O desafio dos 400 anos: a alma missioneira que ajudou a construir o Brasil

André Kryszczun,Pedro Westphalen,Alceu Moreira e João Alberto Gomes (Crédito: Edgar Lisboa)

Por Edgar Lisboa

Há datas que passam pelo calendário. Outras atravessam gerações, moldam identidades e permanecem vivas na memória de um povo. Os 400 anos das Missões Jesuíticas Guarani pertencem a essa segunda categoria. Não se trata apenas de recordar um marco histórico. Trata-se de revisitar parte da própria formação do Rio Grande do Sul, do Brasil e da identidade do povo missioneiro, um povo que aprendeu a defender suas raízes, sua cultura e sua terra com coragem, fé e sentimento.

A sessão solene realizada na Câmara dos Deputados, nesta quarta-feira (20), em homenagem aos 400 anos das Missões, transformou Brasília num pequeno pedaço do Rio Grande do Sul. Homens e mulheres pilchados, sotaques carregados de tradição, discursos emocionados e referências às barrancas do Rio Uruguai deram o tom de uma cerimônia rara, carregada de simbolismo, memória e orgulho gaúcho.

Mais do que um ato protocolar, a homenagem se transformou numa verdadeira declaração de amor ao Rio Grande do Sul e ao povo missioneiro.

O berço da identidade gaúcha

Pedro Westphalen

Autor da sessão, o deputado federal Pedro Westphalen (PP-RS) destacou que os 400 anos das Missões representam “história, resistência, fé, cultura, trabalho e a construção de uma identidade que ajudou a formar o Rio Grande do Sul, o Brasil e grande parte da América Latina”. Em um discurso carregado de emoção, o parlamentar lembrou que as Missões não são apenas patrimônio histórico, mas um legado humano extraordinário, construído pelo encontro entre culturas, saberes, educação, produção coletiva e espiritualidade.

Westphalen fez questão de reforçar que preservar o passado não significa viver preso a ele. Para o deputado, o grande desafio dos próximos séculos será transformar a herança missioneira em desenvolvimento, turismo, oportunidades e fortalecimento regional. “O compromisso é fazer com que essa região seja lembrada não apenas pela grandeza do seu passado, mas pela força do seu futuro”, afirmou.

Missões, Brasília e a cruz missioneira: Augusto Nardes transforma sessão solene em tributo às raízes gaúchas

Augusto Nardes

A sessão solene em homenagem aos 400 anos das Missões Jesuíticas Guarani, realizada na Câmara dos Deputados, ganhou tom de memória, emoção e defesa da cultura missioneira nas palavras do ministro do Tribunal de Contas da União, Augusto Nardes. Em um discurso marcado por referências históricas e lembranças políticas, o ministro afirmou que Brasília “tem tudo a ver com as Missões” e revelou uma ligação pouco conhecida entre a capital federal e a cultura missioneira.

Segundo Nardes, o projeto urbanístico de Brasília teria sido inspirado na cruz missioneira. O ministro lembrou que o urbanista Lúcio Costa viveu em São Miguel das Missões, onde participou da criação do Museu das Missões, ainda no período em que a cidade pertencia a Santo Ângelo.

“Brasília não foi baseada em um avião, mas na cruz missioneira”, afirmou Nardes, ao exibir o símbolo tradicional missioneiro no plenário da Câmara. O ministro destacou que muitos moradores da capital federal desconhecem a relação histórica entre o Distrito Federal e as Missões Jesuíticas.

Durante o pronunciamento, Nardes fez questão de saudar prefeitos, vereadores, lideranças tradicionalistas e parlamentares gaúchos presentes na cerimônia. Também relembrou sua trajetória política no Rio Grande do Sul, onde foi vereador em São Miguel das Missões e cumpriu seis mandatos parlamentares.

Em tom descontraído, o ministro citou o deputado federal Pedro Westphalen como “um bom investimento político” e recordou ter participado diretamente da construção de lideranças do estado, mencionando ainda o deputado Afonso Hamm e o senador Luís Carlos Heinze.

Nardes também aproveitou o momento para reforçar a presença da cultura gaúcha em Brasília. Segundo ele, existem dezenas de CTGs espalhados pelo entorno do Distrito Federal, mantendo viva a tradição missioneira e o legado dos povos guarani, espanhóis e portugueses.

O ministro recordou um evento realizado recentemente no Tribunal de Contas da União para celebrar os 400 anos das Missões, reunindo cerca de 500 gaúchos residentes em Brasília. A cerimônia contou com apresentações tradicionalistas e homenagens à cultura do Rio Grande do Sul.

Ao citar rodeios, laço, chimarrão e festas tradicionalistas promovidas no entorno do DF, Nardes afirmou que os costumes missioneiros seguem vivos mesmo longe do Sul do país. Para ele, preservar a memória das Missões significa manter viva uma das bases culturais e históricas da formação brasileira.

No encerramento, o ministro adotou tom emocionado ao definir sua própria identidade como missioneiro. “Sou alma, sou pulso, sou missioneiro. Sou a cruz das Missões estampada no peito”, declarou, sob aplausos dos participantes da sessão solene.

“Ninguém lutou mais para ser brasileiro”

Alceu Moreira

O deputado federal Alceu Moreira (MDB-RS) levou ao plenário um discurso quase poético, mergulhado na cultura missioneira. Lembrou que o solo das Missões foi marcado por guerras, disputas territoriais e pelo sangue derramado na defesa das fronteiras brasileiras.

“Ninguém lutou mais para ser brasileiro do que aquele povo”, resumiu.

Ao citar cidades como Santo Antônio das Missões, Bossoroca, São Nicolau, São Luiz Gonzaga e São Miguel, Alceu descreveu o missioneiro como alguém “diferente”, moldado pela resistência, pela cultura e pelo barro vermelho das barrancas do Rio Uruguai. Misturou política, memória e tradição num discurso carregado da alma gaúcha.

A alma do povo missioneiro

Any Ortiz

A deputada federal Any Ortiz (PP-RS) definiu os quatro séculos das Missões como parte da origem e da identidade do povo gaúcho. Disse que preservar a história missioneira é obrigação de todos aqueles que acreditam no futuro sem esquecer as responsabilidades do presente.

Com orgulho explícito da cultura gaúcha, destacou que o povo do Rio Grande do Sul ajudou a construir o Brasil e afirmou carregar essa identidade “no coração, na alma e no trabalho”. A parlamentar elogiou a iniciativa de levar “um pedaço do povo missioneiro” para dentro do plenário da Câmara dos Deputados.

“O sangue missioneiro fez o Rio Grande forte”

Ubiratan Sanderson

O deputado federal Ubiratan Sanderson (PL-RS) transformou seu discurso numa defesa apaixonada das Missões e do Rio Grande do Sul. Reforçou que São Nicolau representa o “nascedouro” do Estado e que os Sete Povos Missioneiros ajudaram a formar a identidade gaúcha. “Foi o sangue missioneiro que fez o Rio Grande do Sul forte como é”, afirmou.

Sanderson também aproveitou a homenagem para defender maior apoio federal ao Rio Grande do Sul, lembrando as enchentes, estiagens e dificuldades econômicas enfrentadas pelo Estado nas últimas décadas. Em tom crítico, afirmou que o Parlamento precisa compreender as necessidades específicas do Sul do Brasil.

Marcel van Hattem destacou importância histórica

Marcel van Hattem

O deputado federal Marcel van Hattem (Novo-RS) destacou a importância histórica e cultural dos 400 anos das Missões Jesuíticas, afirmando que a trajetória missioneira ajuda a contar a própria origem do Brasil. Como gaúcho, lembrou das visitas às ruínas ainda no ensino fundamental e afirmou que a experiência “muda a vida”, ao permitir compreender a formação histórica do país e do Rio Grande do Sul.

Van Hattem também ressaltou o trabalho de apoio aos municípios missioneiros, especialmente em projetos de reestruturação turística voltados à preservação do patrimônio histórico e cultural da região. O parlamentar elogiou lideranças políticas e municipais presentes na sessão e destacou o papel combativo do Rio Grande do Sul na política nacional.

Durante o discurso, fez homenagem ao ministro do TCU Augusto Nardes, apontando sua atuação histórica em defesa das Missões e do estado gaúcho, além de citar sua contribuição no debate sobre as contas públicas durante o processo que levou ao impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff.

O deputado ainda mencionou a pré-candidatura de Cristiane Nardes no Distrito Federal, afirmando que ela representa a continuidade de pautas ligadas à governança, transparência e combate à corrupção.

Com emoção, Secretário Kryszczun falou do orgulho de suas origens missioneiras

André Kryszczun

O secretário de Cultura do Rio Grande do Sul, André Kryszczun, destacou durante a sessão solene em homenagem aos 400 anos das Missões Jesuíticas Guarani, na Câmara dos Deputados, a importância histórica, cultural e econômica do legado missioneiro para a formação do Rio Grande do Sul e da América do Sul. Em um discurso marcado pela emoção e pelo orgulho de suas origens missioneiras, ele definiu as Missões como “um dos capítulos extraordinários da formação territorial do continente sul-americano”.

Kryszczun afirmou que celebrar os 400 anos das Missões é reconhecer “uma experiência singular de encontro entre povos, saberes e visões de mundo”, ressaltando o papel dos jesuítas e dos povos guaranis na construção das reduções. Segundo ele, os missionários da Companhia de Jesus estruturaram núcleos urbanos planejados, integrando fé, trabalho, educação, música, arquitetura e artes em um projeto que deixou marcas profundas na organização social e cultural da região.

O secretário enfatizou, porém, que os povos guaranis foram “os grandes construtores dessa experiência histórica”. Ele destacou a contribuição indígena para a espiritualidade, a organização comunitária, a agricultura, a pecuária e a música, além da influência direta em costumes que permanecem vivos na identidade gaúcha, como a relação com a natureza, o consumo da erva-mate e tradições ligadas ao convívio comunitário e ao churrasco.

Durante o pronunciamento, Kryszczun afirmou que as Missões constituem um dos pilares da ocupação e da organização territorial do Rio Grande do Sul, influenciando até hoje a cultura, a economia e os valores da população gaúcha.

O representante do governo gaúcho também apresentou os investimentos realizados na região missioneira pela gestão do governador Eduardo Leite e do vice-governador Gabriel Souza. Segundo ele, o Estado conduz “um dos maiores movimentos de valorização da região das Missões”, unindo preservação histórica, cultura, turismo, inovação e infraestrutura.

De acordo com o secretário, mais de R$ 80 milhões estão sendo investidos em ações voltadas à cultura e ao turismo, incluindo restauração de patrimônio histórico, revitalização urbana, museus, espaços de memória, eventos culturais e experiências tecnológicas. Ele também citou obras de infraestrutura, como a modernização do aeroporto regional de Santo Ângelo e melhorias na malha rodoviária, como parte da estratégia de desenvolvimento regional.

Kryszczun destacou ainda iniciativas voltadas à educação patrimonial, valorização das comunidades indígenas e fortalecimento da economia criativa na região missioneira. Segundo ele, o objetivo é transformar o patrimônio histórico em oportunidade de geração de renda, desenvolvimento sustentável e fortalecimento do sentimento de pertencimento da população local.

Ao encerrar o discurso, o secretário citou locais históricos como as ruínas de São Miguel, São Lourenço, São João e São Nicolau, além das memórias de São Luiz Gonzaga, Santo Ângelo e São Borja, classificando-os como símbolos de uma herança universal. Para Kryszczun, o verdadeiro patrimônio das Missões permanece vivo “na memória dos povos, nas tradições transmitidas de geração em geração e na compreensão de que cultura é continuidade e transformação”.

“Essa terra tem dono”

Odair Kempa

Entre autoridades e parlamentares, um dos depoimentos mais simbólicos veio do vereador Odair Kempa (PP), do município de Dezesseis de Novembro, na região missioneira. Pilchado e carregando com orgulho os símbolos gaúchos, Kempa lembrou a frase eternizada por Sepé Tiaraju: “Esta terra tem dono”. Para o vereador, a frase continua viva no sentimento do povo missioneiro.

“Com certeza essa terra tem dono. As Missões têm dono. Nós, os missioneiros, somos os donos da nossa terra”, declarou.

Memória, enchentes e saudade

Ana Terezinha Dorneles vestida à caráte, como manda a cultura do Rio Grande., A seu lado, Cris Nardes.

A gaúcha Ana Terezinha Dorneles, vestida a caráter em Brasília, emocionou ao lembrar das enchentes no Rio Grande do Sul e da saudade da terra natal. Disse que faz questão de manter viva a tradição gaúcha para honrar os antepassados que lutaram pelas fronteiras brasileiras. Ao lado dela estava Cris Nardes, pré-candidata a deputada distrital no DF.

Uma história que atravessa fronteiras

O deputado federal paranaense Luiz Carlos Hauly (Podemos-PR) lembrou que as reduções jesuíticas também marcaram profundamente a história do Paraná. Definiu as Missões como “o mais extraordinário processo de civilização das Américas” e destacou o trabalho dos jesuítas junto aos povos indígenas por meio da música, educação, espiritualidade e organização comunitária.

“Missões não é passado. Missões é alma”

João Alberto Gomes

Representando os 27 municípios missioneiros, o presidente da Associação dos Municípios das Missões, prefeito João Alberto Gomes, resumiu o sentimento da cerimônia ao afirmar que as Missões não são ruínas do passado, mas um patrimônio vivo, pulsando na cultura, na fé e na identidade do povo gaúcho.

Segundo ele, os 400 anos representam também um convite ao futuro: fortalecer turismo, infraestrutura, integração regional e desenvolvimento econômico sem perder a essência missioneira. “Missões não é apenas passado. Missões é identidade, pertencimento, cooperação, desenvolvimento e alma”, declarou.

O desafio dos próximos 400 anos

A sessão solene deixou claro que falar das Missões é falar da formação do Brasil profundo. É lembrar que, muito antes dos grandes centros urbanos, havia homens e mulheres defendendo fronteiras, construindo comunidades, misturando culturas e criando uma identidade própria no extremo Sul do continente.

Quatro séculos depois, o maior desafio talvez seja justamente este: impedir que a história missioneira vire apenas fotografia antiga ou discurso comemorativo. O povo gaúcho quer mais do que homenagens. Quer reconhecimento, desenvolvimento, preservação cultural e respeito por uma região que ajudou a consolidar o território brasileiro.

Porque, no fundo, os 400 anos das Missões não falam apenas do passado.

Falam de pertencimento.

Falam de resistência.

E falam da alma de um povo que segue carregando o Rio Grande do Sul no peito.

Portal Repórter Brasília, Edgar Lisboa