
O ano começou com um fato de alto impacto geopolítico e consequências ainda incertas para a América do Sul. A ação militar dos Estados Unidos contra a Venezuela, que resultou na retirada forçada do presidente Nicolás Maduro e da primeira-dama Cilia Flores, inaugura um cenário inédito na região nas últimas três décadas. Para Maurício Santoro, Professor de Relações Internacionais e Colaborador do Centro de Estudos Político Estratégicos da Marinha, o episódio não foi improvisado, mas resultado de uma estratégia construída ao longo de meses.
Ataque já era esperado
Para Mauricio Santoro o ataque já era esperado, “desde agosto do ano passado, há uma concentração de tropas americanas, de navios de guerra, de aviões, na região do Caribe, no litoral venezuelano. Então já havia vários meses que nós esperávamos algum tipo de intervenção militar dos Estados Unidos na Venezuela. E eu me perguntava por que estava demorando tanto, afinal, do ponto de vista técnico, já poderia ter ocorrido esse ataque há muito tempo”.
Sinais de articulação interna
Segundo Maurício Santoro, os acontecimentos das últimas horas ajudam a esclarecer essa demora. “Como os americanos de fato capturaram o presidente Nicolás Maduro e a primeira-dama Cilia Flores, isso revela um nível de preparação, de informação detalhada extremamente sofisticado e provavelmente também algum tipo de acordo e negociação com pessoas da cúpula do regime. Afinal de contas, havia todo um aparato de segurança em torno de Maduro”.
Ruptura histórica na América do Sul
O professor classifica o episódio como um marco grave na história recente da região. “Essa é a primeira vez que há um ataque militar direto dos Estados Unidos contra um país da América do Sul. É o primeiro conflito militar em 30 anos. Se esse conflito se estender por muito tempo, a gente pode ver uma nova crise humanitária na Venezuela, tensões políticas envolvendo toda a região. É um início de ano bastante turbulento e impactante para a América do Sul”, acentuou.
Frente sensível no plano jurídico e institucional
Além do choque provocado pela ação militar, o episódio abriu uma frente igualmente sensível no plano jurídico e institucional. A forma como os Estados Unidos enquadram a operação, somada às declarações de autoridades americanas sobre a possibilidade de julgar Nicolás Maduro em seu próprio território, desloca o debate do campo estritamente militar para uma zona de controvérsia legal, com implicações que extrapolam a Venezuela e atingem o próprio funcionamento das normas internacionais.
Normas internacionais tensionadas
No entendimento do professor de relações Internacionais Mauricio Santoro, “tudo o que tem acontecido nesse conflito da Venezuela é extremamente controverso do ponto de vista do direito internacional das leis domésticas dos Estados Unidos. Os Estados Unidos não reconhecem Nicolás Maduro como o presidente legítimo da Venezuela. Então não houve, por exemplo, uma declaração de guerra formal”. Ele acrescenta: “O governo americano tem tratado a operação como uma ação policial. Só que, em termos práticos, ele é o chefe de Estado da Venezuela, mesmo sendo um governo com enormes problemas de legitimidade e características autoritárias”.
Precedentes perigosos no sistema global
Para o professor, esse tipo de ação abre precedentes globais. “Seria como se a Rússia capturasse o presidente da Ucrânia ou se a China capturasse o presidente de Taiwan. É uma erosão das normas globais e das regras internacionais, com riscos que vão além da América Latina. Nesse ambiente, as reações regionais tendem a refletir a polarização ideológica. Podemos esperar condenações por parte de governos como Colômbia, Chile, Brasil e México, enquanto Argentina, Paraguai, Equador e Peru tendem a se manifestar favoravelmente. O presidente argentino, inclusive, já se manifestou a favor do ataque”.
Limites das instituições
Mauricio Santoro aponta que no campo diplomático, as possibilidades de contenção são restritas. “Em teoria, essa instituição deveria ser o Conselho de Segurança da ONU, um caso típico de reunião de emergência. Mas como os Estados Unidos têm poder de veto, qualquer resolução crítica à intervenção americana será vetada. Outra alternativa seria a Organização dos Estados Americanos (OEA), onde não há poder de veto, mas que também deverá refletir a divisão política da região”.
O fator militar decisivo
Mais decisivo do que as instâncias multilaterais, na avaliação de Santoro, será o comportamento das Forças Armadas venezuelanas. “Embora seja um regime civil, os militares são absolutamente fundamentais para a manutenção do chavismo. Hoje é muito mais um regime coletivo dos militares do que uma liderança carismática individual”.
A base fardada do chavismo
Para o professor de relações Internacionais a força política dos militares na Venezuela é fruto de um processo longo. “O chavismo nasce, nos anos 1990, como uma aliança entre militares, movimentos sociais e pequenos partidos de esquerda. Desde a eleição de Chávez, em 1999, as forças armadas tornaram-se centrais no projeto de poder”.
O inchaço do poder militar
Mais do que uma estrutura de defesa, as Forças Armadas venezuelanas tornaram-se, ao longo do chavismo, um eixo central de sustentação política e econômica do regime. Esse processo, segundo Maurício Santoro, explica por que o poder militar extrapolou os quartéis e passou a ocupar espaços estratégicos do Estado. “Ao longo desses 27 anos, houve uma inflação enorme do número de oficiais-generais. Para efeito de comparação, os Estados Unidos têm cerca de 800 generais; a Venezuela, mais de dois mil. Não há justificativa militar para isso, mas há uma justificativa política. Os militares passaram a controlar setores estratégicos da economia, como a indústria petrolífera, além de outras áreas-chave. Esse poder se sustenta em redes de lealdade, corrupção e enriquecimento ilícito. Essas pessoas não estão dispostas a abrir mão desse poder facilmente e também temem julgamentos em um eventual governo de oposição”.
Narcoterrorismo como estratégia
Outro elemento central da ofensiva americana é o uso do conceito de “narcoterrorismo”. Para Santoro, trata-se de uma construção jurídica deliberada. “Essa retórica não é apenas semântica. Ela cria uma brecha para o uso das forças armadas em operações que, em tese, seriam policiais. Ao classificar cartéis como organizações terroristas e líderes latino-americanos como chefes desses grupos, o governo Trump evita declarar guerra ou pedir autorização ao Congresso. A estratégia, no entanto, gera forte controvérsia, inclusive dentro das Forças Armadas dos Estados Unidos”.
Interesses além da segurança
Mauricio Santoro afirma que o conflito também envolve interesses estratégicos mais amplos. “A Venezuela é relevante por sua riqueza petrolífera e mineral e pelo impacto da crise migratória, que levou milhões de venezuelanos ao exterior, muitos deles aos Estados Unidos. Esse grupo se tornou politicamente relevante, especialmente na Flórida, e integra a base de apoio do governo Trump. Soma-se a isso a disputa geopolítica com China e Rússia, países com forte presença na Venezuela. O ataque, nesse contexto, funciona como um recado claro: a América Latina segue sendo tratada por Washington como área de segurança nacional”.
Opinião pública dividida
O professor acentua que apesar da dimensão da operação, o apoio interno nos Estados Unidos é limitado. “Pesquisas mostram rejeição, inclusive entre apoiadores de Trump, tradicionalmente críticos a guerras prolongadas”. Ele acrescenta: “Na América Latina, sobretudo entre venezuelanos no exterior, a percepção é distinta, o que reforça a divisão da opinião pública”.
Dúvidas no campo militar
O professor Mauricio Santoro enfatiza que a grande incógnita permanece sendo a reação dos militares venezuelanos. “A quase ausência de defesa antiaérea durante os ataques levanta dúvidas que seguem sem resposta. Pode ter sido falha técnica, colapso de recursos ou até algum tipo de acordo político. Neste momento, tudo é possível”.
A incógnita militar
Com a operação militar consumada, todas as atenções se voltam agora para a postura das Forças Armadas venezuelanas. É ali, nos quartéis, que se encontra a principal variável capaz de definir os próximos capítulos da crise.
Portal Repórter Brasília, Edgar Lisboa/Fonte: CBN