O alerta a partir de Caracas

Ronaldo Nogueira e Bibo Nunes (Crédito: Bruno Spada; Kayo Magalhães/Câmara dos Deputados)

A crise venezuelana voltou ao centro do debate político brasileiro após a ação militar dos Estados Unidos contra o regime de Nicolás Maduro. Entre deputados gaúchos, o episódio ganhou leituras distintas, mas convergentes em um ponto: “a Venezuela virou referência, positiva ou negativa para discutir soberania, democracia e rumos do Brasil”. Para o deputado Ronaldo Nogueira (Republicanos/RS), “antes de aplaudir ou criticar Washington, é preciso olhar para dentro”. Na sua avaliação, “a soberania nacional se sustenta em três pilares: segurança jurídica, monetária e nacional. Sem Forças Armadas robustas, falar em soberania é apenas discurso”, afirma.

Venezuela como advertência

Nogueira aponta que “a Venezuela foi conduzida por lideranças falastronas, populistas e ideológicas; mais preocupadas com narrativas do que com o interesse nacional”. O resultado, segundo ele, “são fatos amplamente documentados: hiperinflação, escassez, repressão política e um dos maiores êxodos da história recente da América Latina, com milhões de pessoas empurradas para a pobreza e para fora do país”.

Cenário brasileiro

O deputado amplia o raciocínio para o cenário brasileiro. Lembra que “o Brasil reúne território continental, riquezas naturais, enorme capacidade de produção de alimentos e um povo trabalhador”. Em contraste, lista problemas estruturais: “Forças Armadas sucateadas, dívida pública próxima de 80% do PIB, analfabetismo ainda elevado, juros entre os mais altos do mundo, cerca de 20 milhões de pessoas vivendo em favelas, e uma infraestrutura excessivamente dependente do transporte rodoviário”. Para ele, “a lição venezuelana deve servir para pensar mais no Brasil, e menos em políticos de estimação”.

A leitura geopolítica de Bibo Nunes

Já o deputado Bibo Nunes (PL/RS) adota um tom mais direto ao avaliar a ação dos Estados Unidos. Para ele, “o ex-presidente Donald Trump libertou a Venezuela de um sanguinário narcoditador”. Na sua visão, “o objetivo central seria restaurar a democracia e reverter estatizações feitas na era Chávez, permitindo que empresas privadas, sobretudo americanas, voltem a investir, gerir o petróleo e gerar liquidez e produtividade para a população venezuelana”.

Tabuleiro global

Bibo também insere o episódio em um tabuleiro global. Ao comentar as críticas de China e Rússia, sustenta que “nada ocorreu sem cálculo prévio”. Para o parlamentar, “as grandes potências estariam jogando cada uma seu próprio jogo. Rússia na Ucrânia, China em relação a Taiwan, em um cenário de acordos tácitos, onde tudo fica em casa”.

Divergências, mesmo pano de fundo

As falas revelam estilos e enfoques distintos. Nogueira usa a Venezuela como alerta institucional e social para o Brasil. Bibo enxerga a ação americana como correção de rumo, e parte de uma engrenagem geopolítica maior. Em comum, ambos tratam o colapso venezuelano como símbolo do que pode acontecer quando ideologia, populismo e fragilidade institucional se sobrepõem ao interesse nacional.

Espelho incômodo do debate brasileiro

No fim, a Venezuela deixa de ser apenas notícia internacional e passa a funcionar como espelho incômodo do debate brasileiro, seja como advertência, seja como justificativa.

A Coluna Repórter Brasília é publicada simultaneamente no Jornal do Comercio, o jornal de economia e negócios do Rio Grande do Sul.

Edgar Lisboa