Mulheres jornalistas: entre a conquista de espaços e os desafios diários da profissão

Por Edgar Lisboa

Ilustração (Edgar Lisboa com recursos de IA)

O Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, foi oficializado pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1975 como um marco global de reconhecimento da luta histórica das mulheres por igualdade de direitos, melhores condições de trabalho e participação plena na vida social, política e econômica. Mais do que uma data simbólica, o momento serve para refletir sobre avanços conquistados e, sobretudo, sobre os desafios que ainda persistem em diversas áreas profissionais, entre elas, o jornalismo.

A presença feminina no jornalismo

Nas últimas décadas, as mulheres conquistaram espaço significativo nas redações, universidades e veículos de comunicação. Hoje, elas estão presentes em praticamente todas as áreas da profissão: reportagem, edição, produção, colunismo, televisão, rádio e jornalismo digital.

Em muitos cursos de comunicação social, inclusive, as mulheres já representam maioria entre os estudantes. Essa presença crescente ajudou a ampliar olhares, diversificar pautas e incluir temas historicamente negligenciados pela cobertura tradicional, como desigualdade de gênero, violência doméstica, direitos reprodutivos e participação feminina na política e na economia.

Apesar desse avanço quantitativo, a realidade profissional ainda apresenta barreiras estruturais que afetam diretamente a trajetória das jornalistas.

Desafios na busca por informação

No exercício cotidiano da profissão, muitas jornalistas relatam enfrentar dificuldades adicionais na apuração de informações. A resistência de fontes, a desconfiança em ambientes tradicionalmente dominados por homens e até a tentativa de desqualificação profissional fazem parte da rotina de muitas repórteres.

Em coberturas políticas, econômicas ou policiais, áreas historicamente masculinizadas ainda é comum que mulheres jornalistas tenham sua autoridade questionada ou precisem provar constantemente sua competência.

Essa situação se torna ainda mais visível em ambientes como parlamentos, tribunais, quartéis ou bastidores de grandes negociações políticas, onde o acesso à informação muitas vezes depende de relações de confiança construídas em espaços informais tradicionalmente frequentados por homens

Ana Amélia Lemos, jornalista e ex-senadora

Ana Amélia Lemos

A presença feminina no jornalismo cresceu de forma significativa nas últimas décadas. As mulheres ocupam hoje espaços importantes nas redações, na televisão, no rádio e nas plataformas digitais. Ainda assim, a rotina profissional das jornalistas segue marcada por desafios que vão desde preconceitos e pressões profissionais até riscos relacionados ao exercício da própria atividade.

Nesse cenário, um princípio permanece central para a profissão: a defesa incondicional da liberdade de imprensa, considerada um dos pilares da democracia.

Para a jornalista e ex-senadora Ana Amélia Lemos, a liberdade de expressão não pode ser relativizada e deve valer igualmente para todos os profissionais da comunicação, independentemente de gênero.

“A questão da liberdade de imprensa ou liberdade de expressão na democracia é um pressuposto inalienável primeiro e aí não tem gênero.”

Segundo ela, o exercício do jornalismo exige as mesmas garantias e responsabilidades para todos os profissionais.

“O exercício da liberdade de imprensa é idêntico para qualquer gênero. Para homem, mulher e qualquer ser humano que esteja lidando com isso, seja o profissional de comunicação.”

O drama do feminicídio

Na avaliação de Ana Amélia, além das dificuldades enfrentadas pelas mulheres no mercado de trabalho, existe um problema ainda mais grave que atinge diretamente a sociedade brasileira: o crescimento dos casos de feminicídio.

“Nós estamos vivendo, em relação à questão da mulher, um problema mais grave do que a liberdade de expressão, que é o direito à vida.”

Ela classifica o aumento dos casos como um fenômeno alarmante.

“Esse é o mais grave que nós estamos vivendo, que é essa febre de feminicídio, que é uma coisa desumana e alarmante, porque a gente só vê os números crescerem.”

Para a jornalista, a discussão sobre o tema precisa ir além da abordagem policial ou estatística e envolver diferentes áreas do conhecimento.

“Essa onda que nós estamos vivendo agora tem que ser discutida do ponto de vista psicológico, sociológico, do comportamento e da própria condição feminina.”

O papel da imprensa

Ana Amélia ressalta que a imprensa tem o dever de informar, mas destaca que o impacto das notícias também precisa ser analisado.

“Nós não podemos limitar a liberdade de expressão. Tem que divulgar, tem que falar.”

Ao mesmo tempo, ela levanta uma reflexão sobre os efeitos que a divulgação repetida de crimes violentos pode provocar em pessoas emocionalmente fragilizadas.

“Qual a repercussão dessa notícia na mente de uma pessoa doentia, na mente de uma pessoa que esteja emocionalmente mal?”

Segundo ela, existe o risco de que determinados crimes ganhem uma espécie de “efeito de repetição”, influenciando indivíduos com comportamento violento.

O exemplo do “crime Riffifi”

Para ilustrar essa preocupação, Ana Amélia recorda um episódio conhecido na história criminal.

“Houve um crime chamado ‘Riffifi’, que foi um roubo de joias em uma grande joalheria. Depois que esse crime ganhou repercussão e virou filme, começaram a se repetir assaltos exatamente iguais. Passaram a chamar de roubo à moda Riffifi.”

Ela lembra que situações semelhantes podem ocorrer quando determinados crimes são amplamente divulgados com detalhes.

“A mente humana é suscetível a essas influências e impactos.”

Ainda assim, a jornalista deixa claro que não defende qualquer tipo de censura. “Vão dizer que eu estou querendo censurar. Não é isso, absolutamente. Eu sou jornalista. Jamais defenderia isso.”

Para Ana Amélia, a preocupação está no equilíbrio entre o dever de informar e a responsabilidade social da comunicação.

“Tem que ter consciência e clareza. Quando se relata um crime com muitos detalhes, isso pode alcançar uma mente doentia e estimular alguém a repetir aquilo.”

Jornalismo, responsabilidade e democracia

Ao final, Ana Amélia reafirma que a liberdade de imprensa continua sendo um valor essencial para a democracia e para o trabalho dos jornalistas,  homens e mulheres.

Mas destaca que, diante de fenômenos graves como o feminicídio, o debate precisa envolver também aspectos sociais, psicológicos e culturais.

Para ela, a imprensa deve continuar informando, denunciando e acompanhando esses casos, sem abrir mão da reflexão sobre os impactos que determinadas narrativas podem produzir na sociedade.

Jornalista Ivani Flora, repórter e editora de TV para emissoras europeias no Brasil

Ivani Flora

A jornalista Ivani Flora disse à coluna Repórter Brasília que, “a todos esses problemas estruturais ainda muito presentes no dia a dia das jornalistas, poderia acrescentar detalhes como, por exemplo, a pressão velada, só que não, por um padrão estético e também o etarismo, principalmente para as profissionais que têm sua imagem veiculada”.

“Como é triste ver, particularmente, as jornalistas que aparecem em estúdio terem que se equilibrar em saltos altíssimos, encolher o abdômen em roupas justas e usar maquiagens elaboradas, que claramente tomam um tempo precioso que poderia ser dedicado à apuração”, afirmou.

Para Ivani Flora, “tudo isso acontece para que se protejam da cobrança corporativa e também do público, que costuma ser muito mais tolerante com os homens, os quais têm o conforto da capa protetora do terno e não passam pelo mesmo escrutínio de detalhes da pele ou de um cabelo desalinhado”, acentuou a repórter e editora.

Discriminação e assédio

Outro problema recorrente relatado por profissionais da imprensa é o assédio moral ou sexual, seja dentro das redações, seja durante coberturas externas. Comentários desrespeitosos, questionamentos sobre aparência ou tentativas de constrangimento são práticas que ainda aparecem em relatos de jornalistas em diferentes regiões do país.

Portal Repórter Brasília, Edgar Lisboa