
Por Edgar Lisboa
Da crise no PL ao fortalecimento da bancada feminina, mulheres ampliam influência e mostram que seu peso político já não pode ser ignorado
A mobilização feminina na política brasileira ganhou novo fôlego e um significado ainda mais amplo nas últimas semanas. O episódio envolvendo a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e o senador Flávio Bolsonaro acabou extrapolando os limites de uma divergência interna no campo conservador e revelou uma realidade cada vez mais evidente: as mulheres conquistam espaço próprio, voz ativa e capacidade crescente de influência nos rumos da política nacional.
Ao afirmar publicamente que se sentiu “humilhada”, “maltratada” e “desrespeitada” durante uma conversa telefônica com Flávio Bolsonaro, Michelle provocou uma reação imediata entre lideranças femininas. Mesmo após a entrada em cena de Jair Bolsonaro, do presidente do PL, Valdemar Costa Neto, e de outras lideranças para reduzir as tensões, o episódio deixou marcas políticas importantes.
A principal delas foi a rápida mobilização das mulheres em defesa da ex-primeira-dama. Não apenas integrantes do PL Mulher ou lideranças evangélicas, mas representantes de diferentes correntes políticas manifestaram solidariedade. Em Brasília, a governadora do Distrito Federal, Celina Leão (Progressistas) e, a senadora Damares Alves Republicanos) posicionaram-se ao lado da aliada e amiga.
Michelle resumiu o sentimento ao repetir uma frase que rapidamente ganhou repercussão entre suas apoiadoras: “Mexeu com uma, mexeu com todas”. A reação demonstrou algo que muitas vezes passa despercebido nas análises tradicionais: as mulheres têm construído redes de apoio político cada vez mais sólidas, capazes de ultrapassar disputas eleitorais e interesses partidários imediatos.
A força da articulação feminina
O episódio também evidenciou uma diferença importante dentro do campo conservador. Flávio Bolsonaro possui o sobrenome mais conhecido da direita brasileira e acumula experiência parlamentar. Michelle, por sua vez, construiu um ativo político próprio: a capacidade de mobilizar mulheres em todo o país.
Antes mesmo das eleições de 2022, quando ainda consolidava sua atuação à frente do PL Mulher, Michelle percorreu diversos estados ao lado de Celina Leão e Damares Alves. O objetivo era ampliar a participação feminina na política, aproximar mulheres conservadoras do debate público e fortalecer pautas ligadas à defesa da vida, da família, da liberdade religiosa e da participação cidadã.
Ao longo dos últimos anos, esse trabalho ajudou a formar uma base política permanente. Juntas, Michelle, Celina e Damares passaram a representar um dos núcleos femininos mais influentes da direita brasileira, mantendo uma relação marcada pela cooperação e pela atuação conjunta em diferentes frentes.
O avanço das mulheres
O que ocorreu dentro do PL é apenas um reflexo de uma transformação maior. Embora ainda ocupem menos espaços do que os homens, as mulheres vêm ampliando gradualmente sua presença nas estruturas de poder.
No Congresso Nacional, a bancada feminina tem se mostrado cada vez mais organizada. Em temas relacionados à violência contra a mulher, igualdade de oportunidades, participação política e combate à discriminação, parlamentares de diferentes partidos frequentemente deixam as divergências ideológicas de lado para atuar em conjunto.
Nos últimos anos, a pressão feminina foi decisiva para o avanço de legislações voltadas à proteção das mulheres, ao combate ao feminicídio, à violência política de gênero e ao fortalecimento da representação feminina nos espaços institucionais.
Mesmo enfrentando obstáculos históricos e, em muitos casos, manifestações explícitas ou veladas de machismo, as parlamentares têm demonstrado capacidade crescente de articulação e influência. Hoje, dificilmente qualquer partido ignora a importância do eleitorado feminino ou deixa de investir em lideranças mulheres.
Protagonismo sem volta
A pré-campanha presidencial de 2026 ainda está em construção, mas a disputa pelo protagonismo dentro dos diversos campos políticos já começou. O episódio envolvendo Michelle e Flávio Bolsonaro mostrou que os desafios das lideranças nacionais não se limitam aos adversários externos. Também envolvem a capacidade de compreender as mudanças que ocorrem dentro dos próprios grupos políticos.
Por enquanto, o esforço é para apagar o incêndio e preservar a unidade da oposição. A dúvida é se as divergências foram efetivamente superadas ou apenas retiradas dos holofotes.
As pesquisas e, posteriormente, as urnas dirão qual será o peso eleitoral de cada liderança. Mas uma conclusão já pode ser extraída do episódio: as mulheres deixaram de ser apenas apoiadoras ou coadjuvantes da política brasileira. Tornaram-se protagonistas de um processo que avança lentamente, porém de forma consistente.
E quem ainda não percebeu essa mudança corre o risco de descobrir tarde demais que a política brasileira já não pode ser compreendida sem a força, a organização e a influência crescente das mulheres.
Portal Repórter Brasília, Edgar Lisboa