
Mesmo cumprindo pena no 19º Batalhão da Polícia Militar do Distrito Federal, no complexo conhecido como “Papudinha”, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) segue como figura central nas decisões do partido. A constatação, repetida por aliados, é de que a prisão não significou silêncio político. Pelo contrário: o ex-presidente continua orientando candidaturas e articulando o desenho eleitoral de 2026.
Força simbólica
No Distrito Federal, a indicação de Michelle Bolsonaro e da deputada Bia Kicis ao Senado é vista como demonstração de força simbólica. A eventual candidatura de Michelle também ganhou reforço do senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato ao Planalto no campo bolsonarista. O recado é claro: mesmo fora do Palácio e preso, Bolsonaro ainda pauta o PL.
A questão é: até que ponto essa influência se sustenta no tempo?
O caso do Rio Grande do Sul
No Rio Grande do Sul, o deputado Ubiratan Sanderson (PL/RS), vice-presidente da Oposição, na Câmara que esteve com Bolsonaro, no sábado, disse à coluna Repórter Brasília: “estive visitando o ex-presidente Bolsonaro e ele afirmou “não abrir mão da minha candidatura ao Senado, pelo PL do Rio Grande do Sul”. A reunião de aliados com o ex-presidente consolidou a pré-candidatura do deputado Ubiratan Sanderson ao Senado, ao lado de Marcel Van Hattem.
Disciplina interna
A frase atribuída a interlocutores, “o que Bolsonaro determina é lei”, traduz o ambiente de disciplina interna no partido. A decisão tende a esfriar movimentos de outras legendas, como o PP, que ensaiava discutir candidatura própria ao Senado no estado. Com a palavra final vinda de Brasília, e da Papuda, a tendência é de que o PL mantenha chapa própria.
Progressistas evitam declarações
Ainda assim, lideranças progressistas evitam declarações definitivas. Questionado pela coluna, sobre a situação progressistas e PL gaúcho, o senador Luís Carlos Heinze, por exemplo, indica que as definições estão sendo tratadas pelo comando regional do partido, deputado Covatti Filho e por Luciano Zucco, pré-candidato do PL ao Palácio Piratini, com articulações locais. Ou seja, o cenário segue em aberto.
O peso político do ex-presidente
O fato político é inegável: Bolsonaro mantém ascendência sobre sua base. Deputados e senadores continuam a buscá-lo para orientações, e suas indicações são tratadas como referência para o campo conservador. Isso reforça a ideia de que, para o bolsonarismo, a liderança é personalista e resistente à ausência institucional.
O risco das estratégias
Mas a estratégia também traz riscos. Até que ponto candidaturas fortemente vinculadas a um líder preso ampliam ou restringem o eleitorado? Em estados mais competitivos, a dependência do aval de Bolsonaro pode ser um ativo, ou um limitador.
Há ainda o fator jurídico. As convenções partidárias e a legislação eleitoral podem impor barreiras a determinadas estratégias. O peso do ex-presidente é político, mas as decisões formais dependerão dos partidos, da Justiça Eleitoral e da viabilidade de cada candidatura.
2026: caminhos possíveis
O cenário projetado por aliados inclui a tentativa de manter o bolsonarismo competitivo em todas as frentes: Senado, governos estaduais e Presidência. Nomes como o governador Romeu Zema e a senadora Tereza Cristina são citados em conversas de bastidores para compor chapas majoritárias, enquanto lideranças regionais recebem sinal verde para articular palanques.
Em Minas Gerais, por exemplo, o deputado Nicolas Ferreira já teria recebido autorização para conduzir negociações locais. O objetivo é preservar a capilaridade do movimento e garantir presença em estados estratégicos.
Convenções partidárias
Mas tudo ainda está em construção. As convenções partidárias, as alianças regionais e o ambiente jurídico-político serão determinantes. A pergunta que paira sobre o tabuleiro é simples e complexa ao mesmo tempo: o bolsonarismo conseguirá transformar a liderança à distância em votos nas urnas?
Entre a fidelidade e as dúvidas
O PL demonstra fidelidade ao seu principal líder. No entanto, a política raramente é estática. O tempo, o calendário eleitoral e as circunstâncias podem alterar estratégias e alianças. A influência de Bolsonaro segue forte, mas o teste real virá com a formação das chapas e a reação do eleitorado.
A Coluna Repórter Brasília é publicada simultaneamente no Jornal do Comercio, o jornal de economia e negócios do Rio Grande do Sul.
Edgar Lisboa