Família Bolsonaro tenta preservar capital político e ampliar presença eleitoral em 2026

Do líder impedido ao projeto familiar

Flavio Bolsonaro e Michelle Bolsonaro (Crédito: Agência Brasil); Eduardo Bolsonaro (Credito: Vinicius Loures/ Câmara dos Deputados); Carlos Bolsonaro (Crédito: Renan Olaz/CMRJ) e Jair Renan Bolsonaro (Crédito: Arquivo Pessoal)

A eleição de 2026 marca uma mudança histórica no campo conservador brasileiro. Pela primeira vez desde 2018, Jair Bolsonaro (PL) não poderá disputar a Presidência da República. Condenado e inelegível, o ex-presidente permanece como principal liderança da direita, mas já não pode converter diretamente sua popularidade em candidatura.

Diante desse cenário, o que se observa é a construção de uma estratégia de ocupação simultânea de espaços políticos pela própria família Bolsonaro. O objetivo parece claro: preservar o capital eleitoral acumulado ao longo dos últimos anos, manter o bolsonarismo como principal força da direita e impedir que outras lideranças ocupem definitivamente esse espaço. A movimentação ocorre em várias frentes.

Flávio assume a missão nacional

No plano nacional, o senador Flávio Bolsonaro tornou-se o principal herdeiro político do pai. A mais recente pesquisa Datafolha mostra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva com 41% das intenções de voto no primeiro turno, contra 31% de Flávio Bolsonaro. Num eventual segundo turno, Lula aparece com 47% e Flávio com 43%. Apesar da vantagem do presidente, os números confirmam que o senador permanece competitivo e consolidado como principal representante do campo bolsonarista.

O dado mais importante talvez não seja a distância entre os candidatos, mas o fato de que Flávio conseguiu manter praticamente intacto o eleitorado construído por Jair Bolsonaro. Ao lançar o filho mais velho como candidato ao Palácio do Planalto, o bolsonarismo envia uma mensagem clara ao eleitor conservador: a liderança permanece dentro da família.

Michelle busca o Senado pelo Distrito Federal

Paralelamente, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro prepara sua candidatura ao Senado pelo Distrito Federal.

Michelle tornou-se um dos nomes mais populares da direita entre o eleitorado feminino e evangélico. Sua presença frequente na televisão e em eventos políticos ajuda a manter ativa a marca Bolsonaro mesmo sem a participação direta do ex-presidente.

A eventual eleição de Michelle ampliaria a presença familiar no Congresso e garantiria uma voz nacional de grande alcance político, a partir da Capital da República onde a concorrência é grande.

Santa Catarina vira laboratório eleitoral

Mas é em Santa Catarina que a estratégia aparece de forma mais evidente. Estado onde Jair Bolsonaro sempre registrou algumas de suas maiores votações, Santa Catarina transformou-se em uma espécie de fortaleza eleitoral da família.

O ex-vereador Carlos Bolsonaro transferiu seu domicílio eleitoral para São José e lançou sua pré-candidatura ao Senado. Ao justificar a mudança, afirmou que foi no estado que “renasceu” politicamente.

A decisão provocou resistências internas no próprio PL, gerou atritos com lideranças catarinenses e alterou alianças tradicionais da direita local. Ainda assim, Bolsonaro insistiu na candidatura do filho, indicando que a ocupação de uma vaga no Senado é considerada estratégica para o futuro do movimento.

Pesquisas recentes mostram que Carlos enfrenta dificuldades e disputa espaço com lideranças locais já consolidadas, como Caroline de Toni e Esperidião Amin.

Jair Renan amplia presença familiar

Outro movimento ocorre com Jair Renan Bolsonaro, o filho mais novo do ex-presidente, Jair Renan. Eleito vereador em Balneário Camboriú, um dos principais redutos bolsonaristas do país, Jair Renan busca consolidar sua trajetória política em Santa Catarina. Embora ocupe um cargo local, sua presença reforça a ideia de construção de uma base permanente da família no Sul do Brasil.

Eduardo permanece ativo dos Estados Unidos

Mesmo fora do país, Eduardo Bolsonaro continua participando da estratégia política familiar.

Condenado pelo STF a quatro anos e dois meses de prisão e declarado inelegível por oito anos, Eduardo permanece nos Estados Unidos e corre risco de prisão caso retorne ao Brasil. Sem poder disputar cargos eletivos, passou a atuar como articulador internacional e defensor da candidatura presidencial do irmão Flávio.

O desafio para a direita

A estratégia da família Bolsonaro possui uma vantagem evidente: preservar uma marca eleitoral que continua mobilizando milhões de brasileiros.

Mas também produz um efeito colateral importante. Ao concentrar as principais candidaturas dentro da própria família, reduz o espaço para outras lideranças conservadoras nacionais, como Ronaldo Caiado, Romeu Zema e outros nomes que tentam se apresentar como alternativa ao lulismo.

A disputa de 2026, portanto, não ocorre apenas entre Lula e o bolsonarismo. Ela acontece também dentro do próprio campo da direita.

A grande questão é saber se o eleitor conservador continuará enxergando a família Bolsonaro como única representante legítima desse segmento político ou se começará a abrir espaço para novas lideranças. Por enquanto, os movimentos eleitorais indicam que Jair Bolsonaro, mesmo afastado das urnas, continua determinado a influenciar diretamente o futuro da direita brasileira.

A Coluna Repórter Brasília é publicada simultaneamente no Jornal do Comercio, o jornal de economia e negócios do Rio Grande do Sul.

Edgar Lisboa