
“Eu não vou mais trabalhar, só vou criar galinha” é o refrão de uma música que fez sucesso nos anos noventa do século passado. Lançada em 1992 pelo grupo Golden Boys, a música é uma crítica bem-humorada à rotina cansativa dos trabalhadores. Fala do labor diário como uma guerra, e do trabalhador que sonha ganhar na loteria para poder dizer: “Eu não vou mais trabalhar, só vou criar galinha”.
Essa música me lembra outra guerra e outro animal doméstico. A guerra é a discussão política na internet. Qualquer que seja o assunto nas páginas das redes sociais, a conversa é levada para a disputa entre direita x esquerda, bolsonarismo x petismo, comunismo x fascismo, e aí a coisa desanda. Ainda que se trate de viagens, comida ou gramática sempre há alguém que diz “Ah, mas o Bolsonaro…” ou “Ah, mas o Lula…”. E essa discussão acaba descendo para o mais baixo nível de civilidade e passa para xingamentos pessoais.
Só há um tema sobre o qual os comentários são unânimes e pacíficos: gatos. As páginas sobre gatos são como recantos de paz no meio dessas batalhas discursivas. Nessas páginas ninguém pensa em políticos corruptos, ideologia de gênero ou tentativa de golpe. Ante as imagens de gatinhos, as pessoas deixam falar seus sentimentos mais puros. Podem ser gatos travessos ou molengas, espertos ou abobalhados, fofinhos ou ferozes que as manifestações são sempre bondosas, acompanhadas por coraçõezinhos, palminhas, suspiros e sorrisos. E essas páginas têm milhares de seguidores.
Na relação com os humanos, os gatos se tornaram sinônimos de afeto. Por isso, estão sendo os animais de estimação preferidos. Pesquisas demonstram que os gatos domésticos proporcionam momentos de relaxamento para seus tutores, e a interação com eles pode reduzir o estresse e a ansiedade, promovendo a sensação de bem-estar. Sei como é isso porque tenho dois deles. É atribuída ao teólogo, músico e médico alemão Albert Schweitzer a frase: “Existem duas maneiras de nos refugiarmos das agruras da vida: a música e os gatos.”
Como sou interessado no estudo da Bíblia, fui ver o que ela diz sobre esses animais. Curiosamente, o livro mais vendido no mundo não fala em gatos domésticos. Apenas gatos selvagens são mencionados e só uma vez (Isaías 34.14) e em poucas versões da Bíblia. Perguntei ao Gemini, a ferramenta de inteligência artificial do Google, sobre essa omissão bíblica, e ele respondeu: “…a ausência dos gatos domésticos na Bíblia provavelmente se deve a uma combinação de fatores culturais (associação com o paganismo), utilitários (não serem animais essenciais para a subsistência na época) e à menor prevalência deles na região de Israel em comparação com outros animais.”
Essas três hipóteses não convencem. A associação dos gatos a religiões pagãs seria motivo para a menção deles na Bíblia, uma vez que ela combate o paganismo. Também não se pode dizer que seriam de menor utilidade. Estudiosos desses felinos afirmam que eles foram domesticados porque caçavam os ratos que atacavam as plantações e os depósitos de cereais e por isso foram acolhidos pelos humanos, que passaram a alimentá-los para contar com seu serviço de caçadores. Por fim, há informações de que a domesticação dos gatos provavelmente ocorreu no Oriente Médio ou em regiões próximas, o que indica sua existência em bom número nas terras bíblicas, especialmente no Egito, onde eram comuns e até reverenciados.
Eu levanto outra hipótese: talvez a Bíblia não fale em gatos domésticos por eles não se harmonizarem com a conflituosidade que marca os livros bíblicos. Por tratar da história humana, a Bíblia está recheada de conflitos, desde a contenda inicial no Jardim do Éden até a grande batalha final do Apocalipse. A Bíblia fala de lutas entre o bem e o mal, entre Deus e o Diabo, entre humanos e Deus, entre humanos e humanos e das lutas interiores em cada ser humano. Mostra como os conflitos surgem e como sobreviver no meio deles. Proclama a paz, mas a retrata como algo instável, que precisa ser cultivada com muito cuidado e que só existirá plenamente em um mundo futuro.
Se os gatos domésticos estimulam a convivência pacífica entre os humanos, como revelam as redes sociais, de certo modo eles podem ser vistos como mensageiros da paz desejada na Bíblia, ainda que não sejam citados no texto bíblico. Por isso, parafraseando o refrão da música dos Golden Boys, quanto à guerra política na internet estou pensando em adotar como lema “Eu não vou mais discutir, só vou falar de gatos”.
(Paulo José Corrêa é pós-graduado em Letras, mestre em Direito e autor do livro Três Bilhetes e um Segredo)