Mãe bate (Josué Silva)

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Josué Silva/Divulgação

Mãe é amor, carinho, aconchego e ternura. Sim.

Mãe não bate, não corrige, não disciplina. Não.
Eu não sei você, mas eu sou fruto de uma família matriarcal. Nela, sabemos, a mãe cuidava da casa e dos filhos. A autoridade de disciplinar, em primeira instância, estava sobre ela. O pai também ajudava na educação dos filhos, claro, todavia sua missão maior era suprir a casa. Ele era o único provedor.
Como a mãe ficava a maior parte do tempo com os filhos, ela os disciplinava mais que o pai que só era chamado a este mister quando ela o acionava, o que acontecia, via de regra, quando a coisa estava feia.
Era comum a mãe dizer: “Vou falar para seu pai, ouviu?” “Quando seu pai chegar, vou dizer o que você fez na escola hoje. Eu já falei com você, mas você não muda. Agora seu pai vai “falar” com você.” Nessas horas, o filho ficava pianinho, ou seja, não dava um pio e se punha a imaginar como ia ser a “conversa” que o pai ia ter com ele.
Também não sei você, mas eu e meus irmãos apanhamos muito de nossa mãe. Eram surras, às vezes, engraçadas. Não doía quase nada. Era mais barulho do que dor. Sei de uma mãe que, quando batia nos filhos, falava: “Toma! Viu? Olha! Toma de novo! Viu? Doeu? Então vamos lá novamente. Toma! Viu! Olha!” Os filhos se continham para não rirem no momento da surra. Faziam de conta que estava doendo para não ofenderem a mãe. Quando saiam da sessão de taca, riam à larga comentando uns com os outros.
Quando o pai batia, era diferente. Não é que doía muito. O fato é que doía muito mais que quando a mãe batia. Por isso era bom apanhar da mãe e não do pai.
Naquela época, não me lembro de saber de mãe que espancava o filho ou a filha. Sinceramente, não me lembro. Agora, de pai que espancava o filho ou a filha, eu me lembro de haver ouvido. Felizes eram os filhos, as filhas cujo pai não os espancavam.
Era, então, comum, apanharmos de nossas mães e as mães batiam mesmo nos filhos. Batiam neles para que a polícia neles não batesse mais tarde. Batiam neles para que a vida neles não batesse tanto mais tarde. Quem nunca apanhou da vida? Apanhar da vida não é o problema. O problema é apanhar o tempo todo da vida. É apanhar sem parar da vida. É não aprender apesar das constantes surras da vida.
Lembro-me de uma vez que minha mãe me bateu chorando. Ela dizia que aquelas varadas que ela estava me dando doíam mais nela que em mim. Eu havia furtado umas balinhas em um mercado próximo a nossa casa. Na verdade, as varadas não doeram nada em mim como não doíam nas outras surras, entretanto, suas lágrimas doeram muito em mim. Queimaram mais o meu rosto envergonhado pelo que fiz do que no dela.
Sou da época em que os filhos se ajoelhavam para apanhar dos pais. Ajoelhados, que defesa eles tinham? Estavam entregues, submissos. O ato de se ajoelhar já era corretivo, já ensinava muito. Às vezes, mais que a surra, a disciplina com vara. O filho ou a filha, ali, ajoelhado(a), era o momento de pensar no que fizera e aprender a não fazer mais, ainda que fosse para não envergonhar mais a mãe e o pai.
Valorosas surras! Gostosas surras! Quanto elas ajudaram tantos filhos, tantas filhas! Quantos tiveram rumo na vida por causa delas! Quantos se perderam na vida porque lhes faltaram surras como aquelas! Quanto agradeço a minha mãe por todas as surras que ela me deu!
A surra precisa doer muito? Na verdade, não precisa doer muito para que surta os seus devidos fins. Quando dói no justo ponto, pode atingir mais rapidamente o objetivo pretendido. Quando dói demais da conta, pode promover revolta na pessoa que apanha.
Minha mãe não ficava somando episódios para dar uma surra que valesse por todos eles. Ela corrigia em cima da bucha, na hora que o fato acontecia. Mãe de dez, sete homens e três mulheres, sempre encontrou tempo para corrigir o filho, a filha que precisava de correção na hora da transgressão.
Para quem advoga que mãe não deve bater, o que é que está acontecendo em várias partes do mundo hoje em relação às variações climáticas? O que é que está acontecendo no sul de nosso país hoje? A mãe natureza está batendo. Como ela tem muita força, pequenas pancadas dela doem muito.
Seus filhos a estamos agredindo, desrespeitando, ofendendo. Ela está gemendo, como diz o apóstolo Paulo escrevendo aos romanos (Rm 8.22). Está doendo mais nela do que em nós, mas ela está batendo com o fito de que aprendamos a protegê-la, respeitá-la, honrá-la.
No geral, toda mãe bate por amor. Bate para que os filhos aprendam e não errem mais. Mãe que bate para maltratar, humilhar, arrebentar, destruir o filho é mãe desnaturada. E desnaturada a mãe natureza nunca foi e jamais será.
A mãe natureza é amor, carinho, aconchego e ternura, não obstante, ela bate.
Josué Silva é professor, pastor, teólogo, palestrante, conselheiro cristão, master terapeuta de resultados da Terapia de Reprocessamento Generativo (TRG), escritor e membro da Academia Evangélica de Letras do Distrito Federal.

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