
Chad Hesters
Para Chad Hesters, tratar a IA como responsabilidade de um único executivo cria novos silos organizacionais e dificulta transformar investimentos em resultados. Modelo de governança distribuída ganha força entre empresas globais.
A rápida adoção da inteligência artificial nas empresas tem impulsionado a criação de novas funções como um todo, incluindo as executivas – entre elas a de Chief AI Officer (CAIO). O cargo é uma resposta à pressão por acelerar estratégias de transformação digital e capturar valor econômico da IA generativa. Mas centralizar essa agenda em uma única liderança pode ser um erro estratégico para as corporações.
Segundo Chad Hesters, presidente e CEO global da Boyden, consultoria internacional de liderança e executive search, tratar a inteligência artificial como responsabilidade de um único executivo pode limitar a inovação dentro dessas organizações. “A IA é uma capacidade transversal. Ela transforma processos, tomada de decisão e criação de valor em praticamente todas as áreas da empresa”, afirma Hesters. Ele completa: “quando a tecnologia fica concentrada em um único executivo, existe o risco de criar um novo silo organizacional, exatamente o oposto do que a transformação digital exige.”
Investimento em IA cresce, mas retorno ainda é desafio
O debate ocorre em um momento de forte expansão dos investimentos corporativos em inteligência artificial. A consultoria IDC projeta que a tecnologia poderá gerar US$ 19,9 trilhões em impacto econômico global até 2030, o equivalente a cerca de 3,5% do PIB mundial naquele ano.
Apesar desse crescimento, transformar investimentos em resultados concretos ainda é um desafio para muitos negócios. Pesquisa global da McKinsey mostra que 92% das organizações pretendem aumentar investimentos em IA nos próximos três anos, mas apenas 1% afirma ter maturidade suficiente para capturar valor em escala com a tecnologia.
Para Hesters, essa diferença entre investimento e retorno muitas vezes está ligada à forma como a tecnologia é integrada à estratégia corporativa. “Muitas organizações tratam a IA como um projeto de tecnologia, quando na verdade ela exige transformação operacional. Sem mudanças em processos, capacitação, dados e cultura organizacional, a tecnologia dificilmente gera impacto real no negócio”, explica.
O risco dos projetos que não chegam à escala
Outro sinal dessa dificuldade aparece no ciclo de vida das iniciativas de inteligência artificial. O Gartner estima que pelo menos 30% dos projetos de IA generativa serão abandonados após a fase de prova de conceito até o fim de 2025, devido a fatores como qualidade insuficiente de dados, custos elevados e falta de integração com processos de negócio.
Segundo Hesters, a centralização excessiva da agenda de IA pode contribuir para esse cenário. Quando a tecnologia fica concentrada em uma área específica ou em um “czar tecnológico”, iniciativas tendem a priorizar demonstrações técnicas em vez de resolver problemas operacionais concretos.
“O resultado costuma ser uma sequência de pilotos promissores que não conseguem escalar dentro da organização”, conclui.
Governança distribuída ganha espaço nas empresas
Como alternativa, Hesters defende um modelo de governança distribuída da inteligência artificial, no qual diferentes áreas da empresa compartilham responsabilidade pela adoção da tecnologia.
Nesse modelo, áreas como CIO ou CTO lideram infraestrutura, arquitetura de dados, segurança e diretrizes de uso responsável da IA. Ao mesmo tempo, as unidades de negócio assumem protagonismo na identificação e implementação de aplicações práticas, focadas em produtividade, automação e melhoria da tomada de decisão.
Esse modelo reflete uma mudança mais ampla na forma como as empresas estão estruturando suas estratégias de inteligência artificial. Segundo estudo do IBM Institute for Business Value (IBV), 26% das organizações já possuem um Chief AI Officer, mas a tendência crescente é combinar essa função com estruturas colaborativas que envolvem múltiplas áreas da companhia.
Valor econômico depende de adoção ampla
Estudos também indicam que o potencial econômico da inteligência artificial depende diretamente da adoção disseminada da tecnologia dentro das empresas.
Relatório da McKinsey estima que a IA generativa pode adicionar entre US$ 2,6 trilhões e US$ 4,4 trilhões por ano à economia global, especialmente em áreas como engenharia de software, marketing, operações e atendimento ao cliente.
Na avaliação de Hesters, capturar esse valor exige mais do que criar novas posições executivas. “A gestão da inteligência artificial envolve muito mais do que tecnologia. Ela exige colaboração entre estratégia, tecnologia, jurídico, compliance, dados e recursos humanos”, afirma. Ou seja, a empresa que realmente vai capturar valor com IA é aquela que distribui a capacidade de inovar por toda a organização.
Sobre a Boyden
Fundada em 1946, a Boyden é uma das pioneiras globais em executive search e consultoria de liderança. Presente em mais de 45 países, a empresa opera sob o conceito de boutique global, combinando alcance internacional, profundo conhecimento local e atuação personalizada junto a conselhos, CEOs e acionistas.