
O Novo Congresso terá de olhar para a indústria e para um Rio Grande do Sul que ainda precisa reconstruir. A eleição terminou. As urnas deram seu recado e começa agora uma etapa que poderá ser decisiva para o futuro econômico do Brasil e, particularmente, do Rio Grande do Sul. Mais importante do que saber apenas quem venceu ou perdeu é acompanhar o que os eleitos farão com o poder recebido dos eleitores.
Influência sobre orçamento
Novo Congresso terá influência direta sobre orçamento, legislação, investimentos e políticas públicas. Para o Rio Grande, essa responsabilidade chega acompanhada de uma realidade que não permite muita espera: reconstruir o que foi destruído pelas enchentes, recuperar a capacidade produtiva e criar condições para que a indústria volte a investir.
A indústria acende o sinal
O alerta veio às vésperas da eleição. Pesquisa da FIERGS divulgada em 30 de setembro mostra que a produção industrial gaúcha caiu em agosto, depois de dois meses de alta, e atingiu 44,2 pontos, o maior recuo de 2026. O emprego industrial completa 15 meses consecutivos de retração. A utilização da capacidade instalada caiu para 69%. Mais preocupante é a disposição para investir. A intenção de investimento recuou para 48,7 pontos em setembro, o menor nível desde julho de 2020. As expectativas para demanda, emprego, compras de matérias-primas e exportações também permanecem abaixo da linha de 50 pontos, indicando cautela dos empresários.
Há recuperação, mas ainda é frágil
O cenário não é de paralisia. A FIERGS projeta crescimento de 2,2% para o PIB gaúcho em 2026 e de 1,7% para a produção industrial. A indústria de transformação poderá exportar US$ 16,9 bilhões no ano. No primeiro semestre, as exportações industriais cresceram 1,4%, alcançando US$ 7,8 bilhões. São números que mostram capacidade de reação. Mas também revelam uma contradição: o Estado consegue produzir e exportar, enquanto parte expressiva do setor produtivo ainda adia investimentos diante dos juros elevados, do crédito restritivo e das incertezas econômicas e internacionais. É nessa diferença entre potencial e realidade que a política terá de atuar.
A bancada gaúcha terá de responder
A nova bancada federal do Rio Grande do Sul chega a Brasília diante de uma agenda que ultrapassa a polarização nacional. No Senado, o Rio Grande também terá renovação nas duas cadeiras que estão em disputa. Paulo Paim e Luis Carlos Heinze não concorrem à reeleição, enquanto Hamilton Mourão mantém mandato até 2031. Independentemente de partidos e posições ideológicas, a pergunta será a mesma: qual será a agenda do Rio Grande em Brasília?
Reconstruir não basta
As enchentes deixaram uma lição que não pode ser esquecida. Reconstruir não significa apenas recuperar pontes, estradas, escolas, empresas e cidades. Significa preparar o Estado para produzir mais e resistir melhor às próximas crises. Isso exige investimentos em infraestrutura, logística, energia, portos, ferrovias, rodovias, tecnologia e inovação. Exige também crédito, segurança jurídica e políticas capazes de estimular a indústria, o agronegócio e as exportações. A indústria gaúcha tem mercados para conquistar. Mas precisa de condições para competir.
Emendas ajudam, mas não resolvem
O fortalecimento do Congresso aumentou também a responsabilidade dos parlamentares sobre o Orçamento. Emendas podem levar recursos para municípios, hospitais e obras importantes. Mas não substituem uma política de desenvolvimento. Um deputado pode ajudar a construir uma obra. Uma bancada articulada pode ajudar a construir uma estratégia para o Estado. E essa diferença será fundamental nos próximos quatro anos.
A eleição acabou. A cobrança começa agora
O cientista político Lúcio Rennó, da Universidade de Brasília, chama atenção para o crescimento da influência do Legislativo sobre as políticas públicas e o Orçamento. A consequência é clara: acompanhar o mandato de deputados e senadores será cada vez mais importante.
Para o Rio Grande, essa cobrança precisa ser objetiva
Quais projetos serão defendidos? Que investimentos virão para o Estado? Como a bancada atuará na reconstrução? O que será feito para estimular a indústria, recuperar empregos, ampliar exportações e criar ambiente para novos investimentos?
As urnas encerraram uma disputa. Mas abriram outra etapa. O desafio agora não é ganhar a eleição. É transformar o voto em resultado. E, para um Rio Grande do Sul que já sofreu demais e ainda precisa reconstruir muito, resultado significa uma palavra que não pode sair da agenda de Brasília: desenvolvimento.
Edgar Lisboa/Portal Repórter Brasília/Jornal do Comércio