Brasília em ano eleitoral: quando a guerra lá fora vira munição aqui dentro

Senado (Crédito: Andressa Anholete, Agência Senado)

A primeira metade de 2026 tende a ser menos sobre “aprovar projetos” e mais sobre selecionar símbolos. Em ano eleitoral, o Congresso procura vitrines: temas que cabem em slogan, rendem vídeo curto e produzem a sensação de entrega. É por isso que segurança pública, fim da escala 6×1 e combate ao feminicídio aparecem como prioridades repetidas na abertura do ano legislativo, não por acaso, são assuntos que dialogam com a vida real e com o humor das ruas.

A pauta “para o eleitor ver”

A PEC da Segurança Pública (18/2025) virou o grande palco de março: comissão especial se movimenta, relatório entra na roda e a promessa é vender “integração” contra o crime organizado como resposta objetiva ao medo cotidiano.
Em paralelo, o debate trabalhista, com a bandeira da escala 6×1, serve como termômetro social e divide bancadas sem exigir, necessariamente, um consenso técnico profundo: basta o suficiente para cada lado carimbar sua posição na campanha.

A guerra fria doméstica da IA

Enquanto o plenário disputa as manchetes “populares”, existe uma pauta silenciosa com impacto estrutural: o marco legal da Inteligência Artificial (PL 2.338/2023). Aqui, o Congresso decide se o Brasil regula a IA como política de Estado, com limites e responsabilidades, ou se terceiriza o futuro para a improvisação do mercado e para decisões fragmentadas do Judiciário. Em 2026, isso vira disputa de poder: quem manda no algoritmo, manda na economia e na política.

O pacote das CPIs: INSS e Banco Master

Mas a agenda de “entregas” convive com a agenda do desgaste. A CPMI do INSS segue como máquina de atrito: fraude, consignado, responsabilizações e um tema que atinge em cheio o eleitor mais sensível a renda e dignidade, aposentados e pensionistas.
E, no subsolo de Brasília, o Banco Master virou sinônimo de constrangimento público e disputa interna. A frase de Valdemar Costa Neto — de que uma CPI “pode virar o mundo de ponta-cabeça” e “atingir meio mundo” — resume o medo difuso de que a investigação não pare onde começou.

Nesse ambiente, aparecem também as histórias que conectam dinheiro, influência e campanha. A mais rumorosa do dia envolve o uso de aeronave ligada a Daniel Vorcaro por lideranças políticas durante o segundo turno de 2022, em caravana pró-Bolsonaro, informação atribuída à coluna de Malu Gaspar, repercutida por veículos. Não é detalhe folclórico: é o retrato de como relações de bastidor funcionam como infraestrutura política.

A guerra lá fora e a narrativa aqui dentro

Como se não bastasse a temperatura doméstica, a política externa virou tema interno com força. O governo Lula condenou os ataques dos EUA e de Israel ao Irã, defendendo negociação e pedindo contenção, e essa posição vai reverberar no Congresso, porque a oposição tende a ler qualquer condenação como alinhamento automático, enquanto a base tentará vender como “doutrina histórica” de solução diplomática.
A escalada, porém, saiu da retórica: bases americanas passaram a ser atacadas pelo Irã em países da região, ampliando o risco de uma guerra de múltiplos tabuleiros e pressionando preços, rotas e alianças.

Duelo de três camadas

O primeiro semestre, portanto, será um duelo de três camadas: vitrine eleitoral (segurança, 6×1, feminicídio); agenda estrutural (IA, comércio internacional); agenda-bomba (CPIs, Banco Master, INSS), capaz de sequestrar qualquer calendário.

E, por cima de tudo, um mundo em chamas: quando mísseis e bases entram no noticiário, o Congresso brasileiro faz o que sempre fez em ano eleitoral, transforma crise global em argumento local, e argumento local em voto.

A Coluna Repórter Brasília é publicada simultaneamente no Jornal do Comercio, o jornal de economia e negócios do Rio Grande do Sul.

Edgar Lisboa