Caiado tenta se firmar como alternativa sem romper com o bolsonarismo

A pré-candidatura de Ronaldo Caiado pelo PSD revela um movimento calculado: criticar o PT, endurecer o discurso sobre segurança e, ao mesmo tempo, tentar ocupar o espaço de uma direita menos conflitiva.

Na prática, no entanto, a estratégia ainda dialoga diretamente com o eleitorado bolsonarista. A defesa de anistia aos condenados pelos atos de 8 de janeiro, somada ao tom crítico ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, aproxima Caiado do discurso de Flávio Bolsonaro, ainda que ele tente se diferenciar pelo argumento da governabilidade.

Discurso de pacificação como eixo central

Caiado aposta na ideia de “encerrar o ciclo da polarização” como seu principal ativo político. Para ele, o desafio não é vencer a eleição, mas governar após o pleito, uma crítica indireta ao ambiente político pós-2018.

O governador sustenta que o país precisa virar a página dos conflitos institucionais e avançar em áreas estruturais como segurança, educação, tecnologia e desenvolvimento econômico. A narrativa é clara: o Brasil estaria preso a um debate estéril, incapaz de gerar resultados concretos para a população.

Anistia e autoridade: a linha tênue

Ao defender a anistia como instrumento de pacificação, Caiado tenta reposicionar um tema altamente sensível. Seu argumento é de que o país não pode permanecer indefinidamente refém dos acontecimentos de janeiro de 2023. Ao mesmo tempo, endurece o discurso ao afirmar que não toleraria novos episódios de desordem sob sua gestão. A combinação entre anistia e autoridade revela uma tentativa de equilíbrio político, mas também expõe uma contradição que tende a ser explorada pelos adversários.

Experiência como argumento eleitoral

Caiado insiste em um ponto central: não se aprende a governar no exercício do cargo. A experiência como governador de Goiás e o alto índice de aprovação são apresentados como prova de capacidade administrativa. A crítica implícita é direcionada a candidaturas que surgem com forte apelo eleitoral, mas pouca experiência executiva. Para ele, a eleição de 2026 exigirá mais do que carisma ou apoio político, exigirá articulação institucional com Congresso, Judiciário e governadores.

Relação com aliados e disputa interna

Mesmo dentro do PSD, o discurso de unidade enfrenta desafios. As divergências com Eduardo Leite evidenciam que a construção da candidatura ainda está longe de ser pacificada. Caiado, no entanto, evita o confronto direto e adota um tom conciliador, reconhecendo a importância de Leite e defendendo o diálogo como caminho. A estratégia é clara: não ampliar fissuras internas em um momento decisivo de consolidação da candidatura.

Palanques e articulação nacional

A montagem de alianças estaduais ainda está em aberto, mas Caiado sinaliza disposição para dialogar com diferentes forças políticas. Em Minas Gerais, admite proximidade com o campo do governador Romeu Zema. Em São Paulo, indica interlocução com Tarcísio de Freitas. A lógica é pragmática: ampliar o alcance eleitoral sem se prender a rótulos ideológicos rígidos, uma tentativa de romper bolhas, como ele próprio define.

O peso da história e a tentativa de comparação

Ao citar Juscelino Kubitschek, Caiado busca associar sua proposta à ideia de reconstrução nacional após períodos de crise. A referência reforça o discurso de pacificação, embora em um contexto político muito diferente do atual.

Entre a moderação e a base conservadora

O desafio de Caiado é evidente: se apresentar como alternativa moderada sem perder conexão com o eleitorado conservador. A retórica contra a polarização convive com pautas e posicionamentos que ainda dialogam diretamente com esse campo político. No fim das contas, sua candidatura se move em uma linha delicada, tentando ser novidade sem romper com a base que hoje domina a direita brasileira.

2026: mais do que vencer, será governar

A principal mensagem do governador é que a eleição de 2026 não pode ser uma revanche de 2022. Ao defender foco em inovação, indústria, energia e oportunidades para a juventude, Caiado tenta deslocar o debate para o futuro, ainda que o presente político continue fortemente marcado pela disputa ideológica. Se conseguirá sustentar esse equilíbrio entre discurso e prática, é o que definirá seu espaço real na corrida presidencial.

A Coluna Repórter Brasília é publicada simultaneamente no Jornal do Comercio, o jornal de economia e negócios do Rio Grande do Sul.

Edgar Lisboa