
O acordo Mercosul–União Europeia sofreu um novo percalço com a decisão do Parlamento Europeu de levar o texto para avaliação do Tribunal de Justiça da União Europeia. O vice-presidente Geraldo Alckmin minimizou o episódio, dizendo que é algo superável. Mas, na prática, o processo parece ter parado e pode exigir nova rodada de negociação. O deputado Pompeo de Mattos (PDT/RS), membro do Parlasul deu um entrevista à coluna Repórter Brasília, avaliando o que pode acontecer, a partir de agora. Fez também uma avaliação das ações conquistadoras e ameaças a alguns países, que vem sendo feitas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Pompeu de Mattos:“Na verdade, não é fácil. Esse entendimento nunca foi fácil. E se fosse fácil, perdia a graça. Não é possível ficar 26 anos negociando e achar que, de um dia para o outro, o negócio resolve tudo. Se ficou 26 anos é porque era algo complexo. E, para concluir algo complexo, evidentemente, contém mais complexidades.
A União Europeia aprovou e o Parlamento questionou por uma maioria apertadíssima, de dez votos. Isso é do jogo. É do processo democrático deles. Mas é preciso entender a estrutura: existe o Parlamento da União Europeia e existe o Executivo, que é a Comissão Europeia.
A Comissão Europeia aprovou, assim como o Mercosul aprovou. Aqui, o Parlasul também apoiou a decisão do Mercosul. Lá, o Parlamento da União Europeia não apoiou integralmente a decisão da Comissão. Isso é uma questão interna deles.”
Parlamento, Comissão Europeia e o peso real das decisões
Repórter Brasília – Essa divergência interna pode travar o acordo de forma definitiva?
Pompeu de Mattos: “Eu entendo que isso é uma fase. Vai para o tribunal, sim, mas a Comissão Europeia é mais importante do que o Parlamento nesse processo. Ela é o Executivo do projeto. E vai trabalhar para consolidar o acordo.
Além disso, mais importante até do que o Parlamento Europeu é o Parlamento de cada país da União Europeia. No fim das contas, quem decide são os Estados nacionais. O acordo precisa ser referendado por cada país, um a um.
Isso prevê um período de até dois anos. Então as coisas vão andar. Não com a velocidade que nós queríamos, que nós gostaríamos, mas vão andar. Na minha opinião, é um processo que não tem volta.”
Acordo sem retorno: mercado, pressão e geopolítica
Repórter Brasília – O senhor acredita que, apesar das dificuldades, o acordo é irreversível?
Pompeu de Mattos :“Eu acredito que não tem volta porque é mais um mercado que se abre para o Mercosul e para a União Europeia. E tem outro fator decisivo: eles estão cada vez mais apertados pelo Trump.
A União Europeia está imprensada. Nós, do Mercosul, não temos força para colocar a Europa contra a parede. Mas o Trump coloca eles contra a parede a hora que quer. Ele pressiona economicamente, politicamente e militarmente.”
Trump, “chantagem econômica e ameaça bélica”
Repórter Brasília – Como o senhor avalia esse comportamento errático do presidente Donald Trump, de avançar, recuar e voltar a pressionar?
Pompeu de Mattos: “O Trump faz uma jogatina política invocando questões econômicas. Ele coloca o peso econômico dos Estados Unidos e o peso militar em jogo. Primeiro ele pune economicamente. Se a punição não basta, ele ameaça com armas. Isso se torna irresistível para quem está do outro lado.
Veja o caso da Groenlândia. O que a União Europeia quer com a Groenlândia? Vamos combinar: nada. Para a Europa, a Groenlândia não interessa economicamente nem militarmente. É uma questão mais simbólica, de soberania e independência.
Para os Estados Unidos, interessa, e muito. Eles sabem o que tem lá, sabem o que podem explorar. E, ao mesmo tempo, oferecem esse ‘domo de ouro’, dizendo para a Europa: ‘eu vou proteger vocês dos mísseis russos’. É chantagem pura.”
O “xerifão do mundo” e a política da intimidação

Repórter Brasília – O senhor chega a classificar Trump como um líder perigoso?
Pompeu de Mattos: “O Trump é um chantagista. Ele não pratica atos de paz, pratica atos de chantagem econômica e de ameaça bélica para tirar vantagem: vantagem econômica, financeira, patrimonial, territorial.
Ele transformou o mundo. Ele age como uma espécie de ditador do mundo, o xerifão do mundo. É como aquele gurizinho que é dono da bola: ‘se não for do jeito que eu quero, eu levo a bola embora’.
Se não aceitarem, ele pune financeiramente, impõe taxas. Se resistirem às taxas, ele invade. Encosta um porta-aviões e pronto. O outro lado não tem o que fazer.”
Putin, Ucrânia e o espelho autoritário
Repórter Brasília – O senhor vê paralelos entre Trump e Putin?
Pompeu de Mattos :“Nós achávamos que o Putin era ruim, mas não tem algo tão ruim que não possa piorar. O diabo sabe para quem aparece.
O Trump está apoiando o Putin, conversando com ele. Por quê? Porque ele viu o Putin fazer e gostou. E quer fazer igual. Ele colocou a Ucrânia de joelhos para que o Putin conclua o serviço.
E ele quer fazer a mesma coisa em outros lugares: com a Groenlândia, com o México, como tentou fazer com a Venezuela. O caso do petróleo venezuelano é claro. Tudo isso faz parte da mesma lógica.”
“Conselho da Paz” ou institucionalização da guerra
Repórter Brasília – E esse chamado “Conselho da Paz” que Trump anuncia criar?
Pompeu de Mattos :“Presidente vitalício da paz? Na verdade, da guerra. Esse cara tem um problema sério. Ele é um Hitler sofisticado.”

Leonel Brizola: soberania, enfrentamento e atualidade
Ao encerrar a entrevista, o deputado faz questão de recorrer à história brasileira e lembrar Leonel Brizola, ex-governador do Rio Grande do Sul e do Rio de Janeiro, como referência de resistência à pressão internacional.
Pompeu de Mattos: “Por isso que o Brizola tinha razão. Ele foi o único que encampou a ITT, que era a empresa de telefonia que não atendia o povo, e a Bond and Share, da energia elétrica.
Os americanos já faziam esse tipo de pressão lá atrás. E com o Brizola eles deram com os burros n’água. O Brizola era adiante do seu tempo. O que está acontecendo hoje, tentaram fazer com ele naquela época — e ele resistiu.”
O deputado conclui acentuando que “por isso que Leonel Brizola sempre foi adiante do seu tempo. O que está acontecendo hoje, ele já enfrentava lá atrás e tinha resposta. Aquela frase dele é atualíssima: ‘tá aí, ó, os interesses, com sotaque gaúcho, — internacionais’.
Portal Repórter Brasília, Edgar Lisboa