O segundo turno passa pelo Rio Grande

Foto montagem: Luciano Zucco – Crédito: Bruno Spada/Câmara dos Deputados/ Ubiratan Sanderson – Crédito: Luís Macedo/Câmara dos Deputados/ Marcel Van Hattem – Foto: Mário Agra/Câmara dos Deputados

Lula e Flávio Bolsonaro voltam às urnas, enquanto a vitória de Luciano Zucco no primeiro turno transforma o Rio Grande do Sul em território estratégico da disputa presidencial. O Brasil acorda depois das urnas sabendo que a eleição presidencial ainda não terminou. Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro terão mais algumas semanas para convencer um eleitorado que mostrou, mais uma vez, um país politicamente dividido. A diferença agora é que cada voto conquistado fora das bases tradicionais poderá decidir quem comandará o Palácio do Planalto a partir de 2027. O segundo turno foi matematicamente confirmado pelo TSE ainda durante a apuração.

Flávio terminou a primeira rodada à frente de Lula, mas sem alcançar a maioria absoluta necessária para liquidar a disputa. É uma eleição que entra em nova fase. Lula precisa recuperar terreno, reagrupar a esquerda, atrair o centro e convencer o eleitor que rejeita o bolsonarismo, mas não necessariamente está satisfeito com seu governo. Flávio, por sua vez, precisa transformar a liderança obtida no primeiro turno em maioria, ampliando sua votação para além do eleitorado identificado com a família Bolsonaro.

O peso do Rio Grande

No Rio Grande do Sul, entretanto, as urnas produziram uma mensagem mais definida. Luciano Zucco conquistou o Palácio Piratini no primeiro turno. Com 100% das urnas apuradas, recebeu 3.516.048 votos, correspondentes a 58,05% dos votos válidos. Não é um resultado isolado. O PL dobrou sua representação na Assembleia Legislativa, passando de seis para 12 deputados e tornando-se a maior bancada da Casa. Para completar o desenho, Sanderson, do PL, e Marcel van Hattem, do Novo, conquistaram as duas cadeiras gaúchas em disputa no Senado.

Surge, portanto, uma nova configuração de poder no Estado. Zucco chega fortalecido ao segundo turno presidencial e poderá funcionar como importante cabo eleitoral de Flávio Bolsonaro. A vitória no primeiro turno oferece ao PL uma estrutura política que provavelmente será mobilizada nas próximas semanas. Do outro lado, a esquerda também reorganiza suas forças. Juliana Brizola, derrotada na disputa pelo Piratini, já convocou sua militância a concentrar esforços na campanha de Lula. O Rio Grande volta, assim, à campanha.

Depois das bandeiras

Existe, porém, uma questão maior para os gaúchos. Quem assumir a Presidência encontrará um Rio Grande do Sul que ainda precisa de Brasília. Reconstrução, infraestrutura, prevenção de novos desastres climáticos, dívida estadual, competitividade industrial, crédito ao agronegócio, logística e investimentos continuarão sobre a mesa depois que as bandeiras eleitorais forem recolhidas. Se Flávio vencer, Zucco terá no Planalto um presidente de seu próprio partido. Politicamente, isso poderá facilitar interlocuções, mas não elimina divergências federativas nem garante recursos automaticamente. Se Lula for reeleito, governador e presidente estarão em campos adversários. Nesse cenário, ambos terão de demonstrar capacidade institucional para separar eleição de administração. É aí que estará o verdadeiro teste.

Um Estado acima da eleição

Zucco afirmou, depois de eleito, que pretende governar também para quem pensa diferente. A declaração ganha importância diante do segundo turno. O governador eleito tem legitimidade para defender seu candidato presidencial. Mas, encerrada a eleição, terá igualmente a responsabilidade de sentar à mesa com quem estiver no Palácio do Planalto.

O mesmo valerá para Lula ou Flávio.

O Rio Grande do Sul sofreu demais nos últimos anos para transformar divergências partidárias em barreiras administrativas. O Estado precisa de investimentos, reconstrução e desenvolvimento, independentemente da coloração política de Brasília. Até o segundo turno, haverá campanha, confronto e disputa por votos. Depois dele, será hora de governar. As urnas gaúchas deram força à direita e entregaram a Zucco um mandato expressivo. As urnas nacionais adiaram a decisão entre Lula e Flávio Bolsonaro. Agora começa outra eleição. E, para o Rio Grande, mais importante do que saber quem vencerá será descobrir se vencedores e derrotados estarão preparados para trabalhar juntos quando a campanha terminar.

Edgar Lisboa/Portal Repórter Brasília/Jornal do Comércio