
Por Edgar Lisboa
Felipe Loureiro, professor de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (USP), analisou em entrevista à jornalista Cássia Godoy, no Jornal da CBN, os ataques coordenados de Estados Unidos e Israel contra o Irã e as possíveis consequências globais do conflito.
Segundo ele, trata-se de uma situação “extremamente preocupante”, com risco real de escalada regional e impactos no sistema internacional.
Ataque coordenado e justificativas oficiais
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que o objetivo da ofensiva é “defender o povo americano”. Já Israel classificou a ação como “ataque preventivo”.
Do lado iraniano, o líder supremo Ali Khamenei foi transferido para um local seguro após mísseis atingirem áreas próximas ao seu palácio.
De acordo com Felipe Loureiro, o governo norte-americano apresentou três principais justificativas:
- Motivo humanitário: apoio a manifestantes reprimidos pelo regime iraniano;
- Ameaça nuclear: suspeita de que o Irã estaria próximo de produzir uma bomba atômica;
- Capacidade militar: possível desenvolvimento de mísseis capazes de atingir os Estados Unidos.

No entanto, o professor Felipe Loureiro faz uma ressalva central: “Não há nenhuma evidência de que o Irã esteja, de fato, próximo de construir uma bomba atômica. Tampouco há evidência de que tenha capacidade de atingir o território norte-americano com mísseis intercontinentais.”
Para ele, as bases da argumentação de Washington são frágeis, o que aumenta a gravidade da decisão militar.
O risco imediato: bases americanas na região
Embora o Irã não tenha capacidade de atingir diretamente os Estados Unidos, Loureiro destaca que o país possui um arsenal sofisticado de mísseis de curto e médio alcance.
Esses armamentos podem atingir:
- Bases dos EUA no Iraque
- Instalações militares na Jordânia
- Bases no Bahrein
- Estruturas nos Emirados Árabes Unidos
- Presença militar na Arábia Saudita
- O próprio território israelense
Segundo o professor, já há sinais de retaliação iraniana.
O risco, portanto, não é apenas bilateral. É regional e com potencial de transbordamento.
Petróleo é o centro da disputa?
O Irã é um dos grandes produtores mundiais de petróleo, com reservas expressivas. A pergunta é inevitável: há interesse energético por trás da ofensiva?
Felipe Loureiro afirma que não se pode descartar o fator econômico, mas considera que ele não é o elemento central.
Para o professor, o núcleo da crise envolve:
- A inimizade histórica entre EUA e Irã desde 1979;
- O fortalecimento da aliança entre Trump e o primeiro-ministro de Israel, Benjamin EUA, Israel e Irã: o que está em jogo no novo confronto que preocupa o mundo
- A oposição de Israel ao programa nuclear iraniano, que Teerã afirma ser pacífico.
Ele ressalta que a comparação com episódios como a Venezuela não se sustenta:
“Não há nenhum indício de que o regime iraniano vá se render facilmente. A perspectiva é de um conflito longo.”
Um Irã fragilizado — mas resiliente
Segundo Loureiro, o Irã vive talvez seu momento mais frágil desde a Revolução Islâmica de 1979.
O país enfrenta:
- Sanções econômicas severas dos EUA;
- Ataques anteriores contra instalações militares;
- Enfraquecimento de aliados regionais, como Hamas e Hezbollah;
- Protestos internos com repressão violenta.
Há divergência sobre o número de mortos nos protestos recentes:
- Organizações de direitos humanos falam em 20 mil a 30 mil vítimas;
- O regime reconhece cerca de 3 mil.
Mesmo assim, o professor alerta:
“O regime é resiliente. Apenas ataques aéreos não parecem suficientes para provocar uma mudança de regime.”
A questão jurídica: legal ou ilegal?
Felipe Loureiro é categórico:
“A ação norte-americana é absolutamente ilegal sob o ponto de vista do direito internacional.”
Segundo ele, um Estado só pode atacar outro em duas situações:
- Autodefesa após ser atacado;
- Autorização do Conselho de Segurança da ONU.
No caso atual, segundo o professor:
- Não houve ataque prévio do Irã contra os EUA;
- O tema não foi levado ao Conselho de Segurança.
Ele também aponta questionamentos no direito interno americano, já que o Congresso não teria autorizado formalmente a ação.
A política interna de Israel
Após os ataques do Hamas em outubro de 2023, Israel viveu forte radicalização interna. O Irã é visto por grande parte da sociedade israelense como inimigo estratégico.
Para Loureiro, a ofensiva pode fortalecer Netanyahu politicamente:
“A possibilidade de enfraquecer o Irã tem dividendos políticos claros para Netanyahu.”
A reação internacional: mundo dividido
O Brasil divulgou nota condenando os ataques. Na Europa, há divisão:
- Espanha e França condenaram;
- Alemanha e Reino Unido adotaram posição mais cautelosa;
- Austrália e Canadá apoiaram a ação americana.
Loureiro considera contraditória a posição canadense, lembrando que recentemente o país havia defendido o respeito ao direito internacional em fóruns globais.
Um conflito que pode envolver o mundo
A análise do professor da USP aponta para um cenário delicado:
- Risco de guerra regional ampliada;
- Impacto no mercado global de petróleo;
- Polarização diplomática entre potências;
- Fragilização do direito internacional.
Para ele, trata-se de um momento “dramático” para o sistema internacional.
A pergunta central permanece: estamos diante de uma operação pontual ou do início de uma escalada que pode reconfigurar o equilíbrio global?
A resposta ainda está em aberto, e o mundo acompanha com tensão.
Portal Repórter Brasília, Edgar Lisboa