Certificado Digital: quando a tecnologia complica em vez de facilitar

Ilustração (Edgar Lisboaa com recursos digitais de IA)

A renovação do certificado digital deveria ser um processo simples, rápido e compatível com a rotina cada vez mais acelerada das empresas. Afinal, toda a justificativa da digitalização dos serviços públicos e privados é justamente reduzir burocracia, economizar tempo e facilitar a vida de empresários e cidadãos.

Na prática, porém, a realidade muitas vezes é outra.

Nos últimos anos, a emissão e renovação dos certificados digitais migraram para sistemas de validação por vídeo. O empresário é obrigado a fotografar documentos, enviar imagens, participar de videoconferências e responder a uma série de perguntas feitas por atendentes remotos. O que deveria durar poucos minutos frequentemente se transforma em uma verdadeira maratona digital.

Não são raros os relatos de empresários que passam 30, 40 ou até 45 minutos diante da tela do computador tentando concluir o procedimento. Em alguns casos, problemas técnicos, falhas na conexão, dificuldades de reconhecimento facial ou exigências adicionais obrigam a repetição de todo o processo em outra data. Há situações em que a gravação precisa ser refeita duas ou três vezes até que a certificação seja finalmente aprovada.

O paradoxo é evidente. Em vez de eliminar a burocracia, a tecnologia acaba criando novas barreiras. O empresário, que deveria estar focado na gestão do negócio, no atendimento aos clientes ou na geração de empregos, vê-se obrigado a reservar parte do seu dia para enfrentar procedimentos que nem sempre funcionam adequadamente.

A digitalização é um caminho sem volta e deve ser comemorada. Mas ela só faz sentido quando reduz etapas, simplifica processos e respeita o tempo das pessoas. Quando uma ferramenta criada para agilizar passa a consumir horas de trabalho produtivo, algo precisa ser revisto.

As autoridades certificadoras, os órgãos reguladores e as entidades representativas do setor precisam discutir alternativas mais eficientes. Segurança é fundamental. Combater fraudes também. Mas não se pode aceitar que a busca por proteção transforme uma simples renovação de certificado em um teste de paciência para quem produz, empreende e movimenta a economia do país.

O Brasil precisa de menos burocracia analógica e também de menos burocracia digital.

Portal Repórter Brasília, Edgar Lisboa