A Inteligência Artificial destrava a modernização de sistemas ao resgatar regras de negócios perdidas no passado (Tiago Teixeira)

Tiago Teixeira, Gerente de Engenharia de Qualidade de Software da Inmetrics

Em pleno 2026, infelizmente, ainda há muitas empresas com defasagem de anos (às vezes décadas) na documentação e com regras de negócios perdidas em meio a códigos antigos, o que aumenta a urgência pelas modernizações de seus sistemas. Porém, a saída para compensar o atraso não pode ser “modernizar por modernizar” ou “fazê-lo por impulso e sem planejamento”.

O correto é que o primeiro passo seja uma estratégia focada em extrair conhecimento do que já existe (contexto, memória operacional e documentação confiável), ao invés de tentar resgatar as informações manualmente.

É neste momento que a Inteligência Artificial (IA) entra em cena e comprova seu valor de negócio, ajudando a  transformar todo o material em documentação útil e ágil.

O efeito negativo do atraso técnico e a consequente paralisia dos projetos

O custo de manter o passado em funcionamento é alto e limita os recursos que deveriam ser utilizados na inovação.

Se não houver o entendimento do comportamento histórico da tecnologia, as dores do projeto se multiplicam, o que se reflete em  entregas com baixa qualidade e queda de produtividade das equipes, em meio a um volume enorme de demandas repetidas.

O que atrasa, ou impede, a evolução costuma ser a impossibilidade de estimar o esforço para atingir a qualidade necessária.

Por exemplo: uma migração para a nuvem em operações espalhadas por diversos países, envolvendo informações desconexas de registros de pessoas físicas e cadastros corporativos. Se isso ocorre em um ambiente sem testes documentados, os indicadores não aparecem devido à falta de dados. Assim, diante de milhares de entregas e unidades de esforço técnico (os chamados story points), essa ausência de contextualização pode gerar a paralisia dos projetos.

Esse exemplo nos ajuda a entender por que tantos programas de modernização apresentam falhas, o que é comprovado por um estudo da McKinsey. A consultoria observou que converter código antigo diretamente para novas linguagens não resolve a raiz do problema e ressaltou que a modernização precisa ser orientada por valor de negócio acima da orientação por tecnologia.

A extração de regras de negócio com uso da IA

Para destravar as operações, o mercado exige o uso da IA como uma ferramenta capaz de analisar os requisitos. A lógica é a seguinte: a partir dos dados de origem, aplica-se IA para revisão do histórico com foco em testabilidade e riscos; e, por fim, combina-se camadas mais simples com camadas mais avançadas para tarefas complexas que exigem contexto ampliado.

Como resultado, os agentes de IA geram relatórios padronizados e validam a arquitetura elaborando as melhores estratégias de cobertura. A modificação principal é vermos atividades que antes tomavam semanas de esforço, como formatação de scripts automatizados, ganharem aceleração imediata.

Os dados dispersos transformam-se em ativos estruturados e, por sua vez, os profissionais passam a focar seu tempo na estratégia e no refinamento das validações sugeridas pelos modelos para sustentar desenvolvimento, testes e tomada de decisão.

A aplicação dessa estratégia gera impactos operacionais mensuráveis. As empresas que partem de uma base nula de documentação conseguem, em pouco tempo, construir milhares de testes elaborados e automatizar as execuções.

Depois da adoção da estratégia baseada em IA, os processos automatizados certamente ampliam a  base e a  cobertura dos testes executados, o que aperfeiçoa a identificação de possíveis defeitos, a redução de conflitos de produção e, principalmente, amplia a eficiência do uso de dados.

Evoluir a qualidade com documentação é o futuro no uso de IA

Escalar a cultura de qualidade exige diagnóstico correto, processos bem definidos e foco nos resultados para o negócio. Extraindo valor do que já foi construído, as empresas readquirem a velocidade necessária para maximizar o retorno sobre seus investimentos e impulsionar a criação de produtos digitais mais consistentes.

Portanto, em vez de tentar reescrever a história da empresa manualmente, o caminho para a modernização é combinar memória recuperada, processo e uso pragmático de IA, permitindo que as empresas extraiam o “conteúdo que  está vivo”.

Tiago Teixeira, Gerente de Engenharia de Qualidade de Software da Inmetrics