo todo o país e realizando curas singulares, milagres espantosos; os seres do mal tinham medo Dele e a uma ordem dada por Ele, os espíritos malignos abandonavam suas vítimas. Mas, até aquele dia não lhe tinha acontecido de cruzar o caminho desse jovem tão especial.
O burburinho ao longo da estrada se intensificou. Jericó, também conhecida como a Cidade das Palmeiras estava imersa em uma estranha calma, silêncio quebrado pelas vozes daquele grupo alegre que se aproximava. Curioso, perguntou a alguém que estava próximo dele o que estava acontecendo e lhe disseram: “É Jesus, o Nazareno.” Então uma chama de esperança acendeu dentro do seu ser e ele, ouvindo que era Jesus, pôs-se a clamar com toda a força dos seus pulmões: “Jesus, Filho de Davi, tem compaixão de mim!” Mas ele não encontrou compaixão por parte daqueles que estavam próximos e muitos o repreendiam, pedindo que se calasse. Mas aquele mendigo cego não se atemorizou, nem se acovardou, começou a gritar mais alto ainda: “Filho de Davi, tem misericórdia de mim!”
Seus gritos chamaram a atenção de Jesus de Nazaré que passava por ali com os seus discípulos e seguidores. Contrariando toda e qualquer expectativa, Jesus parou e disse: “Chamai-o.” Ninguém questionou ou ousou contrariar a ordem do Mestre Jesus. Aproximando-se dele, alguém disse: “Tem bom ânimo; levanta-te, Ele te chama.”
Impossível descrever a alegria que encheu o coração daquele pobre homem. Não sabemos a idade que ele tinha, mas com que agilidade ele se colocou de pé, lançou para longe de si aquela capa e foi ao encontro de Jesus. É interessante notar que ele não esperou um segundo convite, ao chamado do Mestre ele prontamente obedeceu e ouviu o Senhor perguntar-lhe: “Que queres que eu te faça?” Eram tantas as necessidades que ele abrigava, porém, no momento, sua prioridade era voltar a enxergar, era voltar a ver, era deixar aquela condição de cego mendigo, dependente da misericórdia, compaixão e solidariedade dos que passavam… Sem titubear ele falou: “Mestre, que eu torne a ver.”
Uma das marcas do ministério de Jesus é o tempo que Ele dispensa aos indivíduos sofredores no meio das multidões. Jamais um necessitado, enfermo, doente, angustiado se aproximou de Cristo e permaneceu na sua condição de carência, qualquer que fosse a área afetada. E com aquele cego, chamado Bartimeu, não foi diferente. Jesus lhe disse: “Vai, a tua fé te salvou.” E imediatamente tornou a ver e seguia a Jesus estrada fora.
Não foi a impertinência do cego, mas a sua fé em Cristo que lhe proporcionou a dádiva mais confortável, ver e seguir a Cristo. Agora ele estava completamente curado, não precisava mais de alguém para o guiar; ele podia seguir sozinho. Com isto ele evidencia o sentimento de gratidão que teve pela bondade que Jesus lhe demonstrou, quando pôde ver, foi este o uso que ele fez da sua visão: ele seguiu ao Senhor Jesus Cristo.
Não é suficiente vir a Cristo para pedir a cura espiritual e física; mas, quando somos curados, devemos continuar a segui-lo, para que possamos honrá-lo  e receber instruções dele. Aqueles que têm uma boa visão espiritual podem enxergar em Cristo a beleza que efetivamente os atrairá, fazendo com que o sigam.
Jesus nunca se esquivou em ajudar todos que o procuraram e não é diferente hoje, quando a sociedade é assolada por tantos males, tantas incertezas, inseguranças, corações angustiados, ansiosos… Ele ainda pergunta: “Que queres que eu te faça?”
Luzelucia Ribeiro da Silva é professora e ocupa a cadeira 20 da Academia Evangélica de Letras do DF.