
Às vésperas do 8 de Março, Dia Internacional das Mulheres, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública divulgou pesquisa que mostra a escalada crescente de violência contra a mulher em nosso país. O número de feminicídios bate recorde ano após ano. Gostamos de apontar o dedo para outras sociedades e culturas diferentes e acusá-las de machismo, de tratar mal as mulheres, mas pecamos na autorreflexão. Como nação de base ocidental e origens na sociedade judaico-cristã, deveríamos atentar mais para o que dizem as Escrituras que constituem fundamento de nosso tecido social.
Sem qualquer pretensão de esgotar o assunto, consideremos, por exemplo, o texto de Gn 2.18, onde vemos Deus criando a mulher: “Disse mais Deus Jeová: Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma ajudadora que lhe seja idônea.” Essa passagem é comumente utilizada de forma distorcida e depreciativa às mulheres para relegá-las a papel de menor valor. Afinal, quando ouvimos o termo “ajudadora” (ou “auxiliadora” ou ainda adjutora, de acordo com a versão bíblica), isso normalmente nos remete a um auxiliar, alguém com um papel secundário e de menor valor. Como nossa sociedade infelizmente apresenta fortes raízes em um patriarcalismo anacrônico, muitas vezes, mesmo na igreja, interpretou-se o papel da mulher dessa forma, como inferior. Contudo, não é esse o sentido do texto no original hebraico.
A palavra original utilizada em Gn 2.18 é עֵזֶר (êzer). Esse termo, em outras passagens é utilizado em referência ao próprio Deus. Observemos que, logo depois de Gênesis, esse termo ocorre novamente em Ex 18.4, que diz “[…]O Deus de meu pai foi a minha ajuda [êzer] e me livrou da espada de Faraó”. Ocorre ainda em trechos famosos como no Salmo 121: “Elevo os olhos para os montes: de onde me virá o socorro [êzer]? O meu socorro [êzer] vem do SENHOR, que fez o céu e a terra.” O termo também aparece na Bíblia em português, em forma mais próxima de sua pronúncia original, em outro trecho conhecido situado em 1 Sm 7.12. Ali vemos o nome Ebenézer, quando Samuel diz “até aqui nos ajudou o Senhor”.
Se Deus é o nosso ajudador, certamente esse papel não é inferior. O termo tem um sentido de ajuda ou socorro. Ora, quando você se socorre de alguém é porque essa pessoa pode fazer algo por você que você não pode. Quando olhamos para Deus, isso parece óbvio: ele pode todas as coisas, até mesmo o impossível, por isso nos socorremos dele (quem nunca ouviu um “Deus nos ajude”?). Mas mesmo quando olhamos para situações mais triviais de nossa vida terrena, o auxílio ou socorro também tem esse mesmo sentido.
Pense, por exemplo: em que situações você se dirige a um Pronto-Socorro? Normalmente, você vai ao hospital quando precisa de um socorro que está além das suas habilidades. O remédio que você tem em casa não é mais suficiente para resolver aquele problema, então você precisa da ajuda de alguém, um profissional de saúde, que tem habilidades e conhecimentos que você não tem. Da mesma forma, quando tem um problema jurídico, você se socorre de um(a) advogado(a), porque ele ou ela tem habilidades e conhecimentos que você não tem. Isso não faz que médicos ou advogados sejam melhores do que você, apenas são pessoas com habilidades diferentes e, portanto, complementares às suas. Mas certamente também não os situam em papel secundário ou de inferioridade. Assim, o papel do(a) ajudador(a) é complementar.
No caso da mulher, ela possui características distintas que fazem com que ela tenha uma percepção de situações diferenciada em relação ao homem. Cada um, homem e mulher, enxerga detalhes distintos e é capaz de fazer coisas que o outro não consegue. Quando trabalham juntos, conseguem ter uma visão de mundo muito mais completa e justa. Dessa forma, nossa sociedade se beneficiaria muito de ter uma divisão mais equilibrada entre homens e mulheres nas posições de autoridade nas mais diversas esferas da coletividade. Talvez assim teríamos um mundo menos violento e veríamos menos abusos e feminicídios cometidos contra as mulheres.
Cristãos que servem a esse Deus criador e ajudador revelado nas Escrituras precisam deixar preconceitos antigos de lado e colaborar nesse sentido. Ao homem cristão, em particular, cumpre reconhecer a mulher na condição de igualdade e complementaridade que Deus reservou a ela ao designá-la “ajudadora”. A igreja cristã pode – e deve – contribuir e impactar positivamente a sociedade ao buscar resgatar as mulheres para a posição de paridade e destaque na criação que Deus originalmente lhes destinou.
Paulo Magno é servidor público, engenheiro mecatrônico com pós-graduação em gestão e mestrado em segurança cibernética.