Preocupação de lideranças políticas e empresariais com a ideia de governo paralelo de Bolsonaro 

Jair Bolsonaro ( Crédito: Valter Campanato, Agência Brasil)

A manifestação do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) no domingo (30), na Avenida Paulista, acendeu alertas no meio político e empresarial. Embora o foco inicial do ato tenha sido a crítica ao Supremo Tribunal Federal (STF) e ao inquérito que investiga tentativa de golpe de Estado, o tom predominante do ex-presidente remeteu a um discurso de mobilização para as eleições de 2026 — ainda que ele esteja inelegível. Mais do que uma simples fala de oposição, suas declarações alimentaram a ideia de uma espécie de “governo paralelo”, o que repercutiu com preocupação entre lideranças políticas e empresariais.

Manda quem tiver o Congresso

Mesmo sem citar diretamente nomes da Suprema Corte, Bolsonaro ironizou as investigações e, como tem feito em outras ocasiões, terceirizou responsabilidades. O ex-presidente concentrou suas falas na estratégia eleitoral para o próximo ano: pediu aos seus seguidores que deem maioria ao PL e partidos do centrão no Congresso Nacional. “Se vocês me derem por ocasião das eleições ano que vem 50% da Câmara e 50% do Senado, eu mudo o destino do Brasil […] não interessa onde esteja — aqui ou no além — quem assumir a liderança vai mandar mais que o presidente da República”, afirmou Bolsonaro, sugerindo, na prática, que a força de sua influência pode transcender o cargo formal.

Liderança paralela à institucional

A fala foi interpretada por analistas como uma tentativa de consolidar uma liderança paralela à institucional — que assusta e preocupa setores democráticos e empresariais. Um “governo alternativo” sem respaldo legal, mas com poder de mobilização, especialmente nas redes e no Legislativo.

Construindo um novo papel

O ex-presidente parece já reconhecer, nas entrelinhas, a impossibilidade jurídica de concorrer em 2026. Falou como chefe partidário e coordenador de um bloco político. Seu discurso foi mais anti-Lula e anti-PT do que anti-STF. Bolsonaro está construindo um novo papel para si: o de líder de bancada, influente nas decisões do Parlamento e nas prévias eleitorais.

Em queda, mas com base ativa

Apesar do comparecimento de milhares de apoiadores, sua força política já não é a mesma do auge do bolsonarismo. Ainda assim, o ato contou com a presença de quatro governadores — Tarcísio de Freitas (SP), Romeu Zema (MG), Cláudio Castro (RJ) e Jorginho Mello (SC) —, o que revela que sua influência não deve ser subestimada.

Instabilidade e ruído institucional

No setor empresarial, especialmente entre lideranças do setor produtivo e financeiro, o discurso soou como uma tentativa de manter o país em clima eleitoral e polarizado até 2026. A ideia de que “mandará mais que o presidente” quem tiver maioria no Congresso gerou apreensão. Há receio de que a retórica contribua para enfraquecer a estabilidade institucional e as regras do jogo democrático — especialmente se aliados de Bolsonaro tentarem instrumentalizar o Parlamento contra o Executivo ou o Judiciário.

O que esperar dos próximos meses

Com a inelegibilidade consolidada e processos em curso, Bolsonaro aposta na construção de uma bancada robusta e fiel. O movimento já é visto como o ensaio de uma frente conservadora sob sua liderança simbólica. Resta saber se os governadores presentes seguirão com ele até o fim, ou se a agenda institucional dos seus estados falará mais alto.

Nome que tentará emplacar

Nos bastidores, cresce também a especulação sobre o nome que Bolsonaro tentará emplacar como sucessor: Michelle Bolsonaro, Tarcísio ou outro aliado que possa manter vivo o projeto do bolsonarismo, ainda que sem o “capitão” na urna.

A Coluna Repórter Brasília é publicada simultaneamente no Jornal do Comercio, o jornal de economia e negócios do Rio Grande do Sul.

Edgar Lisboa