Plano Safra recorde nasce sob o desafio das dívidas, dos juros e da falta de planejamento

Governo Lula anuncia R$ 525,1 bilhões para financiar a agricultura empresarial na safra 2026/2027. Para a jornalista de economia, ex-senadora e ex-presidente da Comissão de Agricultura e Reforma Agrária do Senado, Ana Amélia Lemos, o volume de recursos é importante, mas o sucesso do programa dependerá da solução de problemas estruturais que há anos comprometem a competitividade do agronegócio brasileiro.

Presidente da República em exercício, Geraldo Alckmin, no lançamento do Plano Safra 2026/2027, no Palácio do Planalto – (Foto- Marcelo Camargo, Agência Brasil)

O governo federal lançou o Plano Safra 2026/2027 com recursos recordes para financiar a agricultura empresarial e ampliar o crédito ao setor produtivo.

Por Edgar Lisboa

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva lançou nesta terça-feira (30) o Plano Safra 2026/2027 para a agricultura empresarial, destinando R$ 525,1 bilhões em crédito rural para custeio, investimentos e comercialização da produção agropecuária. O valor representa um novo recorde para o setor e reafirma o agronegócio como um dos principais pilares da economia brasileira, responsável por parcela significativa das exportações, da geração de empregos e do equilíbrio da balança comercial.

O programa amplia a oferta de crédito para o campo e busca garantir recursos para a próxima safra. Mas, na avaliação de especialistas e lideranças do setor, o êxito da política agrícola dependerá não apenas do volume anunciado pelo governo, mas da capacidade de fazer esses recursos chegarem efetivamente aos produtores.

É justamente nesse ponto que a jornalista, ex-senadora e ex-presidente da Comissão de Agricultura e Reforma Agrária do Senado, Ana Amélia Lemos, faz um dos principais alertas desta nova etapa da política agrícola brasileira.

Para ela, o maior desafio enfrentado atualmente pelo agronegócio não é a falta de dinheiro disponível, mas a situação financeira de milhares de produtores que acumulam dívidas, enfrentam dificuldades para contratar novos financiamentos e convivem com um ambiente marcado por juros elevados, perdas climáticas, gargalos logísticos e insegurança jurídica.

“O Plano Safra está sendo aguardado com muita expectativa, porém o problema que o setor está enfrentando é de um endividamento e muitos agricultores estão inadimplentes no sistema por conta das dificuldades e insucessos na safra.”

Para Ana Amélia, o problema é especialmente grave na Região Sul, onde sucessivos eventos climáticos comprometeram a capacidade financeira de milhares de produtores.

“É o caso do Sul do país, que não conseguiu ainda encerrar o processo da securitização das dívidas. Então o passado vai impactar no presente em relação à tomada de novos recursos. E isso é exatamente o que acontece, normalmente, no Plano Safra.”

Na avaliação da ex-senadora, esse é hoje o principal gargalo do crédito rural brasileiro: justamente quem mais necessita de financiamento acaba impedido de acessar os recursos por permanecer inadimplente perante o sistema financeiro.

“A outra questão é que o dinheiro disponibilizado… a relevância seria de que todo o dinheiro que o governo disponibilizou, seja para a agricultura empresarial ou para a agricultura familiar, seja utilizado. Mas isso não acontece, exatamente por conta desses problemas, desses ajustes necessários a serem feitos, porque os inadimplentes terão dificuldades perante as instituições financeiras.”


Jornalista, ex-senadora e ex-presidente da Comissão de Agricultura e Reforma Agrária do Senado, Ana Amélia Lemos afirma que o principal desafio do Plano Safra é fazer o crédito chegar aos produtores que realmente necessitam dos recursos.

O crédito existe. O acesso continua sendo o maior problema.

Na avaliação de Ana Amélia, o grande dilema da política agrícola brasileira permanece praticamente o mesmo de anos anteriores: recursos são anunciados, mas parte expressiva dos produtores enfrenta dificuldades para cumprir as exigências do sistema financeiro.

“Então esse é o grande dilema hoje, numa situação complicada. Se você olhar os números levantados pela Fundação Getulio Vargas sobre a situação dos agricultores, do endividamento agrícola e do número de recuperações judiciais requeridas no setor, eles mostram um cenário muito sério.”

Segundo ela, a situação torna-se ainda mais delicada porque muitos agricultores sequer conseguem acessar as linhas subsidiadas do Plano Safra e acabam recorrendo ao crédito de mercado.

“Também tem que considerar que não são todos os agricultores que têm acesso ao crédito subsidiado. Eles têm acesso ao crédito de mercado, que eu diria para ti é com juros escorchantes. Quase 15% de taxa de juros não dá para pagar, por maior e melhor que seja a produtividade de uma lavoura.”

Para Ana Amélia, o impacto das taxas de juros elevadas extrapola o agronegócio e atinge praticamente todos os setores produtivos da economia brasileira.

“Então o juro está asfixiando os setores econômicos todos de uma maneira, eu diria, praticamente nivelada e com igual prejuízo nessa questão do endividamento.”

“Então, de fato, é uma situação bem difícil de ser vista. Os agricultores da agricultura familiar também têm dificuldades. Eles também enfrentaram problema de perdas nas safras no caso do Sul do país.”

Impasse atrasa votação da renegociação das dívidas ruraisEventos climáticos extremos registrados nos últimos anos agravaram o endividamento de produtores rurais, especialmente na Região Sul.

Clima amplia a insegurança e coloca a próxima safra sob pressão

Além do endividamento e da dificuldade de acesso ao crédito, Ana Amélia afirma que o produtor rural continua convivendo com um fator impossível de controlar: o clima. Para ela, a sucessão de eventos extremos ocorridos nos últimos anos mantém elevado o nível de incerteza justamente no momento em que muitos agricultores tentam recuperar sua capacidade de investimento.

Na avaliação da ex-senadora, as projeções para a próxima safra ainda inspiram cautela.

“E o cenário que a gente vê agora, é um cenário preocupante por conta do efeito do El Niño sobre a próxima safra.”

Ela lembra que os acontecimentos recentes no Rio Grande do Sul demonstram como as mudanças climáticas continuam interferindo diretamente na produção agrícola.

“Você viu agora o que aconteceu lá no Rio Grande do Sul, em relação a um frio intenso e também chuvas muito intensas em regiões produtoras.”

Para Ana Amélia, o produtor rural enfrenta uma combinação extremamente desfavorável: precisa administrar dívidas acumuladas, convive com juros elevados e ainda permanece exposto aos riscos provocados pelas oscilações do clima.

“Então, de fato, o cenário do agricultor… as entidades se mobilizaram, estão tentando aí pressionar para a questão relacionada à securitização da dívida…”

Debate sobre a securitização das dívidas rurais ganhou dimensão política e institucional em Brasília.

Em reunião com o residente do Senado, deputados e senadores. Da esquerda: Irineu Orth, Osmar Terra, Sanderson, Luis Carlos Heinze e Alcolumbre. Na direita: Giovani Cherini, Pedro Westphalen, Luciano Zucco, Afonso Hamm e Jaques Wagner. O governador Eduardo Leite chegou depois. (Crédito: Pedro Gontijo, Senado Federal)

Zucco e deputados gaúchos cobram governo federal por solução para dívidas do agro

Deputados federais gaúchos, entre eles Luciano Zucco (PL), Afonso Hamm (PP) e Marcel van Hattem (Novo), reuniram-se na noite desta terça-feira (30), em Brasília, com produtores rurais do Rio Grande do Sul que viajaram à Capital Federal para acompanhar as negociações em torno do Projeto de Lei 5.122/2023. Considerada uma das principais pautas do setor agropecuário, a proposta busca viabilizar uma solução para o endividamento dos agricultores atingidos por sucessivas estiagens e enchentes, por meio da utilização de recursos do Fundo Social do Pré-Sal para a securitização das dívidas rurais.

Durante a mobilização, os parlamentares convidaram o deputado federal Paulo Pimenta (PT), interlocutor do governo federal, para participar da reunião e cobraram uma solução.

A mobilização em defesa da securitização das dívidas rurais ganhou força nos últimos meses e passou a ocupar espaço importante na agenda política em Brasília. Para Ana Amélia, entretanto, a discussão deixou de envolver apenas aspectos econômicos e passou a refletir também uma preocupação institucional.

Segundo ela, entidades representativas do agronegócio continuam defendendo medidas que permitam aos produtores reorganizar sua situação financeira e voltar a investir.

“As entidades se mobilizaram, estão tentando aí pressionar para a questão relacionada à securitização da dívida…”

A ex-senadora demonstra preocupação com o posicionamento antecipado do ministro do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, sobre a proposta.

“…mas o governo aí agora, até com o apoio do Supremo Tribunal Federal, através do Gilmar Mendes, que considera isso uma pauta-bomba e, portanto, inconstitucional.”

Na avaliação de Ana Amélia, manifestações dessa natureza deveriam ocorrer somente após a provocação formal da Corte.

“Isso foi uma manifestação antes de o próprio ministro da Suprema Corte ter sido provocado, porque o normal, em situação institucional normal, seria a manifestação da Suprema Corte quando fosse provocada.”

Ela prossegue.

“Agora o ministro se antecipa e, quando o Congresso vota na primeira fase a questão da securitização das dívidas, aí ele já se antecipa a dizer que isso é inconstitucional.”

Para a ex-presidente da Comissão de Agricultura e Reforma Agrária do Senado, o episódio amplia a apreensão entre produtores rurais.

“Quer dizer, nós estamos vivendo uma crise também do ponto de vista institucional, retirando direitos do próprio cidadão ou do produtor de ir bater à porta da Justiça para reclamar um direito que lhe é assegurado. Acho que esse é um complexo, um desafio muito grande para os agricultores brasileiros.”


Como evitar perdas em colheitas mecanizadas - Revista CultivarPara Ana Amélia, o Brasil precisa transformar sua liderança na produção de alimentos em uma política permanente de Estado.

Uma potência agrícola não pode planejar apenas a próxima safra

Na avaliação de Ana Amélia, outro desafio do agronegócio brasileiro está na ausência de planejamento de médio e longo prazos. Ela defende que um dos maiores produtores de alimentos do mundo precisa adotar estratégias permanentes para garantir segurança aos investimentos e estabilidade ao setor.

Ao comparar o Brasil com outros países, ela cita uma reflexão do ex-presidente da Sociedade Rural Brasileira, Pedro de Camargo Neto.

“Os planos que nós temos no Brasil, enquanto a China faz um plano para até 2030, nós estamos fazendo, como disse o Pedro de Camargo Neto, um plano para daqui a 15 meses.”

Segundo Ana Amélia, esse horizonte reduzido compromete o potencial de crescimento da agricultura nacional.

“Nós, como potência agrícola, precisaríamos ter um planejamento de mais longo, pelo menos de médio e longo prazos, para dar sustentabilidade à agricultura brasileira, que é a mais produtiva do mundo.”

Fotos: Trecho em Mato Grosso da BR-163 é leiloado - 27/11/2013 - UOL NotíciasPara Ana Amélia, a deficiência logística continua retirando competitividade do agronegócio brasileiro e elevando os custos de produção e transporte.  BR-163 com intenso fluxo de caminhões transportando grãos ou imagem da Ferrogrão.(Foto ilustração).

Infraestrutura continua sendo um dos maiores obstáculos à competitividade

Se dentro da porteira o Brasil se consolidou como uma das maiores potências agrícolas do mundo, fora dela o produtor ainda enfrenta dificuldades históricas para colocar sua produção no mercado. Na avaliação de Ana Amélia, a deficiência da infraestrutura nacional continua reduzindo a competitividade do agronegócio brasileiro.

Segundo a ex-senadora, o país alcançou elevados índices de produtividade, mas ainda perde eficiência por causa da logística.

“A mais produtiva, mas perde competitividade por conta das nossas deficiências na logística. Você vê o caso da Ferrogrão lá no Mato Grosso.”

Ela cita a Ferrogrão como uma das obras mais importantes para reduzir custos e ampliar a eficiência do escoamento da produção do Centro-Oeste.

“Uma ferrovia fundamental, que liga Sinop, que é um celeiro do Brasil, até Miritituba, no Pará. É um porto para agilizar, baratear e também deixar mais seguro o transporte.”

Enquanto o projeto permanece sem conclusão, milhares de caminhões continuam utilizando a BR-163.

“É uma rodovia, a 163, por exemplo, onde vai de Sinop para lá. Ela não está duplicada. Então é um caminhão atrás do outro. Nós não temos logística em condições de enfrentar uma concorrência como os outros países.”

Para Ana Amélia, esse atraso compromete uma vantagem que o Brasil conquistou dentro das propriedades rurais: a elevada produtividade.

Países vizinhos ampliaram investimentos em logística e infraestrutura, reduzindo custos para seus produtores rurais. Porto no Rio Paraná, rodovia no Paraguai ou corredor de exportação no Mercosul.

Concorrência cresce dentro do Mercosul

Ao comparar a infraestrutura brasileira com a dos países vizinhos, Ana Amélia afirma que Argentina, Paraguai e Uruguai conseguiram avanços importantes na logística voltada ao agronegócio.

“Até aqui no Mercosul, se você andar no interior da Argentina, no interior do Paraguai, no interior do Uruguai, você vai ficar assim meio envergonhado porque esses três países estão dando um banho em matéria de logística.”

Ela destaca a existência de rodovias duplicadas, portos ao longo do Rio Paraná e sistemas modernos de pedágio como exemplos de investimentos que aumentaram a competitividade desses países.

Segundo Ana Amélia, esse ambiente favorável passou também a atrair produtores e investidores brasileiros.

“Por isso até que muitas empresas e muitos produtores rurais estão indo para o Paraguai. O Paraguai tem condições lá de atrativos, incentivos. Lá não se paga imposto de renda.”

Ela prossegue.

“Então é um país que tem muita facilidade e muitos investidores, especialmente do agro, estão indo para o Paraguai aproveitando dessas facilidades e também das condições de custo de financiamento bem mais baratos que no Brasil.”

Na avaliação da ex-senadora, a disputa por competitividade deixou de ocorrer apenas entre produtores e passou a envolver também a capacidade dos países de oferecer infraestrutura eficiente, segurança jurídica e condições adequadas de financiamento.

Com investimento de até R$ 15 bilhões, Ferrovia Estadual do Mato Grosso terá 743 km e ligará Lucas do Rio Verde ao Porto de Santos, criando corredor estratégico para escoar grãos e gerar 145 mil empregos - CPG Click Petróleo e GásMatopiba consolida-se como a nova fronteira agrícola brasileira e amplia a expansão da produção nacional (Foto Ilustraççao).

Matopiba confirma a expansão da nova fronteira agrícola brasileira

Apesar dos desafios enfrentados pelo setor, Ana Amélia observa que o agronegócio brasileiro continua expandindo suas fronteiras de produção. Ela destaca o crescimento do Matopiba, região formada por Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia como um dos principais exemplos da capacidade de adaptação e inovação da agricultura nacional.

“Não sei se você está acompanhando uma matéria que a GloboNews está apresentando sobre o Matopiba. É a nova fronteira agrícola do Brasil. Depois que foi o Centro-Oeste… aliás, é o Brasil de bombachas. Porque foram os gaúchos e os paranaenses que se bandearam para o Centro-Oeste. Agora é o Matopiba.”

Segundo Ana Amélia, a combinação entre relevo favorável, disponibilidade hídrica e tecnologia vem impulsionando o crescimento da região.

“Na Bahia e em todas aquelas áreas são áreas enormes, aproveitando a topografia que é plana, aproveitando o clima e aproveitando os recursos hídricos, porque tem muita água.”

Ela destaca ainda o avanço de práticas sustentáveis adotadas pelos produtores.

“Então eles estão fazendo uma economia circular. Faz a pastagem, faz o pasto para o gado. Do esterco do gado que eles criam, misturam com a vegetação e fazem adubo orgânico. Aí vão fazendo toda a sequência disso.”

União para transformar potencial em desenvolvimento

Ao longo da entrevista, Ana Amélia constrói um diagnóstico que vai além do lançamento do Plano Safra. Na avaliação da ex-senadora, o crédito rural continua sendo uma ferramenta indispensável para manter a produção agrícola, mas, sozinho, não resolverá os desafios estruturais enfrentados pelo setor.

Para ela, o Brasil precisa tratar o agronegócio como uma política permanente de Estado, reunindo governo, Congresso Nacional, produtores, cooperativas e entidades representativas em torno de objetivos comuns. Endividamento, acesso ao crédito, infraestrutura, logística, segurança jurídica e planejamento de longo prazo fazem parte de uma mesma equação.

O Plano Safra 2026/2027 representa um importante instrumento de estímulo à produção e reafirma a relevância estratégica do agronegócio para a economia nacional. Mas, segundo Ana Amélia, o verdadeiro sucesso dessa política será medido não apenas pelo volume de recursos anunciados, e sim pela capacidade de esses recursos chegarem ao produtor, fortalecerem a competitividade do campo e garantirem condições para que a agricultura brasileira continue ampliando sua liderança mundial na produção de alimentos.

O desafio do novo Plano Safra não será apenas anunciar cifras recordes. Será transformar crédito em produção e devolver capacidade de investimento a quem ainda luta para sair do vermelho.

Portal Repórter Brasília, Edgar Lsboa