PL trabalha para encerrar crise entre Michelle e Flávio Bolsonaro antes que desgaste avance sobre 2026

Por Edgar Lisboa
A semana será decisiva para medir os efeitos políticos da crise que expôs publicamente divergências entre a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Embora ambos tenham reduzido o tom das declarações e adotado uma postura conciliadora nos últimos dias, lideranças do Partido Liberal ainda trabalham para evitar que o episódio deixe marcas mais profundas na articulação da oposição para as eleições presidenciais de 2026.

Nos bastidores de Brasília, a avaliação predominante é que o conflito produziu um desgaste desnecessário justamente no momento em que o bolsonarismo busca transmitir uma imagem de unidade para enfrentar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e seus aliados na próxima disputa eleitoral.
A movimentação do presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, foi interpretada por parlamentares como um sinal claro da preocupação da direção partidária. O dirigente atuou diretamente para reduzir as tensões e reforçar o discurso de pacificação, considerado essencial para impedir que o episódio ganhe novas repercussões.
Disputa por protagonismo
Apesar dos esforços para encerrar o assunto, dirigentes e parlamentares reconhecem reservadamente que a crise revelou uma questão que já vinha sendo discutida nos bastidores: a disputa por protagonismo dentro do próprio campo conservador.

Michelle Bolsonaro ampliou sua influência nacional nos últimos anos, especialmente junto ao eleitorado feminino, religioso e evangélico. Já Flávio Bolsonaro é visto por parte significativa dos aliados como herdeiro natural do projeto político liderado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro.
A força da articulação feminina
O episódio também evidenciou uma diferença importante dentro do campo conservador. Flávio Bolsonaro possui o sobrenome mais conhecido da direita brasileira e acumula experiência parlamentar. Michelle, por sua vez, construiu um ativo político próprio: a capacidade de mobilizar mulheres em todo o país.
Antes mesmo das eleições de 2022, quando ainda consolidava sua atuação à frente do PL Mulher, Michelle percorreu diversos estados ao lado de Celina Leão Progressista, hoje governadora do Distrito Federal) e Damares Alves (Senadora do Republicanos pelo DF). O objetivo era ampliar a participação feminina na política, aproximar mulheres conservadoras do debate público e f
A convivência entre lideranças com peso eleitoral próprio é considerada natural em qualquer agrupamento político. O desafio, avaliam interlocutores, está em administrar diferenças sem transmitir ao eleitorado a percepção de fragmentação.
Cherini: “coisa de família”

O Presidente do PL no Rio Grande do Sul, o deputado federal, Giovani Cherini, foi quem resumiu de forma mais direta a avaliação de parte da militância bolsonarista. Para ele, o episódio não ultrapassa os limites de uma divergência familiar.
“O desentendimento entre Michelle e o Flávio é mais uma coisa de família. Mas a minha frase é a seguinte: enquanto a direita discute coisas de família, a esquerda faz corrupção. Essa é a diferença. As famílias têm diferenças, têm brigas. Quem não tem diferenças dentro de casa? Isso acontece. Agora é preciso ter capacidade de perdoar e administrar.”
A declaração reproduz uma estratégia que vem sendo adotada por dirigentes do PL: reduzir a dimensão política do episódio e enquadrá-lo como um problema circunstancial já superado.
Zucco defende virar a página

Pré-candidato ao governo do Rio Grande do Sul e uma das principais lideranças bolsonaristas do Sul do país, o deputado federal, Luciano Zucco (PL), também trabalha para afastar qualquer interpretação de crise duradoura.
“Disputas internas acontecem em qualquer partido político e fazem parte da dinâmica de quem reúne diferentes lideranças. O mais importante é que tanto o Flávio quanto a Michelle já conversaram, esclareceram os fatos e pediram desculpas mutuamente. Esse assunto está superado.”
Segundo Zucco, a prioridade agora deve ser a construção de uma alternativa ao atual governo federal.
“É hora de virar a página e concentrar nossas energias no que realmente importa: construir uma alternativa para devolver o Brasil aos brasileiros, encerrar esse ciclo de um governo que tem causado tantos prejuízos ao país e oferecer um novo rumo para a população.”
Heinze pede serenidade

Aliado do bolsonarismo no Rio Grande do Sul, embora filiado ao Progressistas, o senador Luis Carlos Heinze adotou um discurso de moderação.
“O momento exige serenidade e responsabilidade. O Brasil enfrenta enormes desafios, e quem defende os valores da liberdade, da família, da segurança jurídica e do desenvolvimento precisa estar unido.”
Para o senador, divergências são naturais, mas não podem comprometer objetivos maiores.
“Divergências acontecem em qualquer grupo, mas acredito que elas devem ser resolvidas com diálogo e respeito, sem perder de vista o objetivo maior: trabalhar pelo Brasil e pelos brasileiros. Tenho convicção de que a união sempre será o melhor caminho.”
Bohn Gass: “A direita briga e esquece o Brasil”

A oposição ao bolsonarismo vê o episódio por outro ângulo. Para o deputado federal Bohn Gass (PT-RS), a crise evidencia disputas internas que, segundo ele, não dialogam com os problemas reais do país.
O deputado afirma que a crise entre integrantes da família Bolsonaro “evidencia disputas internas e desvia o foco de temas como emprego, saúde, combate à pobreza e soberania nacional”.
“Vocês nunca ouviram os Bolsonaro fazer uma coisa que beneficia o país. Nunca ouviram falar em reduzir a pobreza, melhorar salário, defender o SUS, gerar emprego ou garantir soberania. A única coisa que vocês ouviram falar é da corrupção deles, da briga entre eles e da defesa do Trump e do tarifaço contra o Brasil.”
Na avaliação do parlamentar petista, o episódio reforça a percepção de que o grupo político está mais concentrado em disputas internas do que em propostas para o país.
Teste para 2026
A crise parece caminhar para um encerramento formal, mas seus efeitos políticos ainda serão observados nas próximas semanas.
No Congresso, parlamentares avaliam que o principal desafio do PL será demonstrar que a pacificação anunciada não foi apenas uma resposta emergencial para conter danos, mas um movimento efetivo de reorganização interna.
A pré-campanha presidencial de 2026 ainda está em construção, mas a disputa pelo protagonismo dentro do campo conservador já começou. O episódio envolvendo Michelle e Flávio Bolsonaro mostrou que o desafio da oposição não será apenas enfrentar os adversários externos, mas também administrar suas próprias lideranças.
Por enquanto, a ordem é apagar o incêndio. A dúvida que permanece em Brasília é se as chamas foram realmente extintas ou apenas retiradas dos holofotes.
A Coluna Repórter Brasília é publicada simultaneamente no Jornal do Comercio, o jornal de economia e negócios do Rio Grande do Sul.
Edgar Lisboa, Portal Repórter Brasília