De onde venho? Para onde vou? (Luiz Nolasco de Rezende Junior)

Luiz Nolasco de Rezende Junior/Divulgação

Terminou a Copa do Mundo e os melhores triunfaram. A Espanha conquistou o título com mérito, apresentando um futebol equilibrado entre defesa e ataque. Superou todos os seus adversários, sofreu apenas um gol e sagrou-se campeã da Copa do Mundo FIFA 2026.

O curioso é que, quando comparamos esse triunfo esportivo com a lógica da fé cristã, percebemos que os dois discursos seguem caminhos distintos. O esporte celebra, legitimamente, o mais rápido, o mais forte e o mais eficiente. A fé cristã, porém, apresenta outra lógica: nela, o menor será o maior; o pobre será rico; o último será o primeiro…
Não há qualquer demérito no triunfo esportivo. O esporte vive da competição e do mérito. A diferença está em que a fé cristã não mede a vitória pelos mesmos critérios. Ainda assim, algumas comunidades influenciadas pela Teologia do Domínio e pela Teologia da Prosperidade acabam compreendendo a fé como instrumento de exaltação pessoal, de conquista de poder ou de triunfo sobre aqueles que lhes fazem oposição.
Mas seria, então, a fé sinônimo de derrota, fraqueza ou pobreza? Evidentemente que não. A fé — em especial a fé cristã — está fundamentada em outra compreensão da realidade, não limitada ao plano imanente, mas orientada pela transcendência.
Para compreender o conceito cristão de vitória, julgo necessário responder a duas perguntas fundamentais: de onde eu venho e para onde eu vou? Para ilustrar essa ideia, recorro a duas referências bastante distintas: o clássico O Peregrino (The Pilgrim’s Progress) e o Hino da Força Expedicionária Brasileira (FEB), da Segunda Guerra Mundial.
O Peregrino, escrito por John Bunyan e publicado pela primeira vez em 1678, é considerado, depois da Bíblia, uma das obras mais lidas da tradição cristã. A obra narra a caminhada de um personagem chamado Cristão rumo à Cidade Celestial. Ao perceber que sua cidade caminhava para a destruição por rejeitar as verdades do Rei, ele compreende que precisa atravessar a Porta Estreita, levando consigo o pesado fardo de sua consciência e de toda a vida que havia vivido até então.
Como indica o próprio título original, o livro descreve o progresso da fé cristã em meio às adversidades que procuram impedir o peregrino de alcançar seu destino. Seu objetivo permanece o mesmo durante toda a jornada: chegar à Cidade Celestial e contemplar o Rei face a face.
É justamente aí que encontramos uma compreensão profundamente cristã da vitória. Cristão sabia de onde vinha: de uma existência construída segundo seus próprios desejos e distante da vontade do Rei. Sabia também para onde caminhava. Embora ainda não conhecesse seu destino, confiou na direção que lhe fora revelada e deixou para trás sua antiga condição.
Sua vitória não consistia em ser o mais forte, o mais rápido ou o mais poderoso. Consistia em perseverar no caminho que o Rei lhe mostrara, vencendo, a cada passo, a tentação de abandonar sua peregrinação.
Cristão era alguém como qualquer um de nós: mortal, pecador e inteiramente dependente da misericórdia do Rei para encontrar o verdadeiro Caminho. Sabia de onde vinha e não desejava retornar. Deixara para trás a antiga cidade e caminhava em direção ao seu verdadeiro lar: a Cidade Celestial.
Também o Hino da Força Expedicionária Brasileira — e aqui deixo minha homenagem a esses grandes brasileiros — evoca essa mesma percepção de origem e destino.
“Você sabe de onde eu venho? / Venho do morro, do engenho / Das selvas, dos cafezais […] Das margens crespas dos rios / Dos verdes mares bravios / Da minha terra natal.”
Conta-se que, durante a tomada de Monte Castelo, em 21 de fevereiro de 1945, esse hino era entoado entre os pracinhas. Diante do frio intenso e da posição privilegiada das tropas alemãs, cada avanço custava vidas. Ainda assim, continuavam subindo até conquistar o topo da montanha, abrindo caminho para o avanço das forças aliadas ao norte da Itália.
Quando perguntados por que continuavam avançando, muitos respondiam, em essência, que sabiam que aquele lugar não era sua pátria. Conheciam suas origens e desejavam voltar para casa. Eram estrangeiros em terra alheia, e sua verdadeira vitória seria retornar ao lugar ao qual pertenciam.
A fé cristã também nos torna estrangeiros. Vivemos em um mundo marcado pelo caos, mas pertencemos ao Reino do Rei. Já participamos dele, ainda que sua plenitude permaneça futura. Por isso procuramos viver, desde agora, segundo seus princípios, sabendo que nosso verdadeiro lar continua sendo a Cidade Celestial.
A pergunta, então, permanece diante de cada um de nós:
De onde você vem? Para onde você vai?
A questão decisiva não é apenas quem vence uma disputa, mas quem sabe de onde veio e para onde caminha. Quem conhece sua origem e seu destino enfrenta as batalhas desta vida sem perder de vista a pátria que o espera. É essa a vitória de que fala a fé cristã.
“[…] reconheceram que eram estrangeiros e peregrinos sobre a terra. Os que assim falam mostram que estão buscando uma pátria. Se estivessem pensando naquela de onde saíram, teriam oportunidade de voltar. Em vez disso, aspiravam a uma pátria superior, isto é, a celestial…” (Hebreus 11.13-16).
Luiz Nolasco de Rezende Junior é teólogo e doutor em Educação.