
Em entrevista concedida aos jornalistas Milton Jung e Cássia Godoy, no Jornal da CBN desta quarta-feira, o CEO do Grupo Pão de Açúcar (GPA), Alexandre Santoro, comentou as medidas adotadas pela companhia para reorganizar sua estrutura financeira por meio de um processo de recuperação extrajudicial.
Segundo Santoro, a iniciativa busca renegociar dívidas financeiras sem afetar a operação cotidiana da empresa, preservando lojas abertas, fornecedores e empregos.
Alexandre Santoro, a recuperação extrajudicial suspende pagamento, permite renegociar dívida com parte dos credores, vocês dizem que as lojas permanecerão abertas. O que garante ao mercado e aos consumidores que essa medida não é apenas um adiamento de uma crise ainda maior e daqui três meses, 90 dias, se perceba que as ações terão de ser mais drásticas?
Santoro: A intenção de uma recuperação extrajudicial é justamente você limitar claramente o perímetro dessa ação. Então a gente está falando aqui de dívidas financeiras não operacionais, nas quais a gente já está engajado na conversa com 46% dos credores. A gente precisa de 50% mais um para ter o acordo final, mas tem esse prazo normalmente de até nove meses.
E o que eu acho que é o mais importante é que é uma recuperação, repito, de dívidas financeiras não operacionais e está totalmente fora desse perímetro o dia a dia do nosso negócio. Ou seja, a relação com os nossos fornecedores, a relação com os próprios funcionários, a operação das lojas. Então esses são assuntos completamente segregados e por isso a decisão de ir por uma recuperação extrajudicial.
Porque ela te permite isolar exatamente o perímetro e a abrangência que você tem que ter tempo para fazer essas negociações e, em paralelo, a operação segue rodando normalmente.
Nesse momento, essa reestruturação vai implicar em demissões?
Santoro: Não, absolutamente não, Cássia. É exatamente o oposto. Eu gosto de dar esse exemplo nesse momento. Eu acabei de tomar café aqui em uma das nossas lojas. Se vocês forem, qualquer um dos nossos ouvintes que for a uma loja neste momento vai ver funcionando normalmente: clientes chegando, clientes saindo, produtos sendo repostos nas gôndolas, caminhão chegando para abastecer as lojas.
Ou seja, esse dia a dia não tem absolutamente nenhuma alteração. É por isso, volto a repetir, que foi definido esse desenho de uma recuperação extrajudicial, que nos permite exatamente isso: a gente tem tempo para agora organizar a questão financeira não operacional da companhia e, em paralelo, a gente preserva o nosso dia a dia, principalmente a experiência dos nossos clientes.
Se a operação continua gerando caixa, por que o modelo financeiro se tornou insustentável?
Santoro: Milton, essa é uma excelente pergunta. Tem uma série de fatores que levam a uma situação como essa. A razão específica de ter se entrado agora é que existem vencimentos relevantes de dívidas e algumas obrigações no curso, em um curtíssimo prazo da companhia.
Isso desbalanceia a estrutura de capital da companhia, que é consequência de uma série de fatores que aconteceram ao longo dos anos. É muito difícil precisar um fator específico. Não teve um fator único, mas a conjunção de situações que levaram a você ter um desequilíbrio entre a sua dívida, essas obrigações financeiras não operacionais e a capacidade de geração de caixa operacional da companhia.
O grupo Pão de Açúcar vai conseguir resolver essa situação e entrar novamente em um momento de maior conforto financeiro?
Santoro: Olha, a gente tem exatamente esse prazo de 90 dias, Cássia, onde a gente já está bastante engajado. No fato relevante divulgado ontem a gente explicita isso: que já tem o consentimento de 46% dos credores, então a gente já fala com mais do que isso, na verdade.
Estamos numa mesa agora proativa, acho que todo mundo bastante engajado, principalmente com essa consciência, não só dentro da companhia, mas também dos credores, de que a gente tem um bom negócio.
A companhia tem um negócio saudável, tem milhões de clientes, mais de 37 mil funcionários que fazem o Grupo Pão de Açúcar ser o que é. Isso nos dá muita confiança de que temos um negócio forte. Ele cresce, melhora as margens ao longo do tempo, e a gente tem agora que segregar essa conversa específica da dívida financeira não operacional e encontrar uma solução.
E a gente acredita que vai ter todos os elementos para conseguir isso dentro dos próximos meses, até dentro de um prazo menor que os 90 dias.
A meta é o quê? Estender o prazo de pagamento dessas dívidas e também buscar algum aporte na empresa?
Santoro: Milton, nesse momento é uma mesa de negociação onde existem vários cenários. Eu não posso antecipar porque justamente existem várias alternativas na mesa que estão sendo discutidas com muita celeridade e tranquilidade entre nós, os credores e também os demais envolvidos.
A questão é apenas financeira ou existe também um desafio no modelo de negócio que precisa ser repensado hoje?
Santoro: Não, a gente tem um modelo, dentro do nosso portfólio de marcas e posicionamento, que está muito bem colocado. Temos a marca Pão de Açúcar, que atende um segmento um pouco diferente do Extra, o que nos ajuda a alcançar perfis de consumidores bastante distintos.
A localização das nossas lojas é muito boa, temos clientes muito fiéis. Temos também o modelo de proximidade, que é o Minuto Pão de Açúcar e o Mini Extra, que atendem uma ocasião de consumo diferente.
Sem contar também o próprio e-commerce, que hoje representa praticamente 10% das nossas vendas através dos meios digitais. Então eu diria que estamos muito bem posicionados.
Temos parceiros muito fortes. Os fornecedores são parceiros extremamente importantes para o Grupo Pão de Açúcar. Todos esses canais que possuímos são muito relevantes também para a indústria.
É claro que sempre existem oportunidades de melhorar a operação e a experiência do cliente, mas entendemos que estamos muito bem posicionados. Os resultados operacionais, quando observamos a evolução de margens e as melhorias que temos feito, confirmam isso.
E vocês confirmam a informação de que o grupo está avaliando um aporte de até 700 milhões de reais?
Santoro: Esse número eu te digo que não sei exatamente de onde veio, Milton. Existe uma série de discussões acontecendo, mas posso afirmar que essa discussão com esse número específico ainda não está na mesa.
Fica difícil entender como um grupo como esse entra com uma recuperação extrajudicial e, ao mesmo tempo, diz que não haverá impacto nas lojas, nem demissões, nem fechamento ou mudança do mix de produtos. Como isso é possível?
Santoro: Ótimo ponto, e obrigado por me dar essa oportunidade de esclarecer. Entra em recuperação extrajudicial justamente porque você negocia um grupo muito claro de credores, um perímetro muito claro, que é o caso dos credores financeiros não operacionais.
Isso demonstra que o que existe na companhia não é um problema operacional no dia a dia dela. Ela tem um problema de desequilíbrio entre o tamanho da dívida e os vencimentos que possui, e a sua própria geração de caixa.
Não quer dizer que ela não gere caixa, nem que a operação não seja positiva. Pelo contrário. Existe um reconhecimento de um desequilíbrio entre essa geração de caixa e esses compromissos financeiros.
Então a recuperação extrajudicial entra justamente para preservar a operação, dado que ela é positiva, que tem milhões de clientes e 37 mil funcionários, volto a reforçar que operam e operam muito bem.
É uma ferramenta para você conseguir isolar exatamente esse ponto e readequar esse passivo, essas dívidas, à geração operacional de caixa. Essa é uma medida legal, prevista em lei, justamente em situações como essa, onde você busca reequilibrar a estrutura de capital da companhia.
E para fechar essa nossa conversa, como o atual cenário econômico do país ajuda ou atrapalha nesse processo?
Santoro: A gente trabalha com o cenário existente. A gente se adapta a essa realidade. É claro que o cenário atual de juros coloca uma pressão adicional, porque as taxas impactam diretamente na despesa financeira.
Mas esse é o dado neste momento. Então estamos trabalhando em cima da realidade que temos e encontrando, junto com os credores, a solução.
Milton Jung: Só fiquei na dúvida: se ajuda ou atrapalha
Santoro: É a realidade. E tratamos a realidade com muito pragmatismo.
Portal Repórter Brasília, Edgar Lisboa